Como a Rússia ajuda os refugiados afegãos?

Russia Beyond (Foto: Mikhail Mishchenko/Getty Images; Arquivo pessoal)
O Russia Beyond investigou como as pessoas recém-chegadas do Afeganistão sobrevivem em um país que não dá status de refugiado a quase ninguém.

Omid, de 30 anos, se formou pela Faculdade de Inglês e Literatura da Universidade Estatal Herat, no Afeganistão, e há apenas um ano trabalhava como editor para um canal de TV local. Hoje, ele se levanta às 4 da manhã todos os dias. Uma hora depois, abre o mercado “Moskva”, no distrito de Liublino, no sudeste de Moscou, seu novo local de trabalho.

Todos os dias, sete dias por semana, das 5h às 18h, Omid vende sacolas, carteiras e bolsas da China, recebendo 30.000 rublos por mês (cerca de US$ 413). A quantia é suficiente para comida, uma cama em um quarto para oito pessoas perto do mercado (8.000 rublos por mês, cerca de US$ 110) e ainda enviar uma remessa para sua esposa, que continua no Afeganistão. Ele admite se sentir deprimido na Rússia, e seu chefe exige cada vez mais dele.

Apesar das dificuldades, Omid diz ter sorte de ter um emprego e um teto sobre sua cabeça. Muitos ilegais não têm nem isso e estão condenados a uma existência ainda mais dura.

“Quero que alguém me ajude a me registrar oficialmente aqui [junto às autoridades de imigração] e obter permissão para minha esposa e família se mudarem para a Rússia. Minha vida no Afeganistão foi destruída; trouxe muito sofrimento. Tenho que começar do zero em Moscou, é muito difícil e estou cansado”, reclama Omid.

Em 13 de abril, o presidente dos EUA Joe Biden anunciou a retirada das tropas americanas do Afeganistão até o final de agosto de 2021. No intervalo de quatro meses, os radicais islâmicos do Taleban (reconhecido como organização terrorista na Rússia) recapturaram completamente o Afeganistão, conforme declarado por seus líderes em 15 de agosto.

Omid

Na sequência, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakhárova, declarou que a Rússia estava preparada para ajudar a evacuar os refugiados afegãos, mas apenas rumo a países estrangeiros.

“Estamos prontos para fornecer serviços de aviação civil russa para voos para qualquer número de cidadãos afegãos, incluindo mulheres e crianças, para qualquer país estrangeiro que mostre interesse em recebê-los”, afirmou Zakhárova à imprensa em 19 de agosto.

O presidente russo Vladimir Putin se manifestou contra a chegada de refugiados do Afeganistão na Rússia, bem como nos países da Ásia Central, antes de terem recebido vistos para os Estados Unidos e Europa, alegando razões de segurança e a ameaça de extremistas entrarem no país sob o disfarce de refugiados.

“O número de [refugiados] pode estar na casa dos milhares, até mesmo centenas de milhares. Talvez na casa dos milhões. E nós e nossos aliados e vizinhos mais próximos nem mesmo temos restrições de visto. Que fronteira existe? Tem milhares de quilômetros de comprimento. Eles podem pegar um carro ou até mesmo um burro e cavalgar pela estepe”, disse Putin em 22 de agosto, reunido com representantes do partido Rússia Unida.

Além do mais, a Rússia fornece em raros casos o status de refugiado para imigrantes. No final de 2020, havia apenas 455 refugiados registrados no país, e ao longo de 2020 apenas 28 pessoas receberam esse status, segundo o jornal Parlamentskaya Gazeta, que teve acesso a um relatório da Agência Federal para Assuntos Étnicos.

Em 25 de agosto, o país evacuou cidadãos russos, bem como da Bielorrússia, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e Ucrânia, a bordo de cinco aviões do Ministério da Defesa; cerca de 500 pessoas no total. No entanto, alguns afegãos também conseguiram entrar na Rússia. Além disso, há estudantes afegãos em universidades russas que têm medo de voltar para casa e sonham em salvar seus entes queridos do país ocupado pelo Taleban.

Quantos afegãos há na Rússia? Como eles sobrevivem? Quem os ajuda a se estabelecerem em um país que não aceita oficialmente refugiados?

