Anna Akhmátova, a poetisa que expressou o desespero de uma geração

Retrato de Anna Akhmatova feito por Nathan Altman em 1941.

Retrato de Anna Akhmatova feito por Nathan Altman em 1941.

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Conhecida como “Anna de todos os russos”, escritora personificou a voz de uma época

Quando seu filho Lev foi preso em 1938, Anna Akhmátova queimou todos os seus cadernos de poemas. A partir de então, ela memorizou tudo o que escreveu e recitava sua poesia apenas em eventos privados, entre amigos de confiança.

Seu primeiro marido e pai de Lev, Nikolai Gumilióv, foi morto por seu suposto envolvimento em uma conspiração contra os bolcheviques.

Mas a poeta sabia que seu filho havia sido preso, provavelmente, por causa de seus versos pouco convencionais.

Sua transição para a tradição oral significou uma mudança de estilo: mais fragmentado, mais visual e, acima de tudo, mais ressonante. Esta foi sua estratégia de sobrevivência e preservação da memória coletiva do povo.

Como poeta, ela não podia salvar as vítimas do terror de Stalin, dos exílios e do cerco de São Petersburgo durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas os versos transparentes que criava podiam preservar a memória e salvar essas vítimas de uma segunda morte: o esquecimento.

À medida que o sofrimento do povo russo crescia, a voz de Akhmátova ia se tornando mais forte e mais envolvida com as vítimas desse período de terríveis eventos.

Ela viveu para ver a queda do império russo, a Revolução de 1917 e duas guerras mundiais.

Enfrentou o terror de Stalin e a perseguição de seus amigos escritores: Óssip Mandelchtám morreu a caminho de um campo de trabalhos forçados soviético, o gulag, enquanto Marina Tsvetáieva se enforcou e Borís Pasternak foi perseguido até a morte.

Akhmátova foi oficialmente silenciada em 1924 e não publicou mais até 1940. “Toda uma geração passou por mim como por sombras”, escreveu.

Apesar da pobreza e da saúde frágil, a generosidade e solidariedade de Akhmátova com a família e amigos era um dos traços mais fortes de sua personalidade.

Entre 1935 e 1940, ela compôs o poema “Requiem”, sua obra mais famosa, na qual lamenta a execução do primeiro marido, Gumilióv, e as prisões do terceiro marido, Nikolai Punin, e do filho Lev. Os versos tornaram-se o hino da resistência a Stálin.

“Passei 17 meses em filas de prisões em Leningrado (hoje, São Petersburgo). Uma vez, alguém me ‘identificou’ ali. Então, uma mulher que estava atrás de mim, azul de frio, e que com certeza nunca tinha ouvido meu nome, acordou daquele transe característico de todos nós e perguntou em meu ouvido (ali, todos falavam em sussurros): ‘Ah, você pode descrever isto?’ / E eu respondi: / ‘Eu posso’. Então algo semelhante a um sorriso atormentado passou por aquilo que um dia foi seu rosto.”

Nascida Anna Andrêievna Gorênko, Akhmátova queria ser poeta desde criança. Por toda a vida ela forjaria a imagem de uma mulher misteriosa e especial.

Seu pai, ao ler seus poemas, chamava-a de “poeta decadente” e não queria que ela usasse seu sobrenome.

Mas a poetisa tomou seu nome artístico, Akhmátova, da bisavó, uma princesa tártara descendente do guerreiro Guênguis Khan, de acordo com histórias da família.

Ela era uma mulher desejada e uma poeta carismática. Pequena e elegante, com cabelos longos e lisos presos atrás do pescoço, seus enormes olhos cinzentos, lábios finos e nariz aquilino criavam um visual singular.

Essa aparência e o ritmo de sua voz ao recitar poemas tornaram Anna Akhmátova um ícone de beleza, que muitos pintores, incluindo Modigliani, sentiram-se compelidos a registrar.

São Petersburgo era sua cidade adorada. Ali ela viveu com intensidade e teve amor e liberdade sexual. Mas também foi a cidade onde experimentou a fome, a dor, a pobreza e a doença.

Sua natureza boêmia e inquieta logo a tirou de uma de suas casas, e por muitos anos ela viveu saindo e voltando para a casa de seu terceiro “marido”, Nikolai Punin, um crítico de arte com quem viveu um clima incomum de intimidade que incluía a esposa oficial de Punin e a filha do casal.

A instabilidade emocional foi outro desafio na vida da poeta. Ela se apaixonava facilmente, mas nem sempre era correspondida. Mas sempre encontrava amor na poesia, como relatou no livro “Minha metade de século”.

São Petersburgo era o epicentro cultural da Rússia para as vanguardas da época. Simbolistas representados por Aleksandr Blok, futuristas guiados por Maiakovski, acmeístas e artistas de todos os gêneros se reuniam em um porão, apelidado de “O cachorro vira-lata”, onde em 1913 Akhmátova se tornou rainha absoluta.

Um ano antes ela havia publicado seu primeiro livro, “Tarde”, com o apoio da associação de poetas da qual fazia parte com nomes como Óssip Mandelchtám e Serguêi Gorodetski.

Os acmeístas, diferentemente dos simbolistas, exigiam a clareza na poesia e valorizavam a experiência individual.

O primeiro livro da poetisa, “Tarde” foi um surpreendente sucesso. Seus poemas exploravam a infelicidade do amor e ficaram muito populares. Em 1914, ela publicou seu segundo livro, “Rosário”, que foi seguido por mais três obras.

Em 1º de agosto de 1914, quando a Alemanha declarou guerra à Rússia, a poesia de Akhmátova mudou de direção.

“Pela manhã, ainda alguns pacatos poemas sobre outras coisas. Mas à tarde, o mundo inteiro está em pedaços”, escrevia. A partir de então, a poeta direcionou seu olhar para a Rússia, a terra que ela amava e nunca deixaria.

A poesia de Akhmátova alcançou o auge da maturidade em “Poema sem herói”, obra que levou 22 anos para compor e hoje é reconhecida como uma das maiores contribuições à literatura mundial.

Escrito em São Petersburgo, Tashkent e Moscou, “Poema sem herói” (1940-1962) é uma coleção de versos onde múltiplas vozes e diferentes gêneros compõem a crônica lírica.

Na obra, ela escreveu sobre seu antigo “eu” sem paixão: “Aquela mulher que um dia fui/ com um colar de ágata negra/ não desejo encontrá-la de novo/ até o Dia do Juízo”.

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