Um milagre alemão com bênção de Moscou

Afresco de Vrubel se tornou símbolo da reunificação alemã Foto: divulgação

Afresco de Vrubel se tornou símbolo da reunificação alemã Foto: divulgação

Relatos de testemunhas oculares sobre a queda do Muro de Berlim.

Em 9 de novembro de 1989, um pouco depois das nove da noite, foi levantada a cancela no posto fronteiriço na rua Bornholmer, em Berlim, assinalando a queda do Muro de Berlim e o início da reunificação da Alemanha. Mas pouca gente sabe que tal acontecimento foi precedido por uma série de consultas entre os chefes de Estado da República Democrática Alemã (RDA) e da União Soviética.

“Para os dirigentes da RDA era evidente que chegara a hora de levantar a ‘Cortina de Ferro’”, disse à Gazeta Russa Igor Maksímitchev, cientista do Instituto Europeu da Academia das Ciências da Rússia, que trabalhou em Berlim entre 1987 e 1992 como conselheiro-enviado plenipotenciário na Embaixada da URSS.

“No dia 7 de novembro, o embaixador da URSS Viatcheslav Kotchemassov foi informado por Egon Krenz, secretário-geral do Comitê Central doPartido Socialista Unificado da Alemanha [SED, na sigla em alemão], e Oskar Fischer, ministro dos Negócios Estrangeiros da RDA, do novo projeto de lei sobre partidas do país”, continuou Maksímitchev.

Segundo ele, as autoridades pretendiam estabelecer um posto especial na fronteira com a Alemanha Oriental, que permitiria os cidadãos passarem para a parte ocidental da cidade sem formalidades. “Krenz e Fischer pediram o parecer de Moscou e, em 7 de novembro, o embaixador comunicou que não havia objeções da parte soviética.”   

No final do mesmo dia, Günter Schabowski, membro do Bureau Político, deu uma entrevista relacionada ao plenário do Comitê Central do SED, na qual mencionou as novas normas que permitiam os cidadãos da RDA circularem livremente na Alemanha Ocidental. Ao ser questionado por um jornalista italiano sobre a data em que a medida entraria em vigor, Schabowsky, um tanto confuso, respondeu: “Já entraram”.   

Encontro com capitalismo

O alemão Winfried Pech esteve recordando como multidões de moradores de Berlim Oriental logo tomaram os postos fronteiriços mais próximos. No decorrer de uma hora, cerca de 20 mil pessoas atravessaram a fronteira pela ponte de Bosebrucke, sem nenhuma verificação de documentos. Durante algum tempo, os guardas ainda costumavam carimbar os passaportes.   

Winfried guarda até hoje o seu passaporte da RDA, carimbado pelos serviços fronteiros em 9 de novembro de 1989. O carimbo tapa a fotografia, o que na época significava que não poderia retornar a Berlim Oriental. “Estivemos junto da cancela, eu e a minha mulher. Eu disse: ‘Anda, vamos passar, depois regressaremos! Agora, este carimbo é a nossa relíquia, a razão de nosso orgulho.”

Helga Krauze também esteve na Bosebrucke naquela noite. Mesmo após um quarto de século, não consegue conter as lágrimas. “Vivi neste bairro cerca de 20 anos, encarando a Bosebrucke todos dias, sem poder sequer pensar em pisar a ponte. Por fim, pisei e fiquei lá chorando. Os moradores da Osloer Strasse, que está do lado ocidental, se aproximaram a mim com champanhe, e bebemos juntos”, conta.

Mais de 100 mil cidadãos da RDA tentaram atravessar o Muro de Berlim no período que a Alemanha permaneceu dividida. Até hoje, não se sabe ao certo quantos foram mortos durante essas tentativas. Segundo os especialistas do Centro de Pesquisas da História Moderna, de Potsdam, apenas 138 vítimas foram confirmadas.

Troca de beijos

O muro, que horrorizou a população durante 28 anos, com seu guardas segurando armas automáticas e metralhadoras, arame farpado, minas e sinalização elétrica, começou então a ser desmontado – os fragmentos passaram a ser recordações.

Winfried e seus vizinhos usavam martelos para destrui-lo. Mas houve quem o destruísse até com caminhões. Hoje em dia, seus pedaços pontuam as atrações turísticas.O trecho mais comprido do muro, de 999 metros de extensão, fica na Mühlenstrasse.

“O que outrora era uma parte integrante da fronteira oficial, temível e inexpugnável, se transformou numa galeria de arte ao ar livre. Artistas e arquitetos restauraram os grafites neste trecho, feitos ainda nos tempos de reunificação da Alemanha”, comenta um guia turístico de Berlim.

O muro colorido se tornou para os alemães a principal imagem do ano histórico de 1989. É ali que foi reproduzido, em um grafite do russo Dmítri Vrubel, o famoso beijo na boca entre Leonid Bréjnev e Erich Honecker.

O artista, que fora a Berlim com um propósito totalmente diferente, descreve a surpresa da situação. “Aquilo aconteceu por mero acaso. Um conhecido, que me tinha convidado para montar uma exposição minha em Berlim, estava morando a 500 metros daquele trecho do muro que foi entregue aos artistas. O bairro era sombrio, metia medo. Berlim Oriental estava quase despovoada, a maior parte da população fugiu para a parte ocidental”, disse Vrubel.

Em 2009, a restauração do grafite, que coroou Vrubel com a fama mundial, parecia mais uma animação de rua. “Durante três dias, eu não conseguia começar o trabalho, que demorou um mês inteiro. Costumava desenhando uma letra por dia, pois logo que me sentava vinham correndo mais de mil e meio espectadores e jornalistas. Eram sessões contínuas de autógrafos e entrevistas”, recordou o artista. “A versão original existia apenas nos postais e ímans. A minha missão era recuperar a imagem que estava gravada apenas nas memórias dos berlinenses.”

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