O escritor bilíngue russo-quirguiz que abriu a Ásia Central ao mundo

Tchinguiz Aitmatov (dir.) com um morador local no Quirguistão, 1973.

Tchinguiz Aitmatov (dir.) com um morador local no Quirguistão, 1973.

I.Dronov/TASS
Os livros de Tchinguiz Aitmatov eram ambientados nos vales do Quirguistão e nas estepes do Cazaquistão e deram ao mundo um raro vislumbre da cultura, mentalidade, tradições e paisagens do coração asiático.

A expansão do Império Russo rumo às portas do Afeganistão e da Índia e a subsequente incorporação da Ásia Central à União Soviética resultou na disseminação da língua russa entre os povos de língua turca. Foi assim que o Quirguistão produziu um dos melhores escritores de língua russa do século 20: Tchinguiz Aitmatov.

Nascido em 1928 em uma vila quirguiz chamada Cheker, Aitmatov morou por um curto período em Moscou quando criança, mas voltou à terra natal depois que seu pai (que posteriormente acabou executado durante os expurgos stalinistas) mandou a família de volta para o Quirguistão.

Tchinguiz Aitmatov.

Aitmatov estudou em uma escola soviética, tornando-se bilíngue em quirguiz e russo. Em suas memórias, ele contava um “causo” sobre quando os moradores da aldeia lhe pediram para traduzir a um veterinário russo a história do garanhão Don, que tinha morrido envenenado após ingerir grama selvagem. Ainda criança, ele foi recompensado com um “excelente pedaço de carne” por seus serviços de tradução: “Foi assim que servi como intérprete pela primeira vez do russo para o quirguiz e do quirguiz para o russo e tenho trabalhado como ponte entre as duas culturas desde então”, escreveu Aitmatov.

A edição brasileira de

Como era muito jovem para servir na frente de batalha, Aitmatov teve diversos empregos durante os anos da Segunda Guerra Mundial e voltou a estudar em 1946. Ele acabou fazendo faculdade de veterinária no Cazaquistão e depois se matriculou em um instituto agrícola no Quirguistão: mas não era essa a vocação que tomaria seu coração, e sim as letras.

Seu primeiro conto em russo, intitulado “O entregador de jornal Dzuio” foi publicado em 1952. Quatro anos depois, Aitmatov matriculou-se no Instituto Górki de Literatura, em Moscou, sua passagem para uma vida como escritor.

O sucesso de Djamiliá

Cena do filme

Apesar de a Ásia Central ser parte do mundo russófono à época, os cidadãos russos e soviéticos pouco sabiam sobre a vida daquela parte do mundo na década de 1950. As estepes, montanhas e vales eram desconhecidas pelas áreas urbanizadas da Rússia europeia do pós-guerra e muito mais difíceis de acessar que os Países Bálticos.

Em 1958, a novela de Aitmatov “Djamiliá” foi publicada em russo (ela saiu também em português pela Alfa Ômega nos anos 1980). A comovente história de uma jovem de família de criadores de cavalos que se apaixona por um soldado deficiente enquanto seu marido está na frente de batalha foi bem recebida em toda a União Soviética. Pela primeira vez, as tradições e o modo de vida distinto do povo quirguiz entravam no mundo da literatura. O livro, como muitas das obras posteriores de Aitmatov, foi adaptado para as telonas.

Cena do filme

Aitmatov afirmou que a novela tem raízes na vida real. “As raízes me levam de volta à Segunda Guerra Mundial. Não foi apenas um acontecimento terrível na vida de nosso país, que custou as vidas de muitas pessoas e trouxe fome, frio e outras provações terríveis. Ela também levou a uma revolução no que diz respeito aos costumes e tradições morais em minha terra natal”, escreveu ele.

O poeta surrealista francês Louis Aragon, que traduziu a novela para o francês, chamou-a de "a mais bela história de amor do mundo". Rahima Abduvalieva, que trabalhou como tradutora de Aitmatov na Alemanha e fundou a “Aitmatov Academy”, em Londres, diz que o reconhecimento internacional de Aitmatov andou de mãos dadas com o reconhecimento da cultura quirguiz.

O escritor Tchinguiz Aitmatov, 1972.

