Os 5 melhores filmes do diretor russo-americano Andrei Kontchalovski

A. Konchalovsky / DRIFE Productions, Andrei Konchalovsky Production Center, 2016
À espera do próximo Festival de Veneza, que começa em 2 de setembro, o Russia Beyond relembra os longas que fizeram história no evento e mundo afora.

Contemporâneo de Andrei Tarkóvski e primeiro diretor soviético a fazer sucesso em Hollywood, Andrei Kontchalovski irá novamente deixar sua marca no Festival de Cinema de Veneza com seu mais recente trabalho “Dear Comrades” (Prezados Camaradas, em tradução livre). O enredo é baseado na história real de como as forças de segurança abriram fogo contra uma manifestação pacífica de trabalhadores em Novotcherkask, na Rússia soviética, em 1962. Em meio aos preparativos para o festival, confira abaixo alguns outros filmes imperdíveis de um dos maiores diretores russos de nosso tempo.

  1. A história de Asya Klyachina (1967)

Este filme foi engavetado por 20 anos. A história de amor de uma modesta garota de fazenda coletiva, Asya, e um motorista imprestável chamado Stepan era considerada antissoviética – aera impossível (de acordo com os censores) que as pessoas na Rússia soviética fossem infelizes. Mas é assim que Asya é retratada – esperando um filho de um homem que não a ama, enquanto recusa outros pretendentes “porque é honesta”.

No fim das contas, o filme encontrou seu público e recebeu reconhecimento: em 1989, Kontchalovski recebeu o prêmio de melhor diretor no Nika, o Oscar russo.

Banal à primeira vista, a história de amor entre uma garota de fazenda coletiva e um motorista no espírito do romantismo socialista vigente na época acabou se tornando seu oposto direto: sob a influência da New Wave francesa, o diretor se esforçou para sair dos limites do set de filmagem e filmar uma história inventada de maneira que parecesse o mais realista possível, entrelaçando-a intimamente com material documental. Para isso, envolveu os moradores locais, colocou a heroína principal em uma izba [casa de camponeses] de verdade e, como “adereço”, conferiu a ela histórias de família de todos os Klyachins que viveram na casa no século anterior (uma técnica que, mais tarde, Kontchalovski aplicaria outras vezes). O resultado foi uma história autêntica em que a realidade se tornou arte, e os monólogos da heroína sobre o amor, segundo os cinéfilos, “provocam um choque de dor e convulsão respiratória”.

  1. Tio Vania (1970)

O filme, baseado na célebre peça de Anton Tchekhov, trouxe a Kontchalovski seu primeiro sucesso no exterior – prêmios no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, no Festival de Filmes Soviéticos de Sorrento e no Festival Internacional de Cinema de Milão. “O Tio Vania russo é o melhor Tio Vania que eu já vi”, disse o diretor norte-americano Woody Allen diria sobre o filme.

O drama se desenrola nas províncias, onde dois membros da “intelligentsia” russa – tio Vania e um cavalheiro do interior, assim como sua sobrinha – estão lentamente atrofiando como resultado de uma vida não concretizada, perdida em uma propriedade remota. A monótona existência deles é interrompida pela chegada de um parente – um professor com sua jovem esposa – mas isso só piora a situação.

No longa, a melancolia de Tchekhov é intensificada por Kontchalovski. Só a atmosfera dos quartos escuros e empoeirados da casa, dentro da qual os protagonistas parecem estar hermeticamente fechados, já diz tudo. “Depois de ‘Tio Vania’, percebi que poderia fazer um filme em qualquer espaço fechado, até em um elevador. Seria espaço suficiente para analisar a infinidade da alma humana”, disse Kontchalovski.

  1. Casa de Loucos (2002)

Este filme recebeu prêmios em Veneza e chegou a ser indicado ao Oscar (como representante russo), mas foi também acusado de oportunismo por muito tempo.

O enredo é o seguinte: a Primeira Guerra da Tchetchênia está em curso. Um hospital psiquiátrico na Inguchétia se encontra em meio às hostilidades e todos os médicos, temendo um ataque tchetcheno iminente, fogem. Os pacientes, no entanto, permanecem sozinhos e estabelecem uma espécie de república independente.

A ideia surgiu a Kontchalovski a partir do noticiário na TV (na época em que já ocorria a Segunda Guerra da Tchetchênia), mas o filme foi recebido com críticas no país – em grande parte, por mostrar tchetchenos de forma incomum e impopular nos canais de televisão estatais da época – não como assassinos implacáveis, mas como pessoas comuns que também queriam a paz. Ao apresentar um hospício com tchetchenos, Kontchalovski fez um manifesto sobre a insanidade da guerra – e pelos padrões ocidentais, foi politicamente correto e pacifista.

  1. As Noites Brancas do Carteiro (2014)

Este filme retrata pequenas aldeias às margens de um lago, em algum lugar onde os habitantes estão essencialmente isolados da civilização. Seu único vínculo com o mundo exterior é o carteiro Aleksêi Triapitsin (um carteiro na vida real que interpretou a si mesmo no filme). Ele apanha cartas, pagamentos de pensões e jornais nos correios e depois sai em seu barco para entregá-los aos destinatários.

O filme, “diferente de qualquer outro filme do cinema russo atual”, foi um verdadeiro sucesso para Kontchalovski, trazendo-lhe um Leão de Prata de melhor diretor em Veneza e quase sendo indicado ao Oscar (ele se recusou a ser indicado porque tinha “ficado desapontado com Hollywood”). Foi filmado sem roteiro, com uma pequena equipe de filmagem, em um vilarejo real na região de Arkhanguelsk (1.000 km ao norte de Moscou) e com seus moradores locais. O resultado é, simultaneamente, uma epopeia do modo de vida rural, uma viagem ao passado e um esboço sobre a paciência e a dor infinitas. Segundo o crítico de cinema Boris Nelepo, o filme é “dedicado a pessoas que ficaram sozinhas consigo mesmas e com a construção da vida, cuja pressão assustadora nos é geralmente escondida pela vida urbana”.

  1. Paraíso (2016)

Olga, uma emigrante aristocrata russa, é presa pelos nazistas por abrigar crianças judias. Ela é enviada para um campo de concentração, onde se depara com um conhecido que há muito era apaixonado por ela – um oficial de alto escalão da SS. Eles desenvolvem um relacionamento doloroso e preparam a fuga. Mas seu tão esperado paraíso muda de significado na esteira do inferno testemunhado por ela.

O filme – com seu tema cinematográfico exacerbado à primeira vista de campos de concentração e a relação entre sádico e vítima – recebeu, no entanto, grande aclamação e foi mais uma história de sucesso para Kontchalovski. Isso lhe rendeu um Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza, além da indicação russa ao Oscar. De acordo com o diretor, durante as filmagens, ele tinha em mente a ideia de expressar como pessoas comuns se tornam cúmplices de crimes terríveis simplesmente porque todos começam a fazê-lo, e como pessoas infelizes podem fazer o mal mesmo acreditando piamente estarem fazendo o bem.

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