Os homens por trás da segurança de Lênin e Stálin

História
GUEÓRGUI MANÁEV
Não eram apenas guarda-costas que protegiam líderes soviéticos, como também cozinheiros, faxineiros e outros funcionários que precisavam, além de suas habilidades específicas, ser treinados para protegê-los.

Os “líderes do povo” soviéticos precisavam de proteção pessoal o tempo todo. O desempenho da segurança pessoal de Vladímir Lênin era catastrófico, e seus guarda-costas falharam em impedir diversos atentados contra a vida do principal revolucionário russo.

O oficial de segurança imediato de Lênin era Stepan Guil, um motorista que tinha trabalhado na garagem do imperador. Ele andava armado apenas com uma pistola para proteger o líder soviético.

O problema é que o próprio Lênin detestava a segurança pessoal. Guil relembrava: “Vladímir Ilíitch rejeita categoricamente qualquer tipo de proteção. Ele nunca carregou uma arma consigo, exceto uma pequena Browning, que nunca usou, e pediu que eu tampouco me armasse. Certa vez, ao ver um revólver no coldre do meu cinto, ele disse: ‘Para que você precisa disso, camarada Guil?’ No entanto, decidi continuar a levar o revólver comigo e escondê-lo cuidadosamente de Vladímir Ilíitch.”

‘20 homens saudáveis ao redor’

Em dezembro de 1917, alguém roubou o carro de Lênin enquanto Guil tinha saído para tomar uma xícara de chá. O veículo foi posteriormente recuperado de contrabandistas que tentaram tirá-lo da Rússia. Em 1 de janeiro de 1918, o veículo Lênin foi atacado. Lênin e a irmã foram salvos por Fritz Platten, amigo suíço de Lênin, que fez os dois se esconderem dos tiros sob o assento.

Em agosto de 1918, Moisei Uritsky, um bolchevique famoso, foi assassinado em Petrogrado. Naquele mesmo dia, após fazer um discurso em uma fábrica de Moscou, Lênin foi atacado por uma mulher chamada Fanny Kaplan. Stepan Guil não conseguiu deter o criminoso, e Lênin ficou gravemente ferido. Essa ferida teria sido o principal fator para a deterioração da saúde de Lênin, precipitando sua morte.

Só depois desse ataque quase fatal foi formada a primeira unidade de segurança oficial de Lênin, com 20 oficiais. Mesmo assim, Lênin odiava as medidas. Certa vez, em sua residência em Górki, perto de Moscou, ele disse: “A Revolução precisa de todos os soldados e eis que 20 homens saudáveis andam ao meu redor!”

Em janeiro de 1919, Lênin foi atacado novamente. Desta vez, porém, o ataque vinha de um bando de criminosos que não o reconheceu. Guil levava Lênin e a irmã ao distrito de Sokôlniki, em Moscou, para visitar a mulher de Lênin, Nadêjda Krúpskaia, em um hospital. De repente, seu Rolls-Royce foi parado por três homens armados.

Guil novamente nada fez. Os bandidos tiraram Lênin, a irmã e o motorista do veículo e roubaram o carro.

O último atentado ocorreu em setembro de 1919, quando um terrorista lançou uma bomba na sala onde Lênin estava fazendo um discurso, matando 12 pessoas e ferindo 55 — mas o líder soviético não foi atingido.

‘Stálin não deve andar por Moscou’

Após a morte de Lênin em 1924, a segurança da nova liderança soviética foi completamente renovada. Entre 1923 e 1929, a segurança dos principais líderes bolcheviques foi garantida pelo Diretório Político do Exército e da Marinha Soviética.

A partir de 1929, quando Stálin assumiu o poder, as forças de segurança passaram a crescer consideravelmente. Em 1934, a responsabilidade pela proteção do líder foi confiada ao Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD, na sigla em russo).

Stálin era muito parecido com Lênin: um velho revolucionário envolvido em atividades criminosas. Ele costumava andar a pé, disfarçado de transeunte, com seu sobretudo casual e boné pontudo.

A partir do Kremlin, ele podia caminhar um quilômetro até o prédio do Comitê Central do Partido Comunista ou até o Teatro Bolshoi. Os agentes de segurança tinham que segui-lo nessas caminhadas.

Em 1931, a segurança de Stálin deteve um ex-oficial do exército tsarista carregando uma pistola. O oficial encontrou Stálin na rua Ilínka, perto do Kremlin, e estava prestes a sacar a arma.

Após esse incidente, o primeiro-ministro soviético, Viatchesláv Môlotov emitiu uma ordem à segurança: “O camarada Stálin deve ser impedido de andar por Moscou”. Daquele momento em diante, Stálin só podia se locomover acompanhado por guardas, mesmo no território do Kremlin.

Sistema de segurança de Vlássik

A verdadeira reforma na segurança pessoal de Stálin foi realizada por Nikolai Vlássik, chefe da unidade de segurança pessoal a partir de 1927. Quando Vlássik visitou pela primeira vez a dátcha (casa de campo) onde Stálin vivia, ele viu “uma completa desordem”: “Não havia lavanderia, nem cozinheiros ou outros funcionários [...] Mandei um cozinheiro e uma faxineira para lá e estabeleci uma conexão telefônica direta com Moscou", escreveu Vlássik.

Na década de 1930, os cozinheiros, faxineiros e todos os outros funcionários da dátcha de Stálin e de outras residências de altos funcionários bolcheviques eram treinados como funcionários de segurança do Estado.

Em 1938, Vlássik criou um enorme sistema de segurança que incluía complexos privados protegidos no litoral do Mar Negro, uma produção fechada de alimentos e centros de treinamento de pessoal de segurança. Vlássik também era o responsável pela saúde de Stálin. Uma clínica e um hospital especial foram organizados especialmente para altos funcionários do partido.

A unidade de segurança pessoal de Stálin tinha cerca de 200 pessoas, entre eles, de 30 a 40 guarda-costas pessoais. Eles trabalhavam em turnos, de 9 a 12 pessoas por turno, incluindo dois motoristas.

Os guarda-costas eram proibidos de fazer pedidos pessoais a Stálin. Existem muitos rumores sobre como Stálin tratava essas pessoas — desde não prestar nenhuma atenção a eles até que os convidava para jogar xadrez, mas nenhum deles comprovado com evidências documentais.

Vlássik mandou usar várias limusines idênticas com itinerários diferentes, e quase ninguém sabia em qual carro Stálin estava. Além disso, é provável que Stálin tivesse dublês de corpo para confundir ainda mais possíveis agressores.

Vlássik usava um método de segurança dos imperadores russos: durante as viagens da dátcha e para a dátcha, guardas eram colocados em ambos os lados da estrada, ao longo de toda a rota, para evitar qualquer intrusão. Quando Stálin viajava de trem, era precedido e seguido por trens cheios de agentes de segurança.

As medidas de segurança de Vlássik se provaram eficazes: não houve tentativas de assassinato de Stálin — ou, pelo menos, não foram registradas quaisquer tentativas. Em 1952, Vlássik foi retirado do cargo de chefe de segurança de Stálin após a reorganização do NKVD por Lavrênti Béria.

Stálin morreu em 1953, após sofrer um acidente vascular cerebral e passar várias horas em seu quarto sozinho.

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