Acervo revela história das relações diplomáticas entre Rússia e Brasil

Professor Boris Komissarov. Foto: Rossiyskaya Gazeta

Professor Boris Komissarov. Foto: Rossiyskaya Gazeta

Com permissão para trabalhar no arquivo do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, professor Boris Komissarov, da Universidade de São Petersburgo, fez cerca de 35 mil fotografias de diversos documentos em laboratório especial do Itamaraty. Material foi levado para Biblioteca Presidencial Iéltsin.

Um acervo de documentos diplomáticos brasileiros do século 19 com um material rico de informações sobre a Rússia foi digitalizado em São Petersburgo.

O trabalho é do professor e historiador Boris Komissarov, do Departamento de Problemas da Síntese Interdisciplinar em Ciências Sociais e Humanas da Faculdade de Artes e Ciências Liberais da Universidade de São Petersburgo.

Para saber mais sobre o processo de pesquisa deste material –e o que ele revela sobre a história das relações diplomáticas entre Rússia e Brasil– a Gazeta Russa conversou com Komissarov.

Gazeta Russa: Como foram descobertos esses documentos?

Boris Komissarov: Vim pela primeira vez ao Brasil em 1988 para acompanhar, como consultor científico, uma grande exposição intitulada "Langdsorff  de volta". Grigori Langsdorff, viajante e cientista russo de origem alemã e cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, organizou, no início do século 19, uma grande expedição ao interior do Brasil e estudou um território em uma extensão de cerca de 16 mil quilômetros. Na Amazônia, ele ficou doente, perdeu a memória e voltou à Alemanha. Os materiais de sua expedição foram perdidos na Rússia e reencontrados só nos anos 1930.

Estou muito envolvido nos estudos sobre esse viajante e a história das relações entre Rússia e Brasil. Por isso, para mim, era extremamente importante estudar as correspondências das missões diplomáticas russas no Brasil e, naturalmente, os materiais sobre a Rússia enviados pelos diplomatas brasileiros ao Brasil.

Para isso, consegui permissão para trabalhar no arquivo do Ministério das Relações Exteriores brasileiro. Os documentos foram fotografados em um laboratório especial do Itamaraty –foram feitas cerca de 35 mil fotografias. A maior parte do acervo era composto de mensagens de diplomatas brasileiros de de São Petersburgo no período entre 1825 e 1896. Os documentos estavam em mau estado de conservação e organizados em grandes volumes encadernados, tomados de insetos, com o papel roído em muitos lugares. Eu tinha de juntar  várias partes de folhas, algumas tão velhas que se desfaziam ao contato dos dedos, para fotografar. Muitos documentos originais não foram conservados. Quando retornei à Rússia, mandei digitalizar os documentos, que foram levados para a Biblioteca Presidencial Iéltsin.

G.R:As relações diplomáticas entre Rússia e Brasil foram estabelecidas em 1828. Por que os primeiros documentos datam de 1825?

B.K: O processo de estabelecimento das relações diplomáticas começou  em 1825 e teve a participação ativa dos diplomatas russos e brasileiros em Londres e Viena. Os documentos relativos aos contatos diplomáticos nestas duas cidades –redigidos, aliás, em vários idiomas, inclusive francês– também foram fotografados.

Estou trabalhando em uma grande obra dedicada às relações entre os dois impérios, do Brasil e da Rússia, no período entre 1808 e 1889. O primeiro volume é dedicado às suas raízes e vai incluir, entre outras cosias, parte digitalizada dos materiais referentes ao período de 1825 a 1831. Quero concluir o primeiro volume até a cúpula dos países do Brics, prevista para o próximo verão.

G.R:Quais materiais já foram interpretados?

B.K: Os materiais básicos já foram interpretados e mostram que a Rússia reconheceu o Brasil por razões econômicas, enquanto o Brasil perseguiu  objetivos políticos buscando o reconhecimento de sua independência pela Rússia.

O Brasil estava cercado por repúblicas de língua espanhola, surgidas após a Guerra de Independência na América Espanhola (1826), e era a única monarquia na América Latina. Com mais de oito milhões de quilômetros quadrados, queria reforçar seu estatuto monárquico com a ajuda do maior império setentrional, tanto que estava em guerra com a Argentina pelo território do Uruguai.

G.R:Quais motivos econômicos levaram a Rússia a estabelecer relações com o Brasil?

B.K: A Rússia queria vender trigo, ferro e outras mercadorias ao Brasil e foi o 26º país a reconhecer a independência brasileira. No entanto, os contatos econômicos entre os dois países não tiveram um desenvolvimento notável por várias razões, entre as quais a servidão e a ausência de uma marinha mercante na Rússia. O princípio de recrutamento usado para completar a marinha de guerra não podia ser aplicado para a formação de uma frota mercante. Por outro lado, a Rússia poderia ter convocado marinheiros finlandeses, depois de anexar a o país no início do século 19, os pomores, povo marinheiro residente  perto do Mar Branco, ou os gregos que viviam no país, perto do Mar Negro. Mas tudo isso era insuficiente para um império tão grande como a Rússia. Portanto, a única  solução era fretar embarcações estrangeiras.

O Brasil também tinha dificuldades de estabelecer contatos comerciais com a Rússia. O país se tornou independente de Portugal em 1822. Como Portugal era satélite da Inglaterra desde meados do século 17, os ingleses conseguiram estender sua influência ao Brasil, que tinha um grande débito com eles. Os britânicos persuadiram Portugal a reconhecer a independência brasileira, concedendo empréstimos ao Brasil. Como resultado, o século 19 foi marcado pela dependência do Brasil do Grã-Bretanha, que não estava interessado no desenvolvimento de contatos russos e brasileiros.

Portanto, o comércio entre Brasil e Rússia era mantido, na época, por intermédio de companhias inglesas, holandesas, entre outras.

Na minha opinião, hoje em dia, o desenvolvimento de contatos comerciais também não é uma meta prioritária porque há problemas mais importantes decorrentes da crise ambiental global.

G.R:Por que a cooperação entre Rússia e Brasil nessa vertente é importante?

B.K: O relacionamento entre os dois países é importante para todo o mundo. Rússia e Brasil concentram 19% da superfície terrestre do planeta e 62% das florestas do mundo, além das maiores reservas de água doce, que são limitadas. Cinco milhões de pessoas morrem a cada ano em decorrência do consumo de água impura. Portanto, a aliança Moscou-Brasília tem importância vital para todo o planeta. Os povos dos dois países devem se conhecer melhor.

Grigori Langsdorff contribuiu não só para o desenvolvimento dos contatos entre russos e brasileiros, mas também para a promoção das relações entre russos e indianos e russos e chineses. Nesse contexto, ele pode ser considerado como precursor da ideia de criação do Brics.

No século 19, os contatos com outros países latino-americanos eram mantidos através do Rio de Janeiro. Nos finais do século 19, a embaixadas russa no Rio era cumulativa com as da Argentina (1885), Uruguai (1887), Paraguai (1908) e Chile (1911).

A linha ambiental nos contatos de russos e brasileiros no âmbito do Brics pode contrabalançar, em certa medida, uma forte expansão econômica da China (onde a situação ambiental é muito ruim) e, por outro lado, o crescimento descontrolado da população na Índia.

Portanto, Moscou e Brasília devem rever suas relações com destaque para a segurança ambiental. O eixo formado pelos dois países pode atrair também outros com vastos territórios livres de atividades econômicas como, por exemplo, Peru, Equador, Venezuela, EUA (com o Alasca), Austrália e Argélia. Isso é mais importante do que criar mais um canal de comércio.

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