Por que Pútin exibe a imagem de ‘machão’?

De caçador a judoca, presidente russo já foi fotografado nas mais diversas aventuras

De caçador a judoca, presidente russo já foi fotografado nas mais diversas aventuras

Varvara Grankova
Embora divida opiniões, postura linha-dura de líder russo causa fascínio mundo afora. Mas, enquanto muitos justificam imagem por supostas ambições políticas, histórico do presidente mostra que esse tipo de comportamento vem de longa data.

Uma das frases mais famosas de Vladímir Pútin foi dita antes mesmo de ele se tornar presidente da Rússia. Em 1999, quando ainda era primeiro-ministro, Pútin prometeu que os serviços especiais do país iriam, se necessário, “dar descarga” nos terroristas. Esta foi a primeira, mas, de longe, não a última declaração dura do futuro líder russo.

Mil e uma habilidades

Pútin faz uso de um tom linha-dura para tratar de muitos problemas, inclusive na arena internacional. “Vocês entendem agora o que causaram?”, disse, enfaticamente, aos líderes ocidentais na ONU em 2015, antes de acrescentar que a política de “democratização” no Oriente Médio resultara no nascimento do Estado Islâmico (EI).

Em janeiro passado, ao comentar os boatos de que a Rússia teria materiais comprometedores sobre Donald Trump (nos quais, supostamente, o presidente americano teria participado de orgias com prostitutas em Moscou), Pútin declarou que os responsáveis pela fabricação de tais notícias eram “piores que prostitutas”.

Mas o líder não se limita à retórica. Em todos os seus anos como presidente, depois como primeiro-ministro e, em seguida, na presidência novamente, a Rússia e o mundo inteiro puderam ver Pútin se aventurando nos mais diferentes cenários. O presidente russo já mostrou suas habilidades como judoca, voou pessoalmente em um avião de combate, foi visto atirando com rifles e até sobre duas rodas entre motoqueiros.

Além disso, Pútin também foi fotografado disparando um dardo tranquilizante contra um tigre, andando de cavalo sem camisa, acompanhando pássaros siberianos durante a migração e submergindo nas profundezas do mar Negro a bordo de um submarino.

Resquícios de um passado violento

Nas lembranças dos antigos vizinhos de Pútin em Leningrado (atual São Petersburgo), o atual presidente russo nunca foi um “frangote”. “Ele era criança inquieta. Não precisamos esconder isso, ele muitas vezes se comportou como um hooligan”, disse Serguêi Bogdanov, amigo de infância de Pútin, ao jornal “Moskovski Komsomolets”.

O próprio Pútin já admitiu que sua infância teve um grande impacto sobre sua personalidade, já que teve, diversas vezes, que lutar e ser durão. “Cinquenta anos atrás, as ruas de Leningrado me ensinaram que, se a briga for inevitável, é preciso bater primeiro”, declarou o político em 2015.

O analista político e professor da Mgimo (do russo, Instituto Estatal Moscovita de Relações Internacionais) Valéri Solovei também acredita que a predileção de Pútin pela imagem de “machão” tenha a ver com o seu passado. “Ele cresceu nas ruas entre, verdade seja dita, encrenqueiros”, disse Solovei à Gazeta Russa.

“O culto à masculinidade reinava naquele ambiente, e demonstrar masculinidade era considerado um comportamento ‘normal’”, acrescentou o professor.

Solovei relembra ainda que Pútin serviu na KGB (agência de inteligência da URSS) durante 16 anos, entre 1975 e 1991. Segundo ele, os funcionários do serviço especial, bem como os militares do país, também admiram a “manifestação da masculinidade”.

Trump, a imitação ‘com camisa’

Não há dúvidas sobre a popularidade de Pútin na Rússia. De acordo com uma pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião Pública russo (VTsIOM) realizada em dezembro de 2016, o índice de aprovação do presidente chega a 86%.

Solovei está convencido de que a imagem bruta do presidente é um dos elementos de seu sucesso – e que Pútin entende perfeitamente isso.

“Pútin parece um líder forte, um homão de verdade”, disse Solovei. “E, sempre que tem a oportunidade, adora exibir os aspectos externos de sua imagem: o comportamento, o físico.”

Para o especialista, o fascínio por “líderes brutos” e de “mão pesada” não é, entretanto, uma característica exclusivamente russa, mas de qualquer sociedade, “até mesmo nas mais democráticas e refinadas”.

Um exemplo disso, segundo ele, é a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. “Se olharmos bem para ele, o comportamento de Trump se assemelha ao de Pútin. Só que ele não anda por aí sem camisa.”

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