Por que decidi aprender russo e como foi difícil para uma falante de chinês

Arquivo pessoal
Chang Le cresceu no sul da China e, até viajar para a Rússia, nunca tinha visto neve na vida. Isso não a impediu de aprender russo e se formar na Faculdade de Jornalismo da Universidade Estatal de Moscou. No entanto, mesmo depois de cinco anos, ela ainda segue na batalha contra alguns aspectos do aprendizado do idioma.

“Jovenzinha, seu pedido é ilegal!”, gritou a diretora idosa no alojamento. “Você será punida por isso, enviada para a Sibéria por dez anos! Dez anos na Sibéria; você entende?”

Tudo o que fiz foi pedir a ela um quarto diferente no alojamento. Este foi, talvez, o episódio mais extremo nas minhas interações com os russos. Na época, fiquei na dúvida de que ela tivesse me entendido corretamente. Na hora fiquei chocada, mas agora tudo soa engraçado. Claro, ninguém iria me mandar para a Sibéria, exceto, talvez, em uma viagem turística.

Nunca pensei em estudar russo até escolher minha universidade. A única língua estrangeira popular entre a maioria dos chineses é o inglês. Nas escolas na China, todos os alunos aprendem inglês desde a terceira série até se formarem no Ensino Médio, por cerca de 10 anos no total. E eu não fui exceção.

A língua russa era popular entre os chineses no século 20. Meus pais estão agora na casa dos 60 anos, mas, na juventude, como todos os jovens chineses da época, eles estudaram russo. Naquela época, no entanto, começou a cisão sino-soviético, por isso eles nunca terminaram de aprender russo e depois estudaram inglês. Mas ainda tenho livros antigos de russo da década de 1950 em casa, assim como muitos clássicos russos em chinês.

Embora eu não entendesse nada de russo até os 18 anos, a literatura russa que li em traduções chinesas me tocou muito. “O Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, e os poemas de Bulat Okuzhava deixaram uma impressão particularmente duradoura. Essa literatura foi a que mais me influenciou, além da minha literatura chinesa nativa. Outro fator foi que algumas músicas russas são amplamente conhecidas na China, por exemplo, “Noites de Moscou”.

Tudo isso me levou a aprender mais sobre a Rússia – que para nós, os chineses, parece familiar, mas ainda assim misteriosa.

Depois de terminar o Ensino Médio, decidi estudar na Rússia. Minha decisão foi influenciada, entre outras coisas, pelo rápido desenvolvimento das relações sino-russas. O governo chinês incentiva os chineses a estudar na Rússia, oferecendo diversas bolsas de estudo. Em 2020, havia mais de 100 mil intercambistas estudando nos dois países. Eu tinha expectativa de que, em comparação com obter um diploma universitário na própria China, estudar na Rússia me traria benefícios inesperados e abriria novos horizontes.

Como eu estava indo para a Rússia para estudar e morar, era importante falar russo. É por isso que comecei a aprender russo um ano antes de entrar na Universidade Estatal de Moscou – por seis meses na China e outros seis em Moscou. Após um ano de estudos, meu nível de russo era B1. Eu era capaz de ler textinhos e me expressar com palavras simples.

Escolhi a Faculdade de Jornalismo da Universidade Estatal de Moscou porque vi que a China e a Rússia têm um potencial muito bom de cooperação no setor de mídia. E funcionou: primeiro me ofereceram um estágio e depois um emprego no RT China. Meu conhecimento de russo também desempenhou um papel importante nesse contexto.

Primeira experiência de comunicação em russo

Ainda me lembro bem de quando cheguei à Rússia. Era janeiro de 2017, a época mais fria em Moscou, com temperaturas em torno de -20ºC. Na época, eu só conseguia ler um pouco em russo e dizer algumas palavras e frases simples.

