5 curiosidades sobre ‘Trabalhador e Mulher do Kolkhóz’

Estátua virou um dos símbolos da URSS e passou a abrir todos os filmes soviéticos da Mosfilm.

Estátua virou um dos símbolos da URSS e passou a abrir todos os filmes soviéticos da Mosfilm.

Serguei Fomine/Global Look Press
2017 marca não só um século da Revolução de Outubro, mas também os 80 anos de criação de um de seus maiores símbolos: uma estátua soviética incrivelmente problemática, criada para enfrentar a Alemanha nazista com seu pavilhão na Exposição Mundial de Paris de 1937.

Juntos eles se levantam – um homem musculoso vestindo sobretudo e... bem, uma mulher musculosa segurando um martelo e uma foice em suas mãos.

O monumento “Trabalhador e Mulher do Kolkhoz” (também conhecido como “Operário e Mulher Kolkhosiana”) foi erguido para simbolizar a união eterna do proletariado com o campesinato na Rússia soviética.

E, assim como os verdadeiros trabalhadores e camponeses da União Soviética, o casal de aço inoxidável passou por muita coisa:

1. Inspirada em heróis antigos

Escultores se inspiraram no casal pederasta de tiranicidas Harmódio e Aristogíton para criação de

A estátua foi criada por Vera Múkhina, mestre da escultura social realista, em 1937 para a Exposição Mundial de Paris de 1937. Esta foi a primeira vez em que os soviéticos eram convidados para um evento de tal porte, então o governo (mais especificamente, Iossif Stálin) queria causar impressão.

Trabalhando no pavilhão soviético que seria adornado por “Trabalhador e Mulher do Kolkhóz”, Múkhina e o arquiteto Borís Iofan se inspiraram nos tiranicidas Harmódio e Aristogíton. O casal que seguia a relação social da Grécia Antiga conhecida por pederastia assassinou um tirano persa e trouxe a democracia a Atenas.

“Trabalhador e Mulher do Kolkhóz”, por sua vez, deveria representar o Estado socialista emergindo vitorioso sobre todo o planeta. Como Iofan escreveria mais tarde, esperava-se que a composição arquitetônica em si estivesse na principal exposição soviética. E assim foi.

2. Leon Trótski nas pregas do vestido

Um engenheiro que não gostava de Múkhina escreveu a Stálin dizendo que ela tinha retratado secretamente o rosto de Leon Trótski nas pregas do vestido da Mulher do Kolkhóz.

Um acontecimento quase cômico ocorreu enquanto Múkhina trabalhava no monumento: um engenheiro hostil escreveu a Stálin tentando denunciá-la, dizendo que Vera tinha retratado secretamente o rosto de Leon Trótski em algum lugar nas pregas do vestido da Mulher do Kolkhóz.

A absurda denúncia era algo grave na época. O Grande Expurgo de Stálin estava em plena ascensão em 1937, por isso Múkhina poderia ter enfrentado sérios problemas se isso fosse verdade. Mas não era. Oficiais examinaram a estátua meticulosamente e não descobriram quaisquer traços do inimigo mortal de Stálin. Assim, tudo se saiu bem.

3. Concorrente de monumento do Terceiro Reich

Durante a Exposição Mundial de Paris, a maior disputa fiou por conta dos futuros inimigos da Segunda Guerra Mundial: a União Soviética e a Alemanha nazista. Os dois pavilhões monumentais dos países totalitários ficaram bem de frente um para o outro na principal rua de pedestres do Trocadero. Foi um show!

O pavilhão alemão, projetado pelo infame arquiteto nazista Albert Speer parecia-se com um gigante “III” (referindo-se ao Terceiro Reich) ornamentado com uma águia com a suástica. Os símbolos do socialismo soviético e do nazismo alemão estavam literalmente cara a cara – um toque de humor francês da administração da Exposição Mundial.

Alguns críticos louvaram a monumental obra de arte de Múkhina e Iofan, mas outros eram céticos, chamando-a de “modernismo sem rosto”. Apesar disso, tanto o pavilhão soviético como o alemão ganharam o grande prêmio da Exposição Mundial.

4. Fora do lugar

Os símbolos do socialismo soviético e do nazismo alemão estavam literalmente cara a cara na Exposição Mundial de 1937.

Após o final da exposição, “Trabalhador e Mulher do Kolkhóz” foi para casa. Mas um problema aguardava o monumento: depois que ele foi desmontado de seu pedestal gigante na França, o governo soviético tinha que encontrar um lugar para colocar a estátua de 24,5 metros de altura.

Primeiramente, considerou-se a possibilidade de erigi-la na Estação Hidrelétrica de Ribinsk, às margens do rio Volga. Depois, pensaram em Vorobiôvi Góri (Montes dos Pardais), em Moscou, onde ela poderia ser vista de quase toda a cidade. Mas nenhuma das ideias funcionou.

Em 1939, durante a abertura do VDNKh (parque cuja sigla significa Exibição de Feitos da Economia Nacional), na capital russa, a estátua foi colocada em frente à entrada principal, em um pedestal relativamente pequeno, três vezes mais baixo que o utilizado em Paris.

Múkhina se sentiu humilhada pela decisão, chamando o novo pedestal de “toco” e dizendo que a beleza havia se perdido tanto quanto o nível.

5. Símbolo do cinema com novo pedestal

Todo filme soviético produzido pela Mosfilm é introduzido por um logotipo  que representa esta escultura.

A escultura de Múkhina tornou-se, porém, símbolo oficial do estúdio de cinema Mosfilm em 1947. Desde então, todo filme soviético produzido por este estúdio é introduzido por um logotipo de um homem e uma mulher segurando um martelo e uma foice.

Em 2003, a escultura foi isolada para reforma, e só em 2010 foi revelada novamente ao público, finalmente ganhando um pedestal maior, de 34,5 metros, ou seja, 10 a mais que o anterior, ganhando uma altura total de 58 metros. Esta é a quinta estátua mais alta da Rússia. Agora, todos podem desfrutar da beleza de seu casal de aço.

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