Futuro ministro, astronauta brasileiro Marcos Pontes narra em livro treinamento na Rússia

Pontes segurando bandeira do Brasil após pousar perto da cidade de Arkalyk, no norte do Cazaquistão, em 9 de abril de 2006

Reuters
Quanto tempo demora para ir ao espaço? O que levar na bagagem? Pontes respondeu a estas e outras perguntas em livro lançado em 2015.

No último dia 31 de outubro, o presidente eleito Jair Bolsonaro usou o Twitter para anunciar um dos primeiros ministros de seu governo: Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro a viajar ao espaço, que assumirá a pasta da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações a partir de janeiro de 2019.

Poucos sabem, porém, que, há três anos, Pontes lançou um livro no qual descreve a forte inspiração vinda do cosmonauta soviético Iúri Gagárin.

Em “Caminhando com Gagárin: Crônicas de uma Missão Espacial”, o tenente-coronel encontrou uma maneira de homenagear seu ídolo - que também estampava a camiseta levada ao cosmos pelo astronauta brasileiro. 

Pontes chegou a Moscou em novembro de 2005 para finalizar a preparação iniciada sete anos antes nos EUA. A fase final de treinamento na Rússia, que durou quase cinco meses, justificava-se, entre outras razões, porque a nave que o transportaria para o espaço era uma Soyuz, de fabricação russa. 

O foguete que levou Pontes partiu do cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, com destino à ISS (Estação Espacial Internacional) em março de 2006, e voltou à Terra em abril do mesmo ano. O russo Pável Vinogradov e o americano Jeff Williams foram seus companheiros de viagem a bordo da Soiuz TMA 8. 

Pontes com o americano Jeff Williams e o russo Pável Vinogradov (da esq. para dir.)

Nacionalismo e autoajuda

Em seu livro, Pontes conta histórias, em forma de diário, selecionando 20 dias dos cinco meses que passou na Rússia, além dos 10 dias em que esteve no espaço. Recheado de fotos e com uma biografia, o volume tem como proposta principal explicar os preparativos a que se submeteu no Centro de Treinamento de Cosmonautas Iúri Gagárin, na Cidade das Estrelas, a 25 km de Moscou. 

Seguindo essa diretriz, a obra passa pelo funcionamento dos simuladores de voo, o aprendizado da língua russa, os treinamentos de sobrevivência e os exames médicos, e entra até em detalhes engraçados, como a explicação de como um astronauta faz suas necessidades no espaço.

Embora a profissão de astronauta seja uma função civil, Pontes iniciou a carreira como militar da Aeronáutica, chegando a piloto de caça da FAB (Força Aérea Brasileira). Como todo soldado, foi treinado para defender a pátria, seguir estratégias e não recuar diante de obstáculos. Seu livro expressa, em parte, a visão de um militar de combate.

Muitas vezes usando um tom messiânico e nacionalista, afirma que sua aventura visou incentivar o civismo, e garante que estava disposto a oferecer a vida pela missão espacial a fim de levar “a bandeira brasileira e milhões de corações pela primeira vez para além das palavras e fronteiras, para fora do planeta”.

Pontes também usa a escrita  para oferecer em conta-gotas uma visão pessoal sobre suas experiências de treinamento com porções generosas de autoajuda, ligando as dificuldades encontradas por um astronauta ao dia a dia das pessoas comuns.

Homem multitarefa

Além de engenheiro, o futuro ministro, que é embaixador honorário da ONU e presidente de uma fundação que leva seu nome, Pontes também se identifica como palestrante, coach e consultor técnico. Além, é claro, de escritor.

“Caminhando com Gagárin” é seu quarto livro. Ele também é autor de um volume de autoajuda focado na realização de projetos, outro contando os bastidores da primeira missão espacial brasileira, e de uma autobiografia para crianças que ele próprio ilustrou.

Idealista, Pontes diz “querer influenciar positivamente mais e mais pessoas”. E conta em palestras e livros a experiência de ter uma origem humilde e se tornar o primeiro brasileiro a sair do planeta. Sua lógica simples indica que, se não foi impossível para ele, não deve ser para ninguém. 

Mas sua explicação é pouco animadora e dá a dimensão da nossa insignificância: “Embarcados nessa espaçonave chamada Terra, viajando juntos pelo espaço a mais de 100.000 km/h, todos nós somos, de certa forma, astronautas”. Ou seja, para o Universo, cada um de nós é pouco menos que uma bactéria desesperada, agarrada à casca frágil de um ovo em órbita.

Confira abaixo trecho de entrevista realizada em 2015:

O que o inspirou em Gagárin?

Seu pioneirismo e respeito pelas pessoas. Sempre procurei seguir essas características dele. 

Quais outros cosmonautas você admira?

[Vladímir] Komarov [1927-1967], por sua dedicação e sacrifício na amizade com Gagárin.

Quais as principais diferenças entre o treinamento russo e o norte-americano?

Eles são similares, mas o russo é mais apoiado no fator humano, e o americano, no equipamento.

E suas impressões da Rússia?

Parece meio estranho, mas desde o início me senti como se já tivesse vivido lá por muito tempo. Não senti qualquer dificuldade em me adaptar. Foi maravilhoso.

De seu aprendizado na Rússia, o que pode ser aplicado no Brasil?

Determinação em objetivos. Nosso programa espacial sofre de uma certa falta de constância.
 Talvez, as dificuldades enfrentadas pela Rússia com guerras e clima tenha ajudado a formar essa característica, que considero muito importante para o sucesso.

Por que você se candidatou a deputado federal em 2014? 

O Brasil sofre de falta de políticos dedicados aos projetos públicos e com conhecimento técnico e experiência para propor e avaliar projetos importantes. Meu objetivo era provocar uma nova tendência na escolha de políticos. (...) Vejo a política como missão, não como carreira.

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