No mesmo dia, dei entrada no alojamento da Universidade Estatal de Moscou. Estava muito frio e eu estava com fome. Saí para comprar comida e vi um jovem casal caminhando lentamente pela rua nevada. Aliás, eu nunca tinha visto neve antes, pois cresci no sul da China. Tomei coragem, fui até eles e perguntei: “Vocês podem me dizer onde fica o supermercado?”. A menina respondeu gentilmente: “Eu não sei... você provavelmente precisa seguir um pouco mais adiante e depois virar à direita”.

Fiquei muito empolgada porque essa foi minha primeira experiência de comunicação com russos em russo, “na selva”, digamos assim. Eles entenderam o que eu disse, e eu entendi o que eles responderam! Essa experiência me deu muita confiança. Desde então, gosto de me comunicar com os russos – bem, exceto, talvez, com as rígidas diretoras do alojamento.

Guardas carrancudas, porém amorosas

Aquelas bábuchkas (vovós) que fazem a guarda do alojamento ficavam geralmente bravas com os estudantes estrangeiros porque não entendíamos russo muito bem. Certa vez, pedi à diretora-chefe para me colocar em um quarto diferente. Talvez ela estivesse de mau humor naquele dia ou não tenha entendido meu pedido, mas ela ficou furiosa e me presenteou com o monólogo acima sobre me enviar para a Sibéria.

De um modo geral, a maioria das bábuchkas russas que conheci não eram apenas fortes e diretas, mas também de bom coração. O Ano Novo chinês caiu bem no quarto dia após minha chegada à Rússia, e minha carteira, com meu passaporte, todos os cartões, e também um passe de metrô, foi roubada. Foi então que aconteceu um “milagre” de Ano Novo.

Desamparada, eu estava sentada no meu quarto, sentindo pena de mim mesma, e as bábuchkas me trouxeram chocolates e salgadinhos para me consolar: “Tudo é passageiro, tudo vai passar. O que passar será doce”. E assim me apresentaram os poemas de Púchkin.

É difícil para uma falante de chinês aprender russo?

Eu sou boa com idiomas, portanto, aprender russo não foi difícil para mim. Porém, no início achei muito difícil, pois o chinês e o russo pertencem a famílias linguísticas diferentes.

Por exemplo, em russo existem seis casos de declinação para substantivos e conjugações verbais com diferentes terminações. Cometo muitos erros nas conjugações verbais. Os russos nem sempre entendem do que estou falando. Em chinês, as palavras não mudam dependendo do caso de declinação ou da conjugação.

Além disso, ainda não entendo muitas expressões em russo. Antes do exame final na Universidade Estatal de Moscou, minha supervisora me disse com um sorriso: “Ни пуха ни пера!” (Que você não ganhe nem uma pena!). Achei que era um desejo de boa sorte. Não era lógico supor isso? Então, respondi educadamente: “Obrigada”. Mas ela riu e disse que eu deveria ter respondido: “К черту!” (Para o inferno!). Infelizmente, ainda não entendi a lógica desse trocadilho, embora tenha pedido a amigos russos que a explicassem para mim.

Além disso, costumo confundir os pronomes “ele” e “ela” quando falo russo (em chinês, os pronomes em terceira pessoa para homens e mulheres são os mesmos). Também não consigo distinguir algumas formas curtas de nomes russos. Por exemplo, Sasha pode ser a versão curta informal do nome masculino, Aleksandr, e da versão feminina, Aleksandra. Iekaterina pode ser chamada de Katiucha e Kátia... As formas curtas dos nomes russos não facilitam a descoberta do nome completo de uma pessoa.

Eu já estudo russo há cinco anos. Enquanto morava e estudava em Moscou, falava muito mais russo do que chinês. Isso me ajudou a entender melhor a cultura russa. Criei coragem e comecei a viajar sozinha pelo país. Nessas viagens, fiz amigos russos em diversas cidades. Antes de voltar para a China, também comprei vários livros russos para continuar lendo no idioma. Graças à língua, aprendi mais sobre a Rússia e isso me proporcionou mais oportunidades de carreira. É um idioma que vai permanecer comigo por toda a vida.

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