5 excentricidades de grandes pintores russos

Tretyakov Gallery, Public domain, s.salvador/Freepik.com
Às vezes, as excentricidades de pessoas criativas parecem estranhas para os outros, mas outras vezes são realmente assustadoras. Como Iliá Repin, Víktor Vasnetsov ou Vassíli Vereschaguin chocavam as pessoas ao seu redor?

1/ Mania de perseguição de Aleksandr Ivanov

Alexander Ivanov

O artista passou mais de 20 anos na Itália trabalhando em sua famosa pintura “A Aparição de Cristo Diante do Povo”. Por vezes, viveu em pobreza extrema e, com o tempo, a pintura começou a destruí-lo: sua visão se deteriorou; além disso, seus poucos conhecidos começaram a notar algumas esquisitices em seu comportamento.

A Aparição de Cristo Diante do Povo

Segundo o escritor Pável Kovalevski, Aleksandr Ivanov “era um indivíduo não sociável que se assustava toda vez que alguém novo entrava, que se curvava assiduamente aos criados – um homem com movimentos rápidos e olhos inquietos, embora sempre abatidos”.

Ivan Turguêniev chegou a citar a ocasião em que Ivanov recusou enfaticamente um convite para jantar no Hotel d’Angleterre, em Roma, alegando que seria envenenado. Estava convencido de que artistas italianos invejosos haviam decidido matá-lo e concordou em comer no Trattoria Falcone, onde havia o “único garçom honesto”.

2/ A generosidade inesperada de Ivan Kramskoi

Ivan Kramskoi.

Kramskoi é descrito como um dos mais importantes pintores russos da segunda metade do século 19. Embora no final da década de 1860 fosse um artista bastante famoso e não lhe faltasse clientes, o pintor era lembrado por bastante econômico em seus gastos. Paralelamente, seus conhecidos notavam uma singularidade: diferentemente de muitos de seus colegas, Kramskoi entregava suas pinturas com molduras caras, mas não cobrava nada por isso. Um de seus clientes conservou sobre isso com Kramskoi, alegando que boas molduras custam muito dinheiro e que o artista estava perdendo vários milhares de rublos por ano ao não cobrar por elas.

Retrato de uma Mulher Desconhecida

Kramskoi ficou até ofendido com as observações e disse acreditar que era simplesmente indelicado entregar um retrato sem moldura a um cliente, já que as imagens penduradas nas paredes eram sempre emolduradas. “Mas você dá um retrato ao cliente, porque foi você quem o pintou, mas a moldura foi feita para você e você tem que pagar por isso”, retrucou o cliente. Mas Kramskoi manteve sua posição firmemente: “Eu também pago pelas tintas, que também não produzo, pelos pincéis nem pelas telas... Isso significa que o cliente também precisa pagar por elas?”.

3/ Vassíli Vereschaguin como o grande RP

Vasily Vereshchagin

O artista era bem conhecido muito além da Rússia. Em agosto de 1888, o jornal de Nova York “Evening Star” escreveu: “Sair da luz do dia, do agito e do movimento da 23rd Street para a luz artificial suave, os arranjos bizarros de efeitos estranhos e os odores almiscarados do edifício que contém as pinturas célebres, é como entrar em outro mundo, tão estranho é o interior da galeria Verestchaguin [sic] em contraste com as cenas que acabamos de deixar do lado de fora”.

Até então, nenhuma pintura de um artista russo havia despertado tanto interesse entre o público americano nem uma exposição havia se tornado um evento tão significativo – o autor chamou de “o entretenimento mais teatral de Nova York na atualidade”.

Embora as imagens de Vereschaguin tenham atraído grande interesse público, o artista estava preocupado com o fato de suas obras não terem a cobertura de imprensa que ele achava ser merecida.

