Dois portugueses que serviram ao Império Russo com primor

Russia Beyond (Foto: Domínio público; Legion Media)
Até o século 18, as potências, que ficam em extremos opostos da Europa, não sabiam praticamente nada uma da outra. Mas isso não impediu que alguns portugueses fizessem carreiras de sucesso na terra dos tsares...

António de Vieira, o escolhido do imperador

Em 1697, durante uma longa viagem por países europeus, o tsar Pedro, o Grande, visitou a Holanda, onde os governadores locais organizaram uma batalha naval para o deleite do monarca convidado.

Enquanto desfrutava do espetáculo, o tsar russo se deparou com um jovem e forte marinheiro que habilmente subiu nas ovéns e amarrou as velas. O jovem saltava “como um macaco”, como se lê na crônica russa sobre o ocorrido.

António de Vieira (1682 (?)-1754).

Ele era António de Vieira, proveniente de uma família judia desprovida que se mudara de Portugal para Amesterdã. O tsar, que geralmente julgava as pessoas não por sua origem e riqueza, mas por suas habilidades e força de caráter, convidou o marinheiro a servir à Rússia, e o português aceitou imediatamente a oferta do imperador.

Pedro, o Grande, não se enganou na escolha: em dez anos o António de Vieira fez uma carreira incrível, passando de um simples pajem a general-ajudante. Em 1718, o monarca o nomeou para o cargo de general de polícia de São Petersburgo, e ele passou a ser o responsável por restaurar a ordem na então capital do Império Russo.

Anton Manuílovitch Devier, como ele passou a ser chamado ali, arcou com o serviço de maneira brilhante. Ele formou destacamentos policiais especiais, construiu postos avançados nas entradas da cidade e introduziu vigílias noturnas nas ruas.

Além disso, foi ele quem criou o serviço de bombeiros da capital, desenvolveu novos sistemas de drenagem de pântanos, proibiu o descrte de lixo nos rios e mares — e as infrações passaram a ser punidas com chicoteamento — e proibiu a venda de mercadorias de baixa qualidade ou a preços injustificados.

Pedro, o Grande, estava muito satisfeito com o chefe de polícia. “Inflexível e rápido em cumprir as ordens reais, ele causou tanto medo entre todos os moradores da cidade que eles tremiam ao ouvir seu nome”, escreveu Holstein Friedrich Bergholz, um nobre alemão que viveu na Rússia por alguns anos.

No entanto, após a morte do imperador, em 1725, a carreira de Anton Devier estagnou: outro homem próximo de Pedro, o príncipe Aleksandr Ménchikov fez tudo para prejudicá-lo.

Aleksandr Menchikov (1673-1729).

O conflito entre Ménchikov e Devier começou quando o português, que ainda não ocupava um alto cargo, pediu em casamento a mão de Anna, irmã de Ménchikov. O português não apenas recebeu uma rude recusa, mas também foi capturado e espancado pelos servos do príncipe russo.

O imperador interveio e permitiu o casamento, mas a inimizade entre os dois só aumentou. Os dois não perdiam a oportunidade de prejudicarem a vida um do outro.

Em 27 de maio de 1727, no início do reinado de Pedro 2º, aos doze anos, sob total controle de Ménchikov, Anton Devier foi acusado de ter intenções de tirar o monarca do poder. Ele foi privado de seu título de nobreza, de sua propriedade, foi chicoteado e exilado na Sibéria.

Em 1741, a imperatriz Isabel da Rússia retirou todas as acusações contra Devier e o enviou de volta a São Petersburgo. Três anos depois, o português voltou ao posto de chefe de polícia da capital. No entanto, a saúde do português, aos 63 anos, já estava abalada e, após apenas 6 meses, ele morreu.

Gomes Freire de Andrade, herói de duas guerras

Gomes Freire de Andrade.

Filho do enviado português em Viena, Gomes Freire de Andrade nunca pensou em ir à longínqua Rússia. Ele fez carreira militar em Portugal, alternando o serviço como no exército terrestre na marinha do país.

No entanto, sem oportunidade de participar de uma grande guerra, Gomes acabou deprimido, e, em 1788, com a permissão da corte real, partiu para a guerra russo-turca. Nela, junto com ao exército Iekaterinoslávki, ele participou do cerco à fortaleza Otchakov (que hoje é uma cidade no sul da Ucrânia).

Cerco a Otchakov.

Na manhã gelada de 17 de dezembro, as tropas russas atacaram, e Gomes Freire foi um dos primeiros a escalar as muralhas da cidadela. Por decreto da imperatriz Catarina 2º, o bravo português foi condecorado com a ordem militar de São Jorge.

Uma guerra não foi suficiente para Gomes, e, em 1789, ele recorreu ao comando russo com um pedido para mandá-lo para o mar Báltico, onde, naquela época, já estavam em andamento operações militares contra a Suécia.

Devido a seu excelente comando das baterias flutuantes e de um navio lento com artilharia pesada durante a Primeira Batalha de Rochensalm, em 24 de agosto, ele foi premiado com uma espada de ouro "Por Sua Coragem" e promovido a coronel.

“É bom ouvir os elogios que não só os chefes, mas também seus camaradas expressam pela coragem, diligência e trabalho ativo do comandante Gomes Freire de Andrade”, relatou o Secretário da Missão Portuguesa em São Petersburgo, Noronha Torresana, ao ministro português. Em 1791, após o fim das guerras contra turcos e suecos, Gomes Freire de Andrade retornou à terra natal.

Mas o português ainda voltaria à Rússia em 1812 — numa visita que, porém, não fora nada amigável. Como oficial da Legião Portuguesa, ele participou naquele ano na invasão do Grande Exército de Napoleão ao Império Russo.

No entanto, o português não participou efetivamente de batalhas contra seus ex-companheiros de armas, já que servia como governador militar da cidade de Disna (que hoje faz parte da Bielorrússia, no norte do país). No final de 1812, ele deixou para sempre a Rússia, junto com os poucos remanescentes das tropas francesas.

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