Esquema com Fan ID, prisão e multas

Em 15 de agosto, data em que o Taleban assumiu oficialmente o controle do Afeganistão, cerca de uma dúzia de estudantes afegãos da Escola de Criação de Cães da Polícia de Rostov, do Ministério do Interior russo, em Iegorievsk (97 km de Moscou) procuraram a Assistência Cívica, uma das poucas ONGs na Rússia que ajuda migrantes e refugiados (em 2015, a Rússia a reconheceu como “agente estrangeiro”). O centro oferece assistência jurídica, médica e humanitária e também ajuda na socialização, com aulas de russo on-line.

Os estudantes imploraram aos funcionários da ONG que o ajudassem a realocar suas famílias para a Rússia e questionavam se seriam deportados ao Afeganistão.

“Muitos pagam pelos estudos e não têm tempo para ganhar um dinheiro extra. Seus pais no Afeganistão enviam dinheiro para os estudos, dos quais muitos perderam suas casas e renda. Nós tentamos tranquilizar e ajudar nossos alunos afegãos, mas não sabemos se o Estado vai oferecer estudos a eles de graça”, disse Laila Rogôzina, uma das chefes da ONG.

Refugiados e migrantes do Afeganistão no Comitê de Assistência Cívica

Em junho de 2021, além de estudantes, cidadãos afegãos ainda podiam entrar livremente na Rússia com uma carteira tipo Fan ID, que permitia a torcedores estrangeiros assistirem a jogos de futebol da Euro 2021 no país. De acordo com as regras, os estrangeiros tinham que deixar a Rússia após o torneio até 12 de julho de 2021. Mas muitos afegãos, com receio do retorno do Taleban ao poder, usaram o sistema de Fan ID para escapar do país.

“Um ex-empresário nos procurou recentemente com sua mãe e irmã, era dono de uma fábrica de ar-condicionado no Afeganistão. Enquanto ele assistia à Euro, seu negócio foi tomado e saqueado pelo Taleban. Ele era um grande empresário, ricaço, mas perdeu tudo da noite para o dia. Ele diz: Eles vão me matar se eu voltar. Aluguei um apartamento aqui, não há onde trabalhar. Se as coisas se acalmarem amanhã, eu voltarei”, conta Fahim Feroz, um coordenador-intérprete da Assistência Cívica, sobre um dos casos na ONG.

Todos os dias, cerca de 10 a 20 afegãos procuram a Assistência Cívica para ajudá-los na obtenção de uma autorização de residência temporária ou asilo político. Nesse ínterim, alugam quartos de outros afegãos e procuram trabalho nos mercados, já que ninguém mais os aceita. Alguns refugiados podem ser alvos de skinheads, segundo Rogôzina, embora tais incidentes tenham se tornado mais raros recentemente. Quando os afegãos se inscrevem no serviço de migração para obter documentos, eles são detidos - não são expulsos do país, mas multados em 5.000 rublos (quase US$ 70) por violar a permanência em território russo.

“Recentemente, três afegãos foram detidos e deixados sem comida e água durante a noite em um centro de detenção temporário. Nossos advogados entraram com uma ação e os representaram em juízo - o resultado foi uma multa sem deportação”, relata Laila Rogôzina.

Outros grupos de afegãos tentaram, em junho e julho, entrar na Rússia pelo Uzbequistão e Tadjiquistão. Alguns foram detidos na fronteira ou dentro da Rússia e presos, diz Rogôzina.

Refugiados e migrantes do Afeganistão no Comitê de Assistência Cívica

“Em nossa instituição em Saratov há uma família grande que conseguiu cruzar a fronteira ilegalmente através do Tadjiquistão e pediu asilo político na Rússia. Os homens foram detidos e passaram dois meses na prisão, enquanto ajudávamos as mulheres e crianças com dinheiro. No fim das contas, o serviço de migração os enviou para um campo de refugiados em Krasnoarmeisk”, conta Rogôzina.

Segundo a ativista, a Assistência Cívica avalia individualmente cada pedido de ajuda financeira, uma vez que a organização sobrevive de doações e assistência das embaixadas de países da União Europeia. Na maioria das vezes, eles alocam dinheiro para aqueles que estão gravemente doentes ou para famílias com várias crianças.

“Se os refugiados afegãos chegam à Rússia e não podem voltar para casa porque é perigoso lá, o Estado deve aceitá-los, não se opor a eles”, acredita Rogôzina.