“Para os escritores do Ocidente, Tchinguiz Aitmatov era um enigma: não havia outra palavra para descrevê-lo. Como era possível o filho de um ‘inimigo do povo’ perdoar o sistema social que matou seu pai e continuar a criar obras tão magníficas nessas condições?”, escreveu Abduvalieva em sua biografia do escritor, “Tchinguiz Aitmatov, o caminho glorioso de um escritor euroasiático”.

“Djamiliá” também ganhou enorme popularidade na Alemanha, onde saiu em 37 tiragens.

Assuntos ousados

Enquanto em “Djamiliá” Aitmatov explorava a ideia de um caso extraconjugal em uma história profundamente tradicional e conservadora, sua novela “Cara a cara” tratava de um desertor.

“Sua ousada escolha de temáticas é o fio condutor que permeia todas as obras de Tchinguiz Aitmatov. Enquanto em seus primeiros trabalhos ‘Cara a Cara’, ‘Djamiliá’, ‘Primeiro Professor’, ‘Olho de Camelo’ e ‘Mãe Terra’, ele simplesmente familiarizava os leitores de todo o mundo com o modo de vida do Quirguistão, em ‘Adeus, Gulsari’, ele fazia um relato crítico do tecido social de seu país, atraindo ainda mais respeito que antes, como um escritor de inclinações filosóficas”, escreve Abduvalieva na biografia.

Tchinguiz Aitmatov caminha próximo a sua aldeia natal, Cheker, no Quirguistão, em 1982.

“O navio a vapor branco”, publicado em 1970, também teve ótima recepção em diversos países. Ambientada nas margens do Lago Issik-Kul, a novela trata de um menino que cresce ouvindo histórias e lendas de seu avô e olhando para o lago enquanto navios brancos vão e vêm.

A história gerou controvérsia quanto às descrições da brutalidade, corrupção e abuso de poder que prevaleciam na União Soviética. Apesar de mostrar simpatia pelo estilo de vida tradicional do Quirguistão, em relação à modernização soviética, o livro gozou de popularidade na URSS e foi adaptado para as telonas.

“Djamiliá”, “O navio a vapor branco” e “Adeus, Gulsari”, a comovente história de um pastor veterano de guerra e seu garanhão, são vistos como verdadeiras introduções à sociedade quirguiz. Para um mergulho ainda mais profundo na alma da Ásia Central, seu romance de 1980 “O dia dura mais de cem anos” é ideal. O romance se passa nas vastas estepes e no espaço galáctico, proporcionando uma visão mais ampla e vívida da região. O leitor compreende a drástica e surreal lacuna entre os estilos de vida moderno e tradicional. Abduvalieva classifica a obra como uma culminação do caminho criativo que Aitmatov trilhou ao abrir a Ásia Central ao mundo.

Aitmatov continuou a ganhar fama e reconhecimento internacional nos anos finais da União Soviética, arrebanhando prêmios de prestígio na Itália, Índia, França, Alemanha e outros países. Ele se tornou conselheiro de Mikhaíl Gorbatchov em 1986, no auge da Perestroika, e, em 1990, foi nomeado embaixador soviético em Luxemburgo. Ele foi o principal enviado da Rússia aos países do Benelux antes de se tornar embaixador do Quirguistão nos três países.

Seu último romance, “O Leopardo da Neve” foi publicado na Alemanha em 2007, um ano antes de sua morte.

Legado russo-quirguiz

Tchinguiz Aitmatov na Alemanha, em 2007.

O tradutor, escritor e russista britânico James Riordan (1936-2012), que traduziu diversas obras de Aitmatov, expressava grande admiração pelo escritor quirguiz, como mostra Abduvalieva. “Ele escrevia não uma, mas duas versões de cada obra: primeiro em quirguiz, depois em russo, às vezes com um título diferente e em uma versão diferente, à maneira de Conrad, Nabôkov e Narayan”, escreveu Riordan.

Aitmatov disse que ser bilíngue foi um fio condutor ao longo de sua vida e considerava o russo uma “língua-piloto dentro dos confins da Ásia pós-soviética”. Ele chegou ao ponto de chamar o russo de sua segunda língua nativa.

“Pelo que entendi, a língua russa é uma das principais realizações estratégicas do homem, pois possui as propriedades de uma antena linguística. O russo invoca os recursos da língua e acompanha até o mundo ao seu redor as formas mais profundas e eficazes de expressão e pensamento, nutrindo a comunicação para aqueles que vivem em um mesmo capítulo da história”, disse o escritor.

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