No centenário de Soljenítsin, descubra 5 motivos para conhecer sua vida e obra!

Vencedor do Nobel de Literatura, o escritor Soljenítsin olha para trás enquanto embarca em trem para a capital do Extremo Oriente russo, Vladivostok, em 1994.

Reuters
O dia 11 de dezembro marca o centenário de nascimento de Aleksandr Soljenítsin. Conhecer suas obras literárias e biografia é crucial para entender a Rússia e sua história!
  1. Ávido defensor da ideologia comunista, Soljenítsin criticou governo soviético
Soljenítsin em 1944, quando ainda era capitão do exército soviético.

Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) foi preso pela primeira vez em 1945, quando servia no exército soviético, por causa de cartas que escreveu da linha de frente para um amigo. Na época, ele era um ávido defensor das ideias de Lênin e criticava Stálin por trair a ideologia socialista.

Assim, quando Soljenítsin falava mal das políticas do governo soviético, ele tinha conhecimento de causa. Este foi o motivo de ele ser considerado tão perigoso e acabar condenado a oito anos em campos de trabalho forçado.

  1. Sobreviveu aos campos de trabalho forçado e escreveu sobre eles
O escritor no dia de sua libertação, em 1953, após 8 anos no Gulag.

O escritor começou a cumprir sua sentença construindo casas em Moscou, o que fez por um ano. Em seguida, ele passou dois anos em “charáchkas” - laboratórios secretos de pesquisa no sistema de campos de trabalhos forçados soviéticos. Soljenítsin era matemático e conduziu pesquisas científicas juntamente com outros presos políticos ali. Mas, após um conflito com guardas, Soljenítsin foi transferido para um campo de trabalhos forçados pesados no norte do Cazaquistão, onde testemunhou as dificuldades mais severas do Gulag.

Esta experiência permitiu que Soljenítsin descrevesse mais tarde as condições apavorantes e letais dos campos de trabalho soviéticos em sua prosa e, eventualmente, contasse ao mundo sobre isso. Em 1953, sua sentença foi suspensa, mas ele teve que ficar exilado no Cazaquistão.

  1. Tão perigoso que a KGB tentou assassiná-lo
Soljenítsin no funeral do escritor Aleksandr Tvardovski (1910-1971), em 1971.

Depois que o culto à personalidade de Stálin passou a ser reprovado na URSS, as acusações contra Soljenítsin foram deixadas de lado e ele pôde retornar à Rússia central. Em 1957, o escritor foi reabilitado e, depois disso, deu continuidade a seu trabalho. Suas obras sobre os campos de trabalhos forçados, principalmente “Um dia na vida de Ivan Denissovitch”, foram publicadas em revistas e a reação de soviéticos e ocidentais quanto a elas foi surpreendente. O livro chegou até mesmo a ser indicado ao Prêmio Lênin de Literatura.

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Quando foram publicadas outras obras que também colocavam o regime soviético em questão, a KGB voltou a pressionar o escritor. Em 1965, seu arquivo foi confiscado. As obras de Soljenítsin foram proibidas mais uma vez quando Leonid Brejnev se tornou secretário geral do Partido Comunista, ou seja, líder do país.

A KGB chegou até mesmo a organizar uma unidade especial para vigiar Soljenítsin. Ele foi expulso da União dos Escritores e a imprensa iniciou toda uma campanha contra ele.

Mas àquela altura ele já havia sido publicado no exterior, nomeado para o Prêmio Nobel e suas histórias haviam sido disseminadas em samizdat. Além disto, ele fazia muitas aparições públicas criticando o regime soviético. As cartas estavam na mesa. A KGB lhe propôs que ele deixasse o país, mas ele recusou a oferta.

Durante a viagem de Soljenítsin à cidade de Novotcherkassk, um agente da KGB o seguiu e injetou veneno no escritor. Soljenítsin recordou posteriormente: “Não me lembro de nenhuma picada, mas, no meio do dia, a pele do lado esquerdo do meu corpo começou a doer. À noite, aquilo piorou, era como uma grande queimadura; pela manhã, aquilo se tornou imenso, pegando todo o quadril esquerdo, o lado esquerdo, a barriga e as costas...”.

O tormento durou três meses. Mais tarde, uma análise mostrou que o escritor tinha recebido uma dose possivelmente letal de ricina, mas, de alguma forma, acabou se recuperando.

  1. Um dos poucos dissidentes que tiveram voz no Ocidente (e nem sempre a favor das ideias ocidentais)
O escritor em Vermont, nos EUA, onde se exilou por um período.

Em 1974, o governo soviético decidiu deportar Soljenítsin. Ele foi detido e enviado para a Alemanha. Sua família recebeu autorização para sair um mês depois. Eles se estabeleceram em Zurique e Soljenítsin retomou suas atividades antissoviéticas com um cuidado inacreditável.

Mas ele não tentou bajular a imprensa liberal ocidental, nem se adequar a suas preferências. Com suas ideias, um misto de ortodoxas e comunistas, ele também expressou apoio ao regime ditatorial de Franco, o que enfureceu a imprensa liberal.

Da mesma maneira, ele criticou colegas dissidentes e escritores antissoviéticos. Soljenítsin não se colocava a favor de ninguém. Passando a ser desprezado pelos jornalistas liberais ocidentais, ele emigrou para os EUA e se estabeleceu em Vermont, onde viveu em reclusão.

  1. Não parou de criticar o governo russo, mesmo quando Iéltsin e Putin o reverenciavam
O presidente Vladimir Putin (esq.) conversa com o escritor, em Moscou, em 20 de setembro de 2000.

Em 1990, a cidadania russa de Soljenítsin foi restabelecida. Muitas de suas obras passaram a ser publicadas livremente em seu país natal. Em 1992, Borís Iéltsin teve uma longa conversa telefônica com ele e, em 1994, o escritor retornou à Rússia, fez um discurso diante da Duma e ganhou um apartamento e uma dátcha (casa de campo) em Moscou.

Mas, quando ele foi premiado com a Ordem do Apóstolo Santo André, em 1998, o maior prêmio da Rússia, ele a recusou porque ainda abominava o governo russo e suas ações - principalmente devido à privatização por ele engendrada da propriedade estatal e à Primeira Guerra da Tchetchênia.

Mais tarde, quando Vladímir Pútin já era presidente, Soljenítsin aceitou alguns prêmios menores, incluindo o Prêmio Estatal da Federação Russa, apesar de continuar cético sobre a maioria das ações do governo russo.

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