Por que a arte soviética é tão esteticamente agradável?

Iúri Pímenov. “O Casamento na Rua do Amanhã”, 1962. Reprodução.

Iúri Pímenov. “O Casamento na Rua do Amanhã”, 1962. Reprodução.

Sputnik
Desde a queda da URSS, há quase 30 anos, mudou constantemente o tratamento que os historiadores da arte dispensam ao realismo socialista — o estilo artístico predominante do período soviético. Mas, para a maioria dos amantes da arte, uma coisa é fato: ela continua a atrair os olhares até hoje.

“A arte pertence ao povo”, disse Vladímir Lênin em conversa com Clara Zetkin em 1920, e os comunistas transformaram suas palavras em um slogan soviético. A frase foi amplamente reproduzida e pode ser encontrada em quase todos os centros culturais locais.

Originalmente, porém, ela tinha uma continuação: "Ela [a arte] deve estender suas profundas raízes até o grosso das grandes massas trabalhadoras. Deve ser inteligível para essas massas e amada por elas... Devemos regalar uma pequena minoria com biscoitos doces enquanto as massas de trabalhadores e camponeses precisam de pão preto? Obviamente, quero dizer isso não apenas no sentido literal, mas também figurativamente: devemos sempre ter os trabalhadores e camponeses em mente."

Tudo para o povo

Assim, o líder do proletariado mundial traçou o curso que a arte soviética seguiria pelos 70 anos seguintes. Sua principal característica era a acessibilidade geral, e não apenas à elite erudita, aos boêmios refinados das artes ou aos frequentadores de museus, mas literalmente a qualquer camponês que chegasse de uma aldeia e por acaso vagasse em um museu.

Aleksandr Samokhválov. “Garota com camisa esportiva”, 1932.

Não é de surpreender, portanto, que o realismo tenha sido anunciado como principal estilo artístico, já que metáforas e múltiplas camadas de significado passaram a ser supérfluas (e, durante o período de repressão política, simplesmente perigosas).

A pintura e a escultura ganharam novos heróis, e os espectadores deviam se ver refletidos nesses: eram construtores, metalúrgicos, estudantes, atletas, soldados. Quanto aos melhores artistas da época - como Aleksandr Samokhválov ou Aleksandr Deineká - as pessoas que eles retratavam eram imbuídas de um poder universalizante.

Pinturas em todas as casas

Outra consequência do slogan de que a arte pertencia às pessoas foi a ideia de que a arte deveria se tornar acessível a elas, independentemente de quão abastadas fossem. Dessa forma, iniciou-se a ampla reprodução das pinturas em livros ilustrados de artes, publicados em massa na União Soviética, e em livros didáticos de literatura e história, assim como em cartões postais, calendários destacáveis ​​e revistas populares.

Cartão postal de Nikolai Karatcharskov.

Pessoas em toda a vasta União Soviética faziam coleções dessas reproduções, cortando-as e colando-as nas paredes. Essas imagens ainda evocam nostalgia até os dias atuais.

Adiante para um futuro brilhante

Tatiana Iablónskaia. “Manhã”, 1954.

Outra ideia lançada por Lênin foi o uso da arte como forma de ativismo político e promoção da ideologia comunista. Construir o comunismo era um assunto longo e complicado e os confortos pessoais eram constantemente sacrificados em prol de um futuro coletivo brilhante, mas a arte dava o exemplo de como lidar com as dificuldades.

Tatiana Iablónskaia. “Grão”, 1949.

Toda a pintura soviética era extremamente otimista e seus protagonistas idealizavam as aparências humanas. Não havia lugar para cansaço, depressão ou dúvida - em vez disso, havia apenas o sol forte, a alegria do trabalho e do esporte e o orgulho de realizar algo.

Nas pinturas da artista Tatiana Iablónskaia, a filha que faz seus exercícios matinais (em "Manhã") é tão feliz quanto as mulheres agricultoras durante a colheita (em "Grãos") ou o casal flertando ao lado de um carrinho de mão cheio de tijolos em um canteiro de obras (em "No canteiro de obras").

Tatiana Iablónskaia. “Sobre as obras de construção”, 1957.

Na pintura de Aleksander Deineká intitulada "Brigada de Férias", um grupo de rapazes musculosos tira a roupa de trabalho e pula alegremente na água. Apenas guindastes de construção ao fundo e o título da pintura sugerem que esses supra-humanos terminavam um turno difícil na construção civil.

Aleksandr Deineká. “Brigada de Férias”, 1952.

Herdeiros dos Modernistas

Apesar do desejo do líder soviético de construir um mundo completamente novo, era impossível dispensar a tradição na arte, e a maioria dos artistas soviéticos da primeira geração havia passado por um excelente treinamento da era Imperial, propondo os mesmos princípios para a arte soviética.

Além disso, os principais estabelecimentos de ensino soviéticos se formaram a partir das antigas escolas de arte. A famosa Vkhutemas (Estúdios Técnicos e de Arte Superior), fundado em 1918, foi sucessor direto da Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou.

Depois que a Vkhutemas foi fechada em 1930, três novas instituições foram criadas a partir dela: o Instituto de Arquitetura de Moscou (Markhi); o Instituto Estatal Surikov de Arte de Moscou; e o Instituto Poligráfico de Moscou. Todos os três acabaram por formar um grande número de estrelas artísticas do período soviético e pós-soviético.

Iúri Pímenov. “Encontro”, 1972. Reprodução.

As marcas do modernismo e do impressionismo podem ser detectadas nas pinturas de muitos mestres soviéticos. Aleksandr Guerássimov foi um dos queridinhos das autoridades soviéticas e pintou uma tela digna de vergonha intitulada "Stálin e Vorochilov no Kremlin", popularmente conhecida como "Dois Líderes Depois da Chuva". Antes da Revolução de 1917, ele foi aluno de Konstantín Korôvin e Valentín Seróv.

Aleksandr Guerássimov. “ Stalin e “ Vorochilov no Kremlin”, 1938.

Se tirarmos do quadro os personagens, fica evidente a escola de pintura do autor na maneira como são retratados os reflexos na estrada molhada, nas nuvens fofas e na paleta rosada da vista de Moscou ao fundo.

Gueórgui Nisski. “No caminho”, 1964.

A escultora Vera Múkhina, que projetou o mais famoso monumento soviético, intitulado "Trabalhador e Mulher do Kolkhóz", foi aluna de Antoine Bourdelle, em Paris, antes da Revolução e viajou à Itália para estudar as obras-primas da Renascença. Em suas obras, ela empregou a proporção clássica e os princípios da escultura clássica.

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