O antigo dialeto russo falado nos rincões do Brasil

Colônia Santa Cruz, no Paraná,  reúne russos mergulhados em suas tradições

Colônia Santa Cruz, no Paraná, reúne russos mergulhados em suas tradições

Olga Rovnova
Em entrevista, a dialetóloga Olga Rovnova, do Instituto de Língua Russa Vinográdov, pertencente à Academia Russa de Ciências, fala sobre costumes de um grupo de fiéis que, para preservar suas crenças e tradições, viajaram ao longo de 300 anos dos territórios da Sibéria e do Extremo Oriente para a América, do Alasca ao Brasil.

Eles fugiram da Rússia no século 17, sofreram repressão das autoridades, promoveram o celibato e os sacramentos eclesiásticos e, por fim, criaram muitas igrejas. Contrariando as práticas da Igreja Ortodoxa introduzidas naquele período, esses personagens conhecidos como “starovéri” (“fiéis antigos”, em português) representaram a força motriz do capitalismo russo no início do século 20 e sobrevivem até os dias de hoje.

A língua falada fora da Rússia permaneceu igual ou foi transformada?

Há dois tipos de língua russa falada no exterior: a padrão e os dialetos. A padrão, quando separada das metrópoles, mantém todas as suas propriedades e permanece a mesma língua, mas também surgem nela novos fenômenos, geralmente léxicos. Novas palavras geralmente estão relacionadas com as realidades dos países onde a língua é falada.

E o dialeto?

Se nos referirmos especificamente à Rússia, trata-se da língua do povo, que continua a ser usada nos interiores do país. Se falamos do russo no exterior, trata-se principalmente da língua dos fiéis antigos, que emigraram por caminhos e em momentos diferentes da Rússia para os países onde moram, como Polônia, Romênia, Argentina, Bolívia, Brasil, Uruguai, EUA, Canadá e Austrália.

Brasil Estado de Goías Foto: Olga RovnovaGrupo de "fieís antigos" no Estado de Goías Foto: Olga Rovnova

Como esses fiéis chegavam à América do Sul?

Aqueles que acabaram ficando na América Latina eram fiéis antigos das regiões de Níjni Novgorod e Vladímir. Devido às perseguições no início do século 18, eles foram reassentados em diferentes partes da Sibéria e do Extremo Oriente. Depois, os que conseguiram se salvar do poder soviético, no final da década de 1920, fugiram para a China. Alguns deles se mudaram do Extremo Oriente para a Manchúria, através do rio Amur. Outra parte viajou do Cazaquistão até Xinjiang [Sinkiang]. Esses grupos não mantiveram contato nem sabiam da existência um do outro.

Por quanto tempo viveram na China?

Até o final dos anos 1950, quando, durante a Revolução Chinesa, começaram a surgir kolkhozes [fazendas coletivas]. E como já conheciam esse sistema e sabiam o que era o poder soviético, não quiseram entrar nos kolkhozes.

O governo chinês, que tratava a todos muito bem – e posso dizer que todos os idosos lembram a China com grande ternura e amor e acompanham de perto a evolução do país –, propôs a eles que optassem por ficar e aceitar todas as condições da vida política e econômica ou partir. Eles escolheram a segunda opção.

Ao contrário da fuga da Rússia, desta vez foi um reassentamento organizado em que participaram as Nações Unidas, a Cruz Vermelha e muitas organização sem fins lucrativos. Dois países sul-americanos estavam dispostos a aceitá-los: Brasil e Chile. Mas no Chile houve um terremoto, e o país foi substituído pela Argentina. A maioria deles foi para o Brasil. E então ele começou a migração interna.

Brasil Estado de Goias Foto: Olga RovnovaSegundo pesquisadora, maioria dos fiéis que se mudaram da China vieram ao Brasil Foto: Olga Rovnova

Como era a vida dos emigrantes na América do Sul?

No começo foi muito difícil. No Brasil, a terra é vermelha e a manta é muito fina, de apenas cinco centímetros. Os fiéis antigos dizem que quando eles conversaram um agrônomo local e perguntaram “O que podemos plantar aqui?”, ele disse que naquela terra não era possível cultivar nada e que era necessário fertilizar muito, por isso, diz-se que a terra está coberta com as lágrimas e o suor dos fiéis antigos russos. Agora, os moradores do Estado do Paraná tem orgulho de dizer que esta é a “nossa terra brasileiro-russa”.

Em meados dos anos 1960 grande parte deles emigraram para os EUA. Por quê?

Principalmente por razões econômicas. Os fiéis tinham famílias grandes, crianças que “Deus lhes mandam”, como diziam, e essas novas crianças precisavam de espaço. E naquele tempo as terras nos EUA era vendidas a preço baixo. Se não me engano, cerca de US$ 20 por hectare.

Quais idiomas falam os fiéis antigos na América do Sul?

Falam os dialetos nos quais se transformaram a língua dos fiéis antigos ao longo dos últimos 300 anos. A linguagem mudou muito, obviamente, já que sua base foi influenciada ao longo de todo caminho percorrido e pelos lugares onde encontravam outros dialetos e outras línguas.

Existe diferença entre os dialetos falados nas várias partes do continente?

O idioma russo tem uma variação regional. Em diferentes territórios se fala a mesma língua, mas ainda há coisas que são diferentes. Refiro-me tanto à linguagem literária como aos dialetos. Seria muito interessante observar se há novas diferenças entre o russo falado na Bolívia e no Brasil.

Tenho notado uma coisa: no dialeto dos fiéis da Bolívia apareceu uma nova palavra. Eles vivem rodeados por tribos indígenas, das quais uma se chama “colla”. Eles a chamam de “Kolya”. Assim, “kolya” significa índio, e “kolintsi” são os índios, com sua própria língua “kolinski”. “Você fala kolinski?”, pergunta-se. Mas, de um modo geral, o dialeto é o mesmo em todas as partes da América Latina onde vivem os fiéis antigos.

Argentina Choele Choel (2012)Argentina também recebeu grupo de imigrantes russos em meados de 1950 Foto: Olga Rovnova

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