O que o balé russo deve a estes estrangeiros? Muito!

Iliya Pitalev/Sputnik
Foi um longo e árduo caminho que levou ao balé russo seu renome mundial. Mas, de novato a icônico, a tradição russa na dança não teria sido possível sem estas importantes figuras estrangeiras.

Autocratas da época da imperatriz Isabel da Rússia apaixonaram-se pelo balé, não poupando gastos com esta arte e convidando os melhores talento europeus da área a visitar a Rússia. Seria difícil encontrar um artista internacionalmente aclamado que não deixou sua marca no país. Entre eles, alguns em especial acabaram transformando para sempre o balé russo na potência global que ele compõe hoje.

Charles Didelot

Proveniente de uma família de dançarinos franceses, Didelot iniciou seus estudos na Corte Real Sueca, em Estocolmo, onde seus pais se apresentavam. Ele era tão talentoso que os pais decidiram enviá-lo para estudar com os melhores mestres parisienses.

Mas a Revolução Francesa acabou abreviando sua ascensão meteórica na Ópera Francesa. Didelot teve que fugir para Londres, onde, em 1796, apresentou pela primeira vez “Flore et Zéphire”. Ele fez muitas turnês com o balé, alcançando uma aclamação generalizada e conseguindo fechar inúmeros contratos.

Marie Taglioni como a personagem Flore, no balé de Charles Didelot “Zephire et Flore”. Litografia colorida à mão, datada por volta do ano de 1831.

Em 1802, aos 35 anos, Didelot foi à Rússia a convite do príncipe Nikolai Iussupov, que era responsável pelos teatros imperiais russos. O coreógrafo conquistou o patrocínio supremo da imperatriz viúva Maria Fiódorovna (1759-1828, reinado entre 1796 e 1801).

Didelot obteve, assim, algo que ia muito além da oportunidade de encenar suas produções, e foi equiparado a Marius Petipa, que um século mais tarde ficaria conhecido como "o autocrata do balé russo".

Didelot foi muito além de formular o repertório da companhia em São Petersburgo: ele também lecionou, servindo de exemplo a várias gerações de dançarinos russos, e repassou as principais mudanças que colocaram o balé russo na mesma página que o da Europa.

Filippo Taglioni

Este italiano dava continuidade ao trabalho de seus pais, apresentando-se e fazendo produções, mas seus méritos como dançarino eram mal qualificados.

Aos 25 anos de idade, ele se casou com a dançarina sueca Sophie Hedvig Karsten. Em 1821, ele começou a ensinar a filha Maria a dançar. Então, os grandes mestres franceses quase deixaram de lado a garota, de 17 anos, classificando-a como inadequada para o palco, com sua postura, alta estatura, braços longos e uma falta de beleza física.

Isto, porém, não foi obstáculo a Filippo. Todos os dias ele colocava a filha para treinar por quatro horas, que eram interrompidas apenas pelos desmaios da garota. Em um tempo em que outros professores ensinavam às alunas a graça feminina e sedução, Filippo estava criando algo completamente diferente, ensinando a filha a voar e se erguer tão alto que ela parecia flutuar.

Taglioni foi o homem por trás da revolução mais importante do balé, que transformou esta arte naquilo que ela é hoje: um olhar para o céu, nas pontas dos dedos dos pés. Para apresentar esta técnica ao mundo - e Maria com ela - ele criou o “La Sylphide”.

O balé acabou dividindo a arte em duas eras: o antes e o depois de “La Sylphide”. Foi quando o balé passou a fazer parte da tradição do romantismo europeu, ou melhor, de toda a cultura europeia e, com ele, Maria, seu brilhante símbolo.

Totalmente preparada para o sucesso, Maria e seu pai foram, cinco anos depois, em 1837, a São Petersburgo. Sua “La Sylphide” já era apresentada amplamente, mas a companhia precisava desesperadamente de um coreógrafo.

A chegada de Taglioni não só anunciou a chegada da tradição estilística parisiense, mas, da noite para o dia, São Petersburgo sofreu uma transformação e foi parar no epicentro do balé europeu e seus artistas passaram a levar suas técnicas ao topo da criação.

Marie Taglioni fazendo o papel principal de “La Sylphide”.

Taglioni passou os cinco anos seguintes desenvolvendo o La Sylphide em novas produções para o palco, criando um grande burburinho entre os fanáticos por balé, ao mesmo tempo em que os dançarinos russos aprendiam novas estéticas ao observar suas sessões práticas com Maria.