Apoteose da Guerra (1871)

O artista Mikhail Nesterov lembrou como Vereschaguin havia editado pessoalmente artigos sobre uma exposição de sua obra em Odessa: “Um crítico o mostra uma resenha entusiasmada que escreveu para o dia seguinte. Vassíli corre os olhos rapidamente e franze a testa, insatisfeito. ‘Um lápis’, diz ele. Ele pega a folha de papel às pressas, escreve e escreve. Quando está pronto, ele a entrega. É assim que você escreve sobre a exposição de Vereschaguin. Os crítico fica envergonhado, mas impressionado com a agilidade e veemência do famoso pintor de cenas de batalhas... No dia seguinte, um domingo, o artigo aparece no Notícias de Odessa na versão ‘editada’ por Vassíli. Todo mundo lê o artigo, corre para ver a exposição e elogia Vereschaguin, que é tão insaciável e ciumento quanto à sua própria fama”.

4/ O amor de Víktor Vasnetsov pelo canto

Viktor Vasnetsov

Todo russo conhece os Bogatyrs, Alionuchka e O Cavaleiro nas Encruzilhadas desde a infância. O autor dessas obras, baseado em temas de lendas russas, não era apenas pintor, mas também um grande amante da música – embora não fosse ele mesmo musicalmente talentoso. O artista percebeu que seu canto não dava prazer a quem o cercava e geralmente se continha.

Os Bogatyrs

Mas em casa, enquanto trabalhava, ele se empolgava e começava a cantarolar uma música, cantando cada vez mais alto. Rindo, contou a seguinte história: “Eu estava trabalhando, trabalhando e, sem perceber, comecei a cantar em voz alta, e a pequena Micha [seis anos] veio até mim e disse, seriamente: ‘Papai, não cante. Quando você canta, você me assusta .”

Nenhuma gravação dos cantos de Vasnetsov sobreviveu para contar história.

5/ Os excessos naturebas de Iliá Repin

Ilya Repin

Embora Iliá Repin fosse um homem muito rico, o artista tinha reputação de ser patologicamente mesquinho. Por exemplo, preferia viajar para São Petersburgo saindo de sua propriedade rural de Penati pela manhã – porque nesse horário o bilhete de bonde custava metade do que preço no final do dia.

Ao longo dos anos, Repin embarcou em um estilo de vida que ele considerava saudável. Atualmente, ninguém ficaria surpreso com adeptos do vegetarianismo ou por uma dieta de alimentos crus, mas no início do século 20 isso era incomum.

Rebocadores do Volga

Certa vez, Repin convidou o famoso escritor Ivan Búnin para uma visita. Búnin lembrou mais tarde: “De bom grado corri para vê-lo: afinal, era uma honra ser pintado por Repin! Lá estava eu, em uma esplêndida manhã ensolarada, no frio congelante. O pátio da datcha de Repin – na época o artista estava louco por vegetarianismo e ar fresco – estava coberto de neve e as janelas da casa estavam escancaradas. Repin me cumprimentou em seu valenki [botas de feltro], casaco de pele e chapéu de pele; ele me beijou e abraçou, me levou ao estúdio, onde também fazia frio, e disse: ‘Aqui é onde vou pintar você de manhã, e depois tomaremos o café da manhã como Nosso Senhor ordenou: Grama, meu querido, grama! E você verá como isso limpa seu corpo e sua alma, e em breve você até deixará de fumar seu maldito tabaco”.

Comecei a me curvar e expressar minha profunda gratidão, e murmurei que voltaria no dia seguinte, mas que agora eu deveria voltar correndo para a estação de trem porque tinha alguns negócios terrivelmente urgentes em São Petersburgo. Então, corri para a estação e fui direto para o bar, pedi um pouco de vodca, acendi um cigarro, pulei no trem e enviei um telegrama de São Petersburgo, que dizia: Caro Iliá Iefimovitch, estou realmente em desespero total. Fui urgentemente convocado para Moscou e vou embora hoje...”. No fim das contas, Repin nunca pintou um retrato de Ivan Búnin, que em 1933 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

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