7 citações de livros russos que viraram provérbios

Domínio público, I. Helmitsky
Estes trechos da literatura clássica russa são hoje parte intrínseca do discurso cotidiano no país.

1. ‘Meu tio dos mais nobres preceitos’ (Aleksandr Púchkin, Eugênio Onégin)

Emrusso: “Мой дядя самых честных правил”

Quando se usa?

Para caracterizar alguém que se considera um padrão moral para o restante do mundo.

Por que é tão popular?

As primeiras linhas do romance em versos “Eugênio Onéguin” (também grafado, por vezes, “Evguêni Onéguin”), são repetidas pela Rússia afora desde o século 19. No Brasil, a obra tem tradução do diplomata Dário Castro Alves pela Editora Record, mas em breve ganhará nova edição cunhada por Elena Vássina e Alípio Correia Neto – a primeira parte da tradução a quatro mãos deve sair em janeiro pela Ateliê editorial, após mais de 10 anos de trabalho da dupla em verter o poema de Púchkin, contando, inclusive, com apoio do pioneiro Boris Schnaiderman:

“Meu tio dos mais nobres preceitos, // Quando ficou doente à beça, // Logrou dos outros o respeito, // Sem invenção melhor do que essa.// O exemplo sirva de lição”. (Trecho retirado de artigo da revista da USP “Cadernos de Literatura em Tradução”)

Considerado “o último romance russo”, Eugênio Onégin está, aliás, repleto de outras citações usadas no discurso cotidiano russo.

2. ‘A alma do poeta não suportou // A mesquinha vergonha do ultraje’ (Mikhaíl Lêrmontov)

Em russo: “Не вынесла душа поэта // Позора мелочных обид”

Quando se usa?

Quando um russo está de saco cheio e cansado.

Por que é tão popular?

O poema de Liérmontov “A morte do poeta” (também vertido ao português como “A morte de um poeta”), escrito após Púchkin ser morto em duelo, condenava os críticos e invejosos dele.

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Nele, Liérmontova afirmava que a “mesquinha vergonha do ultraje” (em tradução livre do russo) incitou o poeta a lutar contra o absurdo mundano, e como resultado, partiu desta para a melhor. O poema é parte integrante dos currículos escolares desde o início da União Soviética e, por isso, todo russo o conhece.

3. ‘Não quero estudar, quero casar!’ (Denís Fonvízin)

Em russo: “Не хочу учиться, а хочу жениться!”

Quando se usa?

Para zombar de alguém que ou faz planos muito rapidamente ou não presta atenção suficiente nas coisas que faz.

Por que é tão popular?

“Nedorosl” (em tradução livre, “Jovem ignorante”), de Fonvízin, é uma peça russa clássica sobre educação e crescimento que é ensinada nas escolas. A citação é amplamente utilizada pelos professores para repreender os alunos por sua preguiça, por isso é conhecida por todos no país.

4. ‘Manuscritos não queimam!’ (Mikhaíl Bulgákov)

Em russo: “Рукописи не горят!”

Quando se usa?

Para expressar a convicção de que a arte prevalece sobre o tempo e o poder e, por vezes, de que a verdade prevalecerá, aconteça o que acontecer.

Por que é tão popular?

Em “O Mestre e Margarida”, de Mikhaíl Bulgákov, é Woland, Satanás disfarçado de professor, quem diz isto. Woland exige o romance do Mestre, mas o Mestre diz que o queimou em um fogão.

“Manuscritos não queimam”, responde Woland, e encontra uma cópia do romance na mesa do Mestre. Um dos romances mais lidos da Rússia, “O Mestre e Margarida” gerou este excerto, que se transformou em um ditado popular na atualidade.

5. ‘Sou uma criatura tremente ou tenho direito?’ (Fiódor Dostoiévski)

Emrusso: “Тварь я дрожащая или право имею?”

Quando se usa?

Quando uma pessoa finalmente se atreve a fazer algo de que tinha medo ou que estava relutante em fazer já há muito.

Por que é tão popular?

Em “Crime e Castigo”, Rodion Raskólnikov profere estas palavras ao tentar justificar o assassinato da velha usurária que, segundo ele, é “um piolho, uma criatura inútil, repugnante e prejudicial” que suga o dinheiro e a vida de seus devedores.

6. ‘Tempo de negócios, uma hora de diversão’ (tsar Aleksêi da Rússia)

Emrusso: “Делу – время, потехе – час”

Quando é usado?

Este é um mais famosos ditados populares russos, que significa que deve haver tempo tanto para diversão, como para o trabalho. Mas o ditado é, muitas vezes, mal interpretado até pelos russos.

Por que é tão popular?

O ditado foi tirado de um trecho de um manual de caça a falcões escrito no século 17 pelo tsar Aleksêi da Rússia (também conhecido em português como “Aleixo da Rússia”).

Na língua russa do século 17, “hora” significava tanto “uma (01) hora”, como “tempo” em geral. Assim, o tsar Aleksêi estava dizendo que devia haver tempo tanto para o trabalho, como para a diversão na vida de uma pessoa (defendendo, ao que parece, sua paixão pela caça a falcões).

No russo contemporâneo, porém, parece que a citação significa que deve haver tempo para os negócios, mas apenas uma (01) hora para se divertir. A interpretação, entretanto, é incorreta – não existe um número definido de horas de diversão na vida de um russo e nem teria sido esta a mensagem que Aleksêi queria passar.

A citação ganhou tanta popularidade desde o século 17 que a maioria dos russos chega a pensar que ela é um provérbio naturalmente!

7. ‘Ainda tem pólvora na caixa!’ (NikolaiGôgol)

Em russo: “Есть еще порох в пороховницах!”

Quando se usa?

Quando alguém é ousado, cheio de energia e está pronto para o que der e vier, apesar da idade ou de quaisquer problemas. Usa-se para expressar determinação e entusiasmo.

Por que é tão popular?

Uma das citações mais enriquecedoras, esta também é considerada pelos russos como provérbio. Na realidade, porém, a frase é proveniente de Taras Bulba, o velho cossaco que pergunta a seus companheiros se eles estão prontos para lutar, ao que eles respondem: “Ainda há pólvora na caixa, pai; a força cossaca ainda não foi enfraquecida: os cossacos não se rendem!”.

Depois disto, uma batalha feroz se segue... A citação certamente carrega o estado de espírito combatente que muitos russos adoram!

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