Marketing fantasioso prejudica indústria de carros sem motoristas, dizem desenvolvedores

Reuters
Depois que um veículo autônomo do Uber matou um pedestre nos Estados Unidos, a indústria automobilística especializada vem enfrentando inúmeras críticas. Especialistas alertam, porém, que tecnologia automotiva está em estágio inicial de desenvolvimento e ainda é cedo para pensar em “viver uma fantasia”.

No mundo todo há grande expectativa para o lançamento dos veículos sem motorista; entre os russos, por exemplo, 56% dizem que gostariam de testar um carro do tipo, de acordo com a Cognitive Technologies, desenvolvedora de inteligência artificial em Moscou. Em 2017, a empresa realizou uma pesquisa com 33 mil entrevistados, e os maiores apoiadores da tecnologia autônoma no país são pessoas com mais de 50 anos.

O que dizem os russos em geral?

O Russia Beyond conversou com alguns cidadãos comuns, e as opiniões diferem em relação à tecnologia sem motorista na Rússia.

A produtora de rádio Maria Alferova se diz animada para experimentar a nova tecnologia, e o incidente no Arizona não a assustou. “Espero que os desenvolvedores consertem a tecnologia antes que esses veículos entrem em produção em massa.”

Segundo o empresário Ivan Terekhin, ele “certamente tentaria isso, estou pronto para qualquer inovação”.

“Eu gosto da ideia; às vezes, preciso falar ao telefone ou alimentar o bebê enquanto estou na direção”, diz Nadia Solovieva, mãe de dois filhos. “Mas, em geral, eu gosto bastante de dirigir, então, não estou pronta para abdicar dessa alegria.”

Outros são mais céticos, no entanto.

“Não é o meu carro batendo em outra pessoa que me preocupa, mas alguém bater em mim”, disse Nikola Valeev, gerente de captação de fundos, ao Russia Beyond.

“Estou preparado para usar carros autônomos apenas em certas ocasiões, como depois de uma noitada”, diz o marqueteiro Ivan Varolin. “Caso contrário, gosto de estar no controle do carro, especialmente para escolher a rota. Raramente confio no GPS.”

O que dizem os desenvolvedores?

Olga Uskova, diretora da Cognitive Technologies, acredita que as empresas de tecnologia estão obcecadas em promover suas conquistas tecnológicas, quando na verdade ainda não há muito o que propagar.

“A atividade publicitária de algumas startups novas, e de empresas bem conhecidas, supera de longe suas reais capacidades técnicas”, disse Uskova ao Russia Beyond.

“O principal objetivo dessa atividade é, via de regra, o desejo de demonstrar tecnologia para acionistas ou investidores e arrecadar mais uma rodada [de investimento]”, acrescentou a empresária. “É possível que as empresas tenham só soluções básicas e cruas, mas os profissionais de marketing as vendem aos acionistas e ao resto do mundo como uma tecnologia autônoma mesmo.”

O incidente com o Uber não é o primeiro. Em janeiro, o protótipo criado pela Phantom AI sofreu um acidente durante uma demonstração para jornalistas do TechCrunch, batendo na traseira de outro carro.

Outro momento inesperado – e constrangedor – ocorreu na demonstração do veículo sem motorista Faraday Future na CES, a maior feira de tecnologia para consumidor em Las Vegas. Na hora que o principal investidor chinês da empresa apertou o botão para fazer o carro estacionar sozinho, nada aconteceu.

“É necessário lembrar que o principal objetivo dos veículos autônomos é a segurança, e é possível garantir isso somente depois de inúmeros testes em pistas e vias públicas em diferentes condições climáticas”, destaca Uskova, acrescentando que levará anos.

Fúria contra as máquinas

Uskova está preocupada que a política de desenvolvedores dessa tecnologia possa minar a credibilidade de potenciais usuários em todo o mundo, e os recentes ataques a carros sem motoristas na Califórnia comprovam seu ponto de vista.

De acordo com relatórios de acidentes registrados no Departamento de Veículos Motorizados (DMV) da Califórnia, pessoas furiosas foram vistas, em dois incidentes, gritando e batendo nos carros. Um homem atacou um Chevy Bolt autônomo enquanto esperava em um semáforo em São Francisco. O veículo estava no modo autônomo, mas havia uma pessoa no banco do motorista. O homem correu para o outro lado da rua, bateu no lado esquerdo do para-choque e danificou o farol traseiro.

O segundo incidente também envolveu um Chevy Bolt autônomo em São Francisco com um motorista no controle. Quando o veículo parou atrás de um táxi, o taxista saiu do veículo e bateu na janela do passageiro da frente, deixando um arranhão.

Recentemente, um táxi autônomo desenvolvido pelo Yandex passou pelo primeiro teste nas ruas nevadas de Moscou. Assista ao vídeo aqui

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