Por que uma cidade grega abriga a segunda maior coleção de arte de vanguarda russa?

Kazimir Malevitch. “Retrato de mulher” (1910-1911).

Kazimir Malevitch. “Retrato de mulher” (1910-1911).

Divulgação
A lendária coleção de George Costakis no Museu de Arte Contemporânea de Salonica foi "redescoberta". Recentemente houve a abertura de uma grande exposição e centro internacional está sendo criado um para o estudo das vanguardas.

O Museu de Arte Contemporânea Estatal foi inaugurado em Salonica em 2002. A coleção, realmente lendária, de artistas de vanguarda russos da primeira metade do século 20 foi organizada por George Costakis, em Moscou, após a Segunda Guerra Mundial, e serve de base para o museu.

Antes disto, obras de Kazimir Malevitch, Vassíli Kandínski, Aleksandr Rodtchenko e Liubov Popova, que compõe a coleção de 1.300 objetos, já haviam sido exibidas nos EUA.

A exposição no Museu Guggenheim, em Nova York, em 1981, foi descrita como inovadora, e a turnê das obras incluiu também Alemanha, França, Grã-Bretanha e outros países.

Como Costakis, que deixou a URSS em 1977, conseguiu levar para fora do país uma coleção tão importante?

Acordo soviético

O colecionador de arte russo George Costakis (1913-1990). Foto de fevereiro de 1973.

George Costakis nasceu em Moscou, em 1913. Pelo pai, ele tinha nacionalidade grega, que conseguiu manter na URSS.

Na década de 1930, o jovem Costakis começou a trabalhar para embaixadas estrangeiras na capital russa – primeiro, para a grega, e então para a britânica e a canadense. Nesses anos sua paixão por colecionar arte começou.

Inicialmente, ele se interessava por antiguidades e os antigos mestres das artes europeias até o século 19. Depois da Segunda Guerra Mundial, porém, seu interesse se voltou para as vanguardas russas.

Seu amor por essas, segundo o próprio colecionador, começou após um encontro com o metafísico "Listra Verde", de Olga Rozanova (1886-1918). Costakis vendeu suas antiguidades e as vanguardas russas se tornaram sua grande paixão.

Naqueles dias, as obras de vanguarda eram baratas e fáceis de se obter: as autoridades soviéticas não precisavam mais de revolucionários na arte, e muitos deles tinham trocado seu estilo modernista pela vida tranquila das naturezas-mortas clássicas, retratos e paisagens acessíveis ao homem mundano.

"Em 1937, as vanguardas caíram no esquecimento: a URSS precisava de um novo realismo, um que pudesse ser entendido pelas pessoas comuns. As reformas anularam tudo o que as vanguardas tinham alcançado, e suas obras foram trancafiadas no fundo dos depósitos”, diz a diretora do Museu de Salonica, Maria Tsantsanoglou.

Além de pesquisar o verdadeiro fenômeno das vanguardas, o incansável Costakis caçava obras de artistas daquele período por todo lado - dos apartamentos dos poucos colecionadores de então até as famílias de artistas já mortos que tinham herdado suas obras.

Assim ele encontrou, por exemplo, uma obra de Liubov Popova, uma das "amazonas da vanguarda" que morreu em 1924. Ela estava na dacha de parentes, pintada em madeira compensada, e estava sendo usada para cobrir uma janela.

Segundo contemporâneos seus, quase todas as obras ficavam em exibição, cobrindo todas as paredes do apartamento de Costakis na avenida Vernadski Prospekt, e qualquer interessado em vanguardas era bem-vindo para aparecer ali e observar os quadros.

Na década de 1970, Costakis chegou até mesmo a fazer palestras no exterior sobre sua coleção, inclusive no Museu Guggenheim, em Nova York.

Tsantsanoglou nota que, quando a notícia da coleção se espalhou pelo mundo, turistas estrangeiros em Moscou, quando perguntados sobre os locais que queriam ver, respondiam: "Quero visitar o Kremlin, o Teatro Bolshoi e apartamento de Costakis".

Entre estes, estavam Edward Kennedy e David Rockefeller.

Pavel Filonov. “Cabeça”, meados dos anos 1920.

Quando Costakis foi diagnosticado com câncer, ele decidiu se mudar para a Europa para tratamento. Ele planejava levar consigo a coleção de milhares de pinturas, artes gráficas, esculturas e manuscritos.

Ninguém, porém, emitiria uma autorização para que a coleção saísse do país, apesar de as vanguardas serem rejeitadas pelas autoridades e valiosíssimas para a história da arte mundial.

Depois de um "acordo" com o governo soviético, ele legou um terço de sua coleção à Galeria Tretiakov como "presente". Em troca, ele recebeu autorização para retirar do país obras escolhidas - as que estão hoje em exibição em Salonica e rodando o mundo em outras exposições.

A casa grega da vanguarda russa

Em 1997, sete anos após a morte do colecionador, o governo grego adquiriu a coleção. Ela foi exposto no museu de Salonica, inaugurado cinco anos depois, juntamente com arte grega e russa contemporânea, e também passou a ser emprestado ativamente para exposições em museus nos EUA e na Europa.

Agora, a instituição decidiu dar uma nova vida ao museu e, com ele, à coleção, fundando um centro internacional para o estudo das vanguardas.

A direção da instituição convidou a galerista russa e fundadora da Heritage Art Foundation, Kristina Krasnianskaia, para ser a chefe do comitê de desenvolvimento estabelecido pelo museu.

"Esta é a única coleção abrangente da vanguarda russa no exterior e há uma oportunidade maravilhosa agora para o seu estudo e desenvolvimento, assim como para a promoção da cultura russa, no Ocidente. É sempre interessante quando algo que teve um alcance pequeno ganha um espaço grande. As vanguardas russas, hoje, fazem parte da cultura mundial: exposições acontecem mundo afora e colecionadores estrangeiros entendem esta arte e a compram", disse Krasnianskaia ao Russia Beyond.

Aleksandr Rodtchenko. “Duas silhuetas”, 1920.

Uma nova exposição abriu no museu em 29 de junho com apoio da Fundação de Caridade AVC, de Andrêi Tcheglakov. Intitulada "Salonica. A Coleção de Costakis. Um Recomeço", este é o primeiro projeto inspirado e organizado pelo comitê.

As especialistas de renome no área de vanguardas Alla Lukanova e Natalia Avtonomova fizeram a curadoria, e o design da exposição é também obra de arquitetos russos.

Kazimir Malevitch. “Retrato de mulher” (1910-1911).

A exposição, é acessível a todos os espectadores e não apenas conta a história do próprio Costakis, mas também narra a cronologia do desenvolvimento das vanguardas na Rússia a partir dos primeiros anos do século 20, quando artistas russos foram influenciados pelo Modernismo Europeu e encontraram inspiração no folclore até o surgimento do cubo-futurismo e do suprematismo e das ligações dos artistas de vanguarda com a jovem União Soviética.

Três andares do museu estão adornados com pinturas, obras de artes gráficas e porcelanas de Malevitch, Kandinski, Popova, Rodtchenko, Nikritin, Kliun e muitos outros.

Aleksandr Drevin. “Navio”, 1931.

Segundo os porta-vozes do museu, exposições deste escopo serão permanentes, com as telas sendo trocadas duas vezes ao ano.

"Queremos convidar outros museus e colecionadores privados do mundo todo a participar de nossas exposições", diz Krasnianskaia.

E não faltam convites para enviar obras das vanguardas russas para os principais museus do mundo - do Centro Pompidou, em Paris, à Tate Modern, em Londres, e o Museu de Arte Moderna de Nova York.

 

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