Aleksandr Herzen, o homem da era do despertar

Aleksandr Herzen foi um dos mais proeminentes dissidentes russos do século 19.

Russian Look/Global Look Press
Em 2019, editora Âyiné promete lançar no Brasil tradução em português de “From the other shore”, de um dos mais proeminentes dissidentes russos do século 19. Mas você sabe quem foi ele?

Aleksandr Herzen (em russo, pronuncia-se “Guértsen”) não é tão famoso fora da Rússia – apesar de sua versão fictícia retratada na trilogia do dramaturgo Tom Stoppard "The Coast of Utopia" ser bem conhecida.

Os próprios russos pensam em Herzen da maneira como Vladímir Lênin o caracterizou: “Os dezembristas despertaram Herzen. Herzen lançou uma agitação revolucionária”. Mas, na realidade, o escritor não queria revolução nenhuma, e chegou a escrever que a execução dos dezembristas “despertou sua alma de um sonho infantil”.

Enquanto ainda estudava na Universidade de Moscou, Herzen e seu amigo Nikolai Ogarev se tornaram o centro de um círculo de pensadores que discutiam ideias de liberdade e igualdade.

Como resultado de sua associação a essas pessoas e ideias, Herzen foi preso e passou anos no exílio, em cantos remotos da Rússia – entre eles, Perm, Viatka e Nôvgorod. Ele tinha iniciado nenhuma atividade realmente dissidente até estar no exílio, onde pôde expressar abertamente suas opiniões liberais.

No entanto, quando Nikolai Tchernichévski, autor de "O que fazer?", clamou que os russos "pegassem os machados", Herzen respondeu: "Seria bom pedir primeiro para eles pegarem as vassouras e deixar os machados por enquanto".

Herzen foi realmente assombrado por decepções. Ele começou como um “ocidentalizador” ardente. Apreciava a filosofia alemã e admirava o socialismo francês, e assim viajou extensivamente pela Europa, mas ficou desapontado com as revoluções que abalaram o continente em 1848 e seus resultados.

Sua fé no potencial do povo comum era seu último refúgio, e ele se tornou uma espécie de evangelista, convertendo os liberais da Rússia e os intelectuais revolucionários a suas crenças com um zelo missionário. Mas os jovens que atenderam ao seu chamado e se uniram nas aldeias logo ficaram entediados de ensinar os camponeses.

No fim, ele voltou sua atenção para os Estados Unidos. "Este povo, jovem e empreendedor, com espírito empresarial ao invés de educado, está tão ocupado se estabelecendo que não conhece a dor excruciante", escreveu sobre os americanos.

“As figuras que refletem as camadas dessa sociedade estão mudando o tempo todo. O tipo de colono inglês valente está se espalhando rapidamente. Se ele prevalecer, dificilmente as pessoas se sentirão mais felizes, mas ficarão mais satisfeitas. A satisfação será mais maçante, mais pobre e mais vazia do que a contemplada pelos ideais europeus românticos, mas não haverá reis, centralização e possivelmente nem fome.”

Em 1852, Herzen mudou-se para Londres, onde fundou a Free Russian Press e publicava o renomado jornal “Kolokól” (do russo, “Campainha”). Lênin escreveu sobre a publicação: “Herzen foi o fundador da imprensa russa livre no exterior, sua grande conquista. O Kolokol levantou-se implacavelmente pela emancipação dos camponeses”.

Dissidente número 1

Apesar de haver dissidentes na Rússia antes de Herzen, foram suas convicções que moldaram o dissidente russo e, depois, o soviético.

Existem cinco grandes diferenças entre um dissidente e um cidadão comum. O primeiro é a consciência em chagas. Nenhum dissidente pode aproveitar a vida às custas do sofrimento de outras pessoas.

Em segundo lugar, o dissidente acredita que o bem salvará a humanidade. A terceira diferença está em sua determinação de agir: os dissidentes precisam reunir coragem para avançar em frente a uma multidão.

O quixotismo é a quarta distinção. Dissidentes russos raramente esperam ter sucesso em breve - eles são sempre parte de um círculo estreito, excluído pelas pessoas comuns.

Em quinto lugar, os dissidentes nunca recorrem à violência. Herzen observou meticulosamente esse princípio, condenando as ambições jacobinas dos marxistas.

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Herzen provavelmente ficaria horrorizado ao saber que o som de sua “Kolokól” acabou despertando revolucionários do tipo dos bolcheviques.

Hoje, o número de dissidentes na Rússia provavelmente chega a milhões e há muito menos restrições a suas atividades. Mas a experiência dos movimentos dissidentes do passado permanece relevante para a sociedade.

Assim como antes, os interesses do governo são imcompatíveis com os das pessoas, e a maioria do povo não se importa. Herzen diria que, portanto, ainda há necessidade de uma "minoria consciente".

O que Herzen diria sobre os acontecimentos políticos na Rússia contemporânea? Possivelmente, ele apenas repetiria as palavras que escreveu sobre seu amargo desapontamento com os resultados da revolução de 1848 na França: “A agitação cega entre o povo decorre da fome. Se fosse um proletário um pouco melhor, ele nunca pensaria no comunismo. Os filisteus estão satisfeitos, sua propriedade está protegida e eles desistiram de suas preocupações com relação à liberdade e independência. Pelo contrário, eles até apoiam um governo forte, e sorriem indignados com a notícia de que determinada revista foi apreendida e alguém está sendo jogado em uma prisão devido a suas opiniões. Isso irrita e exaspera um pequeno grupo de excêntricos, enquanto outros passam desapercebidos: estão preocupados, têm o que fazer, eles têm famílias. Isso não significa realmente que não tenhamos o direito de exigir uma independência completa; isso significa que não há nada com que se chatear se as pessoas são indiferentes a nossos problemas”.

Qualquer semelhança é mera coincidência. Ou não. 

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