Adeus Lênin: como uma família se escondeu da civilização soviética (e russa) por décadas

Agáfia Likova, a única sobrevivente do retiro da família Likov, em 2018.

Agáfia Likova, a única sobrevivente do retiro da família Likov, em 2018.

Iliya Pitalev/Sputnik
Perseguida pelos serviços especiais soviéticos, família Likov se escondeu na floresta por anos a fio. Quando da família restou apenas uma mulher viva, ela tentou entrar em contato com o mundo exterior - mas não deu certo e ela retornou à taiga.

Roupa de cânhamo, sapatos de casca de bétula e fogo aceso com pedras. Nos verões, perigosos animais selvagens, e nos invernos, geadas e neve até a cintura. Nenhum conforto da civilização e uma distância de 250 quilômetros até a área povoada mais próxima.

Há 40 anos, sobrevoando de helicóptero os rincões da taiga, geólogos soviéticos avistaram uma horta em uma área desabitada norte do rio Abakan. Era a família Likov, seguidores dos Velhos Crentes: o pai e quatro filhos adultos.

Karp Ossipovitch.

Há 40 anos, sobrevoando de helicóptero os rincões da taiga, geólogos soviéticos avistaram uma horta em uma área desabitada norte do rio Abakan. Era a família Likov, seguidores dos Velhos Crentes: o pai e quatro filhos adultos.

Eles viveram isolados do mundo por muitos anos. Mas, depois de estrelarem um artigo de jornal, tornaram-se conhecidos por toda a União Soviética.

Matéria no Komsomólskaia Pravda sobre a família.

Alguns anos depois, em 1982, o jornalista Vassíli Peskov foi atrás da família. Esperando encontrar uma família de cinco pessoas, ele deu de cara apenas com o pai, Karp, sua filha Agáfia e três túmulos recentes.

Dois irmãos e uma irmã de Agáfia morreram, um atrás do outro. Em 1988, foi a vez do pai. Assim, restou apenas Agáfia, que não queria mudar seu modo de vida e permaneceu na floresta.

Cruz ortodoxa no túmulo do pai da família Likov.

Os efeitos nocivos da civilização

Algumas pessoas passaram a culpar Peskov pelas mortes na família Likov como resultado de seu contato, um estranho do mundo exterior ao qual eles não estavam acostumados.

O jornalista ficou muito triste com isso, já que visitou a família Likov por muitos anos e a ajudava levando utensílios de cozinha, medicamentos e até uma cabra, para que os eremitas pudessem ter sempre leite fresco.

Agáfia Likova com o jornalista Vassíli Peskov em 2004.

Peskov já morreu, mas, em um dos últimos encontros com Agáfia, ele lhe perguntou se ela achava que era bom ele ter “descoberto” a família. Agáfia respondeu então que, para ela, tinha sido Deus que enviou as pessoas a eles. Se não fosse por essas pessoas, a família estaria morta há muito tempo, disse.

"É medonho lembrar como era nossa vida, comíamos ervas, cascas de árvores”, disse Agáfia , segundo o jornal russo “Komsomólskaia pravda”.

Por que a família Likov fugiu para a floresta?

Por toda a Rússia havia muitas pessoas fugindo e se escondendo devido a suas crenças religiosas. Os Velhos Crentes sempre foram perseguidos na Rússia e foi apenas o tsar Nikolai 2° quem finalmente pôs um fim a isso.

Mas, depois da Revolução, o governo soviético retomou a perseguição com ainda mais força, colocando os Velhos Crentes  na prisão.

Agáfia.

Fugindo da coletivização, a família Likov foi para a floresta e acabou em uma reserva natural. Na década de 1930, a chefia da reserva proibiu a família de caçar ou pescar ali.

Um dia, uma denúncia anônima chegou à reserva dizendo que os Velhos Crentes eram caçadores ilegais. Os guardas da reserva foram verificar o relatório e acabaram matando a tiros o irmão de Karp Likov. Na investigação, porém, afirmaram que os Velhos Crentes tinham apresentado resistência armada.

Em 1937, o ano mais terrível do Grande Terror, a família Likov foi visitados por funcionários do NKVD (órgão que antecedeu a KGB), que os interrogaram querendo detalhes sobre o ocorrido.

Os membros da família perceberam que tinham que fugir. Depois disso, eles passaram a se ir cada vez mais para dentro da taiga, mudando de habitação o tempo todo e encobrindo seus rastros.

A propriedade da família Likov na reserva natural estatal Khakassi.

A estrela Agáfia

Hoje, Agáfia tem 74 anos. Ela vive sozinha na floresta há 30 anos. A única vez em que ela tentou viver em sociedade foi em 1990. Ela foi morar n em um convento cismático dos Velhos Crentes sem sacerdote e chegou até a se tonsurar como freira.

Mas o modo como Agáfia vê a fé se mostrou incompatível com o da comunidade  e ela voltou para sua casa. Já em 2011, representantes oficiais da igreja russa dos Velhos Crentes visitaram Agáfia e realizaram seu batismo.

Em 2015, uma equipe de filmagem britânica chefiada pela diretora Rebecca Marshall visitou Agafia para rodar um documentário sobre sua vida, intitulado “The Forest in Me”.

Agáfia considera a solidão o caminho mais importante para salvar a alma. Mas ela não se considera solitária. “Ao lado de cada cristão há sempre um anjo da guarda, assim como Cristo e os apóstolos”, diz.

Sabia que o Brasil também abriga Velhos Crentes? Descubra mais aqui!

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