Vida na Rússia, medo do Afeganistão

Omid, assim como outros refugiados afegãos, entrou na Rússia sob o esquema de Fan ID, na esperança de permanecer. Seus parentes ficaram em sua terra natal, Herat, incluindo sua esposa, que estuda na única faculdade da cidade.

“Quando o Taleban entrou na cidade, pensei que eles poderiam matar as mulheres, por isso pedi para ela não ir mais à faculdade. Fui à Assistência Cívica, que disse que eu preciso obter uma autorização de residência temporária. Mas eu tenho medo de me inscrever no serviço de migração, já que não tenho documentos e eles podem me colocar na prisão. Estou com medo, mas sonho em me reunir com minha família”, explica Omid.

Natural de Cabul, o afegão chamado Bashir, de 25 anos, é aluno do quarto ano da Universidade Russa de Transporte e mora em um alojamento estudantil. Seus parentes permanecem no Afeganistão, e ele ganha a vida como intérprete de dari-russo.

“Eles não têm trabalho lá [no Afeganistão], nada, todos os escritórios e bancos estão fechados, as meninas não podem ir à escola. Quero ajudar minha família, mas não sei como e não sei quando tudo vai acabar”, diz Bashir.

Passageiros a bordo da aeronave de carga IL-76MD durante a evacuação de cidadãos russos do Afeganistão

Alguns afegãos formados em universidades russas foram obrigados a voltar para casa, mas ainda estão procurando maneiras de se mudar para a Rússia. Os estudantes estrangeiros podem solicitar uma autorização de residência temporária, desde que tenham estudado no campus e tenham recebido um “diploma vermelho” (graduado com honra ao mérito).

Elham ingressou no Instituto Militar Rokossovski, em Blagoveschensk (7.800 km de Moscou), em 2016 e se formou com um “diploma azul” (recebido por todos os formandos, independentemente das notas), que não lhe permite o pedido de autorização de residência na Rússia. Em 2021, quando os estudos foram concluídos, ele foi forçado a retornar a Cabul. Elham conta que foi muito difícil aprender russo e, apesar de reclamar da bolsa de 11.000 rublos (cerca de US$ 150) e de que “muitas vezes congelava no campo de tiro”, ainda quer voltar para a Rússia, “porque a vida no Afeganistão é muito mais difícil agora”.

“Os preços da farinha, manteiga e arroz dispararam; o Taleban espancou um amigo meu. O novo governo não tem planos para o futuro do país. Eles só dizem: ‘Sejam pacientes, Alá vai ajudar’. Eu quero um visto para a Rússia; afinal, estudei lá por seis anos”, diz Elham.

Não é país para refugiados

De acordo com o intérprete Fahim Feroz, um total de 100 mil afegãos vivem na Rússia, mas apenas 256 receberam o status de refugiados, e isso ocorreu na década de 1990. Outros 514 afegãos vivem na Rússia com direito de asilo temporário, relata o jornal Kommersant, com base em dados do Ministério de Assuntos Internos para 2020.

Os que querem ficar na Rússia são geralmente trabalhadores migrantes sem ensino superior. Afegãos falantes de inglês e com diploma universitário, especialmente médicos e engenheiros, preferem partir à Europa, usando a Rússia como país de trânsito, diz Fahim.

Passageiros durante a evacuação de cidadãos russos do Afeganistão no aeroporto militar de Chkalovsky, no norte de Moscou

“A Rússia não é um país para refugiados. Recebi [o status de refugiado] com muita dificuldade depois de 15 anos, e demorei mais de 20 anos para obter a cidadania, embora trabalhasse como intérprete e na rádio Sputnik. Nossos conhecidos estão esperando por uma entrevista para obter asilo temporário há meses, embora devam ser processados ​​dentro de uma semana após a chegada como refugiados. Essa é a recepção russa”, resume Feroz.

O Russia Beyond solicitou um posicionamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia sobre a assistência aos refugiados afegãos na Rússia. A assessoria de imprensa da pasta respondeu que questões relativas à migração são da competência do Ministério de Assuntos Internos e do Ministério da Educação. O Russia Beyond procurou representantes dos órgãos, mas até o momento da publicação desta matéria, não havia recebido uma resposta.

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