Astronauta brasileiro narra treinamento russo

Brazil's first astronaut Marcos Pontes holds his national flag after landing near the town of Arkalyk in northern Kazakhstan April 9, 2006.

Reuters
Quanto tempo leva para ir ao espaço? O que pôr na bagagem? Marcos Pontes responde a essas e outras perguntas em novo livro.

A inspiração vinda do cosmonauta soviético Iúri Gagárin (1934-1968) dá a linha do novo livro de Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro a viajar ao espaço. 

“Caminhando com Gagárin: Crônicas de uma Missão Espacial” é mais um modo que o tenente-coronel encontrou de homenagear seu ídolo - que também estampava a camiseta levada por Pontes ao cosmos. 

Pontes chegou a Moscou em novembro de 2005 para finalizar a preparação iniciada sete anos antes nos EUA. A fase final de treinamento na Rússia, que durou quase cinco meses, justificava-se, entre outras razões, porque a nave que o transportaria para o espaço era uma Soiuz, de fabricação russa. 

O foguete que levou Pontes partiu de Baikonur, no Cazaquistão, com destino à ISS (da sigla em inglês, Estação Espacial Internacional) em março de 2006, e retornou à Terra em abril do mesmo ano. O russo Pável Vinogradov e o americano Jeff Williams foram seus companheiros de viagem na Soiuz TMA 8. 

Pontes com o americano Jeff Williams e o russo Pável Vinogradov (da esq. para dir.) Foto: divulgação

Nacionalismo e autoajuda

No novo título, o astronauta conta histórias, em forma de diário, selecionando 20 dias dos cinco meses que passou na Rússia, além dos 10 dias em que esteve no espaço. 
Recheado de fotos e trazendo uma biografia do autor, o volume tem como proposta principal explicar os preparativos a que o autor se submeteu no Centro de Treinamento de Cosmonautas Iúri Gagárin, na Cidade das Estrelas, a cerca de 25 km de Moscou. 

Seguindo essa diretriz, a obra passa pelo funcionamento dos simuladores de voo, o aprendizado da língua russa, os treinamentos de sobrevivência e os exames médicos, e entra até em detalhes engraçados, como a explicação de como um astronauta faz suas necessidades no espaço.
Convém lembrar que, embora a profissão de astronauta seja uma função civil, Pontes iniciou a carreira como militar da Aeronáutica, chegando a piloto de caça da FAB (Força Aérea Brasileira). 

Como todo soldado, foi treinado para defender a pátria, seguir estratégias e não recuar diante de obstáculos. Seu livro expressa, em parte, a visão de um militar de combate.

Muitas vezes usando um tom messiânico e nacionalista, afirma, por exemplo, que sua aventura visou incentivar o civismo, e garante que estava disposto a oferecer a vida pela missão espacial a fim de levar “a bandeira brasileira e milhões de corações pela primeira vez para além das palavras e fronteiras, para fora do planeta”.

Pontes usa a escrita também para oferecer em conta-gotas uma visão pessoal sobre suas experiências de treinamento com porções generosas de autoajuda, ligando as dificuldades encontradas por um astronauta ao dia a dia das pessoas comuns.

Homem multitarefa

Além de engenheiro, candidato derrotado a deputado federal, embaixador honorário da ONU e presidente de uma fundação que leva seu nome, Pontes também se identifica como palestrante, coach e consultor técnico. Além, é claro, de escritor.

“Caminhando com Gagárin” é o quarto livro desse homem multitarefa. Ele também é autor de um volume de autoajuda focado na realização de projetos, outro contando os bastidores da primeira missão espacial brasileira, e de uma autobiografia para crianças que ele mesmo ilustrou.
Idealista, Pontes diz “querer influenciar positivamente mais e mais pessoas”. E conta em palestras e livros a experiência de ter uma origem humilde e se tornar o primeiro brasileiro a sair do planeta. Sua lógica simples indica que, se não foi impossível para ele, não deve ser para ninguém. 

Mas sua explicação é pouco animadora e dá a dimensão da nossa insignificância: “Embarcados nessa espaçonave chamada Terra, viajando juntos pelo espaço a mais de 100.000 km/h, todos nós somos, de certa forma, astronautas”. 

Ou seja, para o Universo, cada um de nós é pouco menos que uma bactéria desesperada, agarrada à casca frágil de um ovo em órbita.

“Vejo política como missão”

O que o inspirou em Gagárin?

Seu pioneirismo e respeito pelas pessoas. Sempre procurei seguir essas características dele. 

Quais outros cosmonautas você admira?

[Vladímir] Komarov [1927-1967], por sua dedicação e sacrifício na amizade com Gagárin.

Quais as principais diferenças entre o treinamento russo e o americano?

Eles são similares, mas o russo é mais apoiado no fator humano, e o americano, no equipamento.

E suas impressões da Rússia?

Parece meio estranho, mas desde o início me senti como se já tivesse vivido lá por muito tempo. Não senti qualquer dificuldade em me adaptar. Foi maravilhoso.

De seu aprendizado na Rússia o que pode ser aplicado no Brasil?

Determinação em objetivos. Nosso programa espacial sofre de uma certa falta de constância.
Talvez o fato das dificuldades enfrentadas pela Rússia com guerras e clima tenha ajudado a formar essa característica, que considero muito importante para o sucesso.

Por que você se candidatou a deputado federal em 2014? Vai se candidatar novamente?

O Brasil sofre de falta de políticos dedicados aos projetos públicos e com conhecimento técnico e experiência para propor e avaliar projetos importantes.

Meu objetivo era provocar uma nova tendência na escolha de políticos. Talvez eu me candidate novamente a deputado federal em 2018. Vejo a política como missão, não como carreira.

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