Como os russos mudaram minha vida: Tommy, da Irlanda

Ekaterina Kozukhova
Aprender a lidar com depressão circunstancial e encarar medos são alguns dos desafios de jovem europeu de 22 anos na Rússia.

A vida na Rússia é um pouco turbulenta: coisas estranhas acontecerão e tudo o que você acha que sabe será desafiado. Não resistir é a chave para tirar o máximo proveito da experiência; tudo o que acontece tem sua lógica e propósito.

Aprenda a relaxar

À primeira vista, não há nada relaxante em Moscou. A capital russa é uma cidade futurista movida por dinheiro e sonhos, onde novas oportunidades surgem a cada novo quarteirão.

A maneira russa de lidar com as provações do cosmopolitismo é evitar o estresse o tempo todo. Os russos que conheço veem sofrimento e depressão como aflições circunstanciais e momentaneamente inevitáveis – é preciso controlar a ansiedade.

A antiansiedade russa subverte a noção de que você deve perder o sono por causa do dinheiro, ou que você é definido unicamente por seu cargo ou status. É uma perspectiva chocante quando justaposta à vida urbana, mas me ensinou a não enlouquecer sob o peso dos prazos e dos transportes barulhentos e, num momento de loucura, até me levou a parar de usar celular por mais de dois meses.

Quando você adota essa atitude, de repente percebe que respeita muito mais seus próprios limites. Alguma dose de negatividade é inevitável, mas você apenas repete “não” quando sente que pode e quer, e aproveita ao máximo o que lhe é dado. Os russos, no fim das contas, são pessoas que constroem castelos a partir de khruschóvki.

Ir para a praia é muito bom, mas você está realmente “relaxado” se ainda fica grudado ao telefone e preocupado em voltar ao trabalho? Em Moscou, o mundo está se movendo a 100 km/h, mas ainda é possível encontrar uma calma interior; para mim, isso é relaxamento em sua forma mais pura.

A ilegalidade te transforma em aventureiro

Em um momento da mais pura sinceridade, e o qual jamais enfrentaria em casa, na Irlanda, uma amiga russa resumiu sua percepção de minha vinda à Rússia, perguntando: “Você é apenas um carinha perdido à procura de uma aventura, né?”.

Depois de um momento inicial pensando “como você se atreve, eu sou um profissional”, percebi que, para ser sincero, ela não estava errada. Os russos fizeram de mim um aventureiro. Embora não seja difícil dizer “não”, você também recebe a ocasional oferta desconcertante a qual só consegue responder “sim”. Para ser sincero, não fiquei muito tentado pela ideia de praticar “roofing” (escalar o telhado), e minha reação inicial foi: “Eu? Mas tenho medo de altura”.

Mas você só tem que resistir. Há uma voz dentro da gente dizendo para encararmos a adrenalina, e você deve ouvi-la. Seja um convite para passar o sábado se exercitando na floresta ou uma semana esquiando a temperaturas de -50°C, aprendi a dizer “sim” sem pestanejar. A única maneira de ficar entediado aqui é se você negar o instinto de se levar por aventuras – afinal, a Rússia é o lugar onde tudo é possível.

O momento que me tornei um moscovita honorário foi quando estávamos no topo de um prédio de 30 andares (não vou dizer qual), e meu amigo anunciou à cidade, com a típica franqueza russa, que “aqui está um irlandês que costumava ser um frango”. Nunca um elogio ambíguo soou tão catártico.

Viva e respire história

Eu já vivi em seis apartamentos diferentes em Moscou, cada um com sua própria história. Comecei num típico apartamento de bábuchka – a proprietária era uma senhorinha de 80 anos que me visitava todas as tardes de sábado. “Você sabe, as coisas mudaram muito desde os tempos de Stálin”, disse, certa vez, com uma expressão séria.

O fato de essa mulher ser comum em um país como esse era o que a tornava extraordinária. Para mim, ela representava uma espécie de porta-voz para a vida sob todos os governantes de Stálin a Putin. Esta é a Rússia, afinal, onde a grandeza e a extrema dificuldade não são sentimentos distantes confinados aos livros. Aqui, a história e suas respostas políticas são encontradas em todas as esquinas; elas estão nas histórias contadas pelos mais velhos enquanto se toma uma xícara de chá.

Não importa onde ou quando você more na Rússia, imagino que seja difícil não se sentir como parte de algo enorme. É assim que meus amigos russos se sentem quando escrevem poesia e código de software enquanto observam a linha do horizonte de Moscou, e é assim que eu imagino que os ex-moradores do meu atual quarto no 16º andar de uma stálinka se sentiram quando chegaram na década de 1930 e foram confrontados com tetos altos e a onipresença urbana.

Para mim, esse é o tipo exato de energia que uma pessoa de 22 anos precisa. Às vezes, tenho minhas dúvidas quando me vejo com neve até o joelho em meados de março, mas, no fim das contas, ainda estou aqui.

Já pensou em tirar cidadania russa? Saiba mais sobre os requisitos e os detalhes do processo.

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