A viagem de um inocente: a visita de Mark Twain à Rússia

Mark Twain: “Os Estados Unidos devem muito à Rússia por sua amizade inabalável em seu período de maior necessidade”.

AP
O autor e humorista Mark Twain foi um dos primeiros turistas norte-americanos a visitar a Rússia. Ele relembrou da viagem mais tarde, em seu livro de memórias de viagem intitulado “A viagem dos inocentes" (1869). Após a visita, o escritor manteve um interesse que durou a vida toda na política e na literatura russa, fazendo amizade com o autor e revolucionário Serguêi Stepniak e recebendo Maksím Górki em Nova York, em 1906.

Mark Twain visitou a Rússia em 1867com quakers que se descreviam como “um grupo de cidadãos dos Estados Unidos, viajando por lazer”. Em Sevastópol, os "restos das casas" ainda mostravam os efeitos do cerco durante a Guerra da Crimeia – que é descrito nos “Contos de Sevastópol”, de Lev Tolstói. 

O grupo circulou na área procurando quinquilharias e lembranças do conflito. "Não havia mais nada a se fazer, por isto, todos foram caçar relíquias", relata Twain em “A viagem dos inocentes”.

Conhecendo o tsar

Twain perdeu o passaporte antes de visitar a Rússia, por isso chegou cheio de “medo e tremores... com uma vaga e horrível apreensão de que seria descoberto e enforcado”, segundo ele mesmo escreveu. Anos depois, ele publicou um conto curto em que relembrava esses medos. Em "O demorado passaporte russo", o protagonista teme que sua falta de passaporte resulte em sua prisão:

"Dentro de algumas horas, serei parte de uma horda sem nome, percorrendo as solidões cheias de neve da Rússia... rumo a essa terra de mistério, miséria e esquecimento sem fim, Sibéria!"

Felizmente, Twain e seus colegas turistas não tiveram esse destino: eles "não encontraram nada que não fossem as mais gentis atenções" na Rússia. Eles foram recebidos calorosamente em Sevastópol e Odessa e tiveram uma audiência com o tsar em Iálta.

O grupo escolheu Twain para se dirigir ao tsar Aleksandr 2° em seu nome. Aleksandr tinha decidido emancipar os servos alguns anos antes, e o discurso de Twain elogiava sua “ação tão grande”. O escritor também mencionou o apoio russo na Guerra Civil Americana. "Os Estados Unidos devem muito à Rússia por sua amizade inabalável no seu período de maior necessidade", disse.

Twain lembrava-se de seu encontro com o tsar como algo estranho. Mesmo que "uma multidão incontável de homens surgisse para cumprir suas ordens", Aleksandr 2° parecia "o indivíduo mais comum do país". E claro que ele acrescentou comentários divertidos à descrição desse encontro:

“Se eu pudesse ter roubado o casaco dele, o teria feito. Quando eu encontro um homem assim, quero algo que me lembre dele”, escreveu.

Revolução de longe

Twain ficou impressionado com o comportamento simples de Aleksandr, tão diferente dos "reis cintilantes do teatro". Mas, ele se desiludiu com notícias de um regime cada vez mais opressivo do sucessor de Aleksandr. Em "Carta de um cão", Twain escreveu que os poderes do tsar então eram "um roubo, exatamente como eram quando entraram originalmente em sua família".

Apesar de sua abordagem às relações raciais ter sido questionada em seu próprio país, Twain se considerava um revolucionário. Ele fazia parte de um círculo de autores com sede de apoiar a Revolução na Rússia e conheceu Serguêi Stepniak, fundador da publicação revolucionária “Rússia, Livre” na visita dele aos Estados Unidos, em 1891.

Quando Maksím Górki viajou para Nova York em 1906, Twain se uniu a diversas figuras da mais alta hierarquia literária em um jantar para homenagear o autor russo. Górki viajou para os Estados Unidos na esperança de angariar fundos para a Revolução, e foi Twain quem proferiu o discurso de boas-vindas. Desta vez, ele comparou a situação na Rússia à da revolução americana:

"Qualquer pessoa cujos ancestrais tenham estado neste país quando tentávamos nos libertar da opressão deve simpatizar com aqueles que agora tentam fazer o mesmo na Rússia", disse.

Twain elogiou a escrita de Górki, ato que oi retribuído pelo russo. Um artigo do The New York Times cita a declaração de Górki de que Twain "provou ser uma inspiração", acrescentando que era "parte da educação liberal da Rússia ler as obras de Mark Twain".

Escândalo em Nova York

Apesar do começo promissor, as relações entre Twain e Górki terminaram com escândalos. Górki não era casado com sua companheira, Maria Andrêieva, que tinha ido com ele até Nova York, e os dois foram despejados do hotel no meio da noite por não terem a relação oficialmente registrada.

A reação de Twain ao escândalo sugere que o escritor ainda não tinha se libertado do conservadorismo daqueles tempos de encontro com o tsar: "Tenho profunda simpatia pelos revolucionários russos mas temos certas convenções e padrões de conduta e Górki deveria ter sido informado das opiniões que o povo norte-americano tem sobre esse assunto", disse ele ao jornal The New York Sun.

Górki deixou os Estados Unidos desapontado com a falta de apoio a sua causa. Mas, em sua biografia de Górki, Tova Yedlin sugere que ele não tenha ficado ressentido com Twain. "Ele é uma pessoa maravilhosa, mas ele é velho, e os velhos nunca entendem claramente o sentido das coisas", escreveu Górki aos amigos.

Twain continuou a atrair a admiração de Górki e de muitos outros escritores russos, e continuou muito interessado nas relações com a Rússia até sua morte, em 1910.

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