Taglioni fez uma enorme falta na cena do balé ao deixar São Petersburgo, mas isso levou os russos a um forte impulso criativo para se aventurar em Paris. Isto marcou o início da adoração europeia generalizada pelas habilidades dos mestres do balé russo.

Jules Perrot

Retrato do mestre do balé Jules Perrot. Londres, aproximadamente 1850.

O francês Jules Perrot está entre as figuras mais enigmáticas do mundo do balé. Suas obras lendárias – “Giselle”, “Esmeralda”, “Ondine”, “Corsair” – são todas aclamadas mundialmente. Apesar disso, continuamos sem saber até que ponto suas técnicas originais continuam presentes nelas.

Perrot era um mestre da dança e artista da era romântica, parceiro de Maria Taglioni – a qual, reza a lenda, fez tudo para impedir que Perrot fosse aceito na Ópera de Paris. O virtuoso acabou indo para a Itália, onde conheceu a jovem Carlotta Grisi, que ele transformou em verdadeira rival de Taglioni e que era incrivelmente bela. Ela se tornou sua aluna, musa, amante e sua porta de entrada para a Ópera. As portas se abriam, mas Carlotta não lhe levou o Pigmalião.

Eles se encontrariam 10 anos depois, em São Petersburgo, onde Grisi – assim como Taglioni o fizera antes dela - se sentia como uma mulher quase celestial. Talvez deixando a dor para trás, Perrot renovou balés para fazer os talentos de Grisi brilhar.

Então, a companhia de São Petersburgo brilhava com os melhores dançarinos de toda a Europa, e todos eles se tornaram dançarinos de apoio da estrela. A gratidão que Perrot recebeu de Carlotta, porém, seria mais uma vez de curta duração. Quem saiu ganhando foi mesmo a capital russa, que se tornava lar de todas as obras-primas de Perrot – que acabaram mais tarde transformadas por Marius Petipa.

Carlotta Grisi (Carona Adele Josefina Marie Grisi), bailarina italiana, com Jules Perrot em 'La Polka' (1819 – 1899).

No fim da vida, Perrot retornou a sua terra natal, a França, junto com a mulher, a russa Kapitolina Samovskaia, de origens humildes.

Arthur Saint-Léon

Este francês morreu com apenas 48 anos de idade, mas sua vida foi tão rica que poderia facilmente inspirar um seriado de várias temporadas. Proveniente de uma família de dançarinos, Saint-Leon fez principais papéis nas produções de Perrot, estudou com Paganini, e foi um violinista virtuoso. Mas não para por aí: ele encenou balés e acredita-se que tenha sido o inventor de uma nova técnica para gravar a dança.

Foto de Arthur Saint-Leon por B. Braquehais. Paris, 1865.

Saint-Leon chegou em São Petersburgo aos 38 anos de idade e já era um mestre, com suas produções em Milão, Viena e Londres. Seu instinto explorador o levou à Rússia, assim como, sua sua vontade de estar na vanguarda do progresso e de todas as técnicas mais avançadas.

E a Rússia era, é claro, o local principal onde ocorria tudo o que era ligado ao balé na década de 1860 e onde Saint-Leon podia continuar a incrementar sua carreira.

Ele fez explicitou suas intenções em seu primeiro balé, “Jovita”, lançado apenas duas semanas depois de assinar um contrato com a diretoria russa de teatros imperiais, em 1859. Mesmo entre outros criadores prolíficos do século 19, ele se destaca como algo inigualável, sempre em busca de novos temas, ideias de composição e coreografias.

Ele encenou dança clássica dedicada a sapatilhas de ponta (para o corpo de balé, uma enorme novidade para aqueles tempos), assim como inspirada em temas folclóricos, para saltos, com múltiplos bailarinos, em grupos, para homens, para mulheres e até produções infantis - aparentemente não havia fim para aquela fonte de criatividade.

Marius Petipa, que chegou à capital 12 anos antes de Saint-Léon, só pôde fazer observar a ascensão meteórica de seu concorrente.

Mademoiselle Bosacchi em “Coppelia”, de Arthur Saint-Léon (1870).

Depois de 10 anos ​​em São Petersburgo, Saint-Léon foi selecionado pela Ópera de Paris - o sonho de todo artista naqueles dias. Ele começou a trabalhar antes mesmo de terminar suas obrigações em São Petersburgo. Sua “Coppelia” estreou em 25 de maio de 1870 e teve críticas muito positivas. Infelizmente, três meses depois, o coreógrafo morreu repentinamente, possivelmente por exaustão.

O cargo de coreógrafo-chefe foi finalmente concedido a Petipa, que esperou por isto, pacientemente, por quase um quarto de século.

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