No 76º aniversário de morte de Lentulov, reveja trajetória de um dos “Valete de Diamantes”

Ao lado de nomes como Kandinsky e Malevich, pintor reverberou as vanguardas do século 20.

O pintor russo Aristarkh Lentulov nasceu no dia 14 de março de 1882, próximo a Penza, na família de um padre ortodoxo. Como um dos iniciadores do grupo “Valete de Diamantes” (1910), que também incluía Wassily Kandinsky, Piotr Kontchalovski, Kazimir Malevich e outros, Lentulov representava a ala “ingênua” e “nacional”. Paralelamente, ele era também o mais consistente dos cubo-futuristas.

Igrejas. Nova Jerusalém, 1917

Em 1907, em São Petersburgo, Lentulov iniciou uma amizade com o “pai do futurismo russo”, David Burliuk, e seu irmão Vladímir, que o apreciavam demais. O artista estudou os clássicos no museu Hermitage, participando simultaneamente de uma grande variedade de eventos e exposições extraordinárias.

Os guarda-chuvas, 1910

Nessa época, Lentulov pintou diversas paisagens, incluindo vistas urbanas. Aos poucos, suas obras começaram a exalar um esquema de cores único e dominante: pinceladas rosas contrastavam com o verde veronese. A temática de banhistas como pano de fundo da paisagem, popular desde Cézanne, era para Lentulov uma espécie de hino à natureza banhada pelo sol e ao hedonismo.

Rua de Moscou, 1910

Lentulov não poderia ser descrito como um retratista de berço, mas ele certamente tinha uma visão própria e inimitável de cada pessoa. “Não reconheço retratos como obras de arte se são apenas como fotografias... Eu só considero um retrato uma obra de arte se o artista transmitir sua própria experiência e impressão do assunto, e, se você quiser, até mesmo o seu próprio humor”, explicou, certa vez, o pintor.

Retrato de Marina Lentulova (esposa), 1913

Nos anos de 1908 e 1909, Lentulov criou o ‘Autorretrato em vermelho’, que é considerado um marco em sua carreira. Em 1908, Lentulov começou a se interessar por cubismo e até viajou a Paris, onde as obras de Picasso e Braque estavam em exposição. Em 1910, ainda na capital francesa, Lentulov se matriculou na Academia de Pintura La Palette, onde os palestrantes eram devotos do cubismo.

Autorretrato em vermelho, 1909

Depois de voltar de Paris, Lentulov demonstrou grande interesse na ideia futurista de ‘compatibilidade cromática’, em que todos os elementos de um quadro são percebidos não em sucessão, mas simultaneamente. Este sistema foi empregado em sua tela “Representação alegórica da Guerra Patriótica de 1812”, bem como em várias outras.

A batalha da vitória, 1914

O nome “Valete de Diamantes” foi concebido por acaso, e Lentulov sempre insistiu que foi ele, e não Larionov, quem o inventou. Os artistas que participaram das exposições do “Valete de Diamantes” cultivavam o conceito de coisa e objetividade. Assim, a estrutura rítmica das paisagens de Lentulov começou gradualmente a se assemelhar à arquitetura esculpida pela própria natureza.

Catedral de São Basílio, 1913

Sua grandiosa tela “Campanário de Ivan, o Grande”, de 1915, foi percebida por seus contemporâneos como a personificação polifônica dos badalos de Páscoa. A convenção de forma, dinâmica das cores e noção de tempo muito realista evocam essa época de cataclismo, quando muitos artistas, poetas e músicos queimaram de “febre” no limiar das mudanças que sua criatividade havia antecipado.

Campanário de Ivan, o Grande, 1915

Em 1916, o “Valete de Diamantes” se desintegrou. Após a Revolução de Outubro, Lentulov começou a cumprir contratos estatais para projetar praças e o salão do Teatro Bolshoi, entre outros projetos. Um “grande sucesso artístico” foi o veredito dos contemporâneos de Lentulov em sua peça teatral “Demônio”, encenada pelo proeminente Aleksandr Tairov, um adepto da “teatralização” das ações no palco.

Esboço de decoração para performance desconhecida, década de 1920

A teatralização e o princípio da atuação manifestam-se claramente nas paisagens e retratos de Lentulov; por exemplo, em seu “Autorretrato com violino”, de 1919. Ele foi ficando lentamente, porém cada vez mais apaixonado pela verdadeira personificação de objetos, pessoas e natureza, admitindo que “não queria pintar a temática de dobras de roupas, nariz, orelhas, etc., mas pintar as dobras, nariz, orelhas, cabeça, e árvores como elas realmente existem...”.

Autorretrato com violino, 1919

Depois de se tornar o presidente da Sociedade de Artistas de Moscou (que em 1928 uniu a maioria dos “Valetes”), o artista mudou para a pintura “tonal”, preservando um pouco os tons da cromaticidade forçada que prevalecia; criou paisagens, retratos e naturezas-mortas, preenchidos com uma sensação de plenitude da vida (“Sol acima dos Telhados. Nascer do Sol”, de 1928; “Legumes”, de 1933, e etc.).  

Pôr do sol no Volga, 1928

Em 1941, Aristarkh Lentulov foi evacuado para Uliánovsk. No outono de 1942, ele retornou a Moscou, onde morreu em 15 de abril de 1943, e foi enterrado no cemitério de Vagankovo. Lentulov gostava de se retratar como um guerreiro popular de palhaços, que, em sua maioria, era consistente com seu personagem e papel na vida.

Noite no lago Patriarchie, 1928

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