Como um policial de trânsito soviético salvou 40 adolescentes norte-americanos

Kira Lissítskaia (Foto: Administração da região de Kursk, Iúri Abrámotchkin,Vsevolod Tarassévitch/Sputnik)
Após o incidente, o presidente norte-americano George H. W. Bush agradeceu pessoalmente a agente de trânsito comum por seu ato de heroísmo.

Em um jantar de gala em maio de 1990, um representante dos Estados Unidos leu uma carta de agradecimento do presidente George H. W. Bush a um simples agente de trânsito soviético da região de Kursk. O evento repercutiu em todo o país. Mas, afinal, o que levou o presidente dos EUA a parabenizar um policial soviético?

Raissa Gorbatcheva e estudantes norte-americanos reunidos no Kremlin de Moscou, em 23 de março de 1989

Caravana da amizade

Mais para o final do regime soviético, em 1987,  foi criado um programa de intercâmbio de estudantes com os EUA. Chamado de People to People International (e também conhecido como Caravana da Amizade na URSS), o primeiro grupo de participantes foi recebido pessoalmente pelo presidente Mikhail Gorbatchov. No verão de 1989, um grupo de 300 estudantes do ensino médio de diferentes estados dos EUA embarcou em uma viagem para a União Soviética. A viagem começou em Moscou e prosseguiu por várias cidades em um ônibus turístico antes de terminar no acampamento Artek, na Crimeia, onde os estudantes se encontraram com seus pares.

Delegação americana em viagem de Moscou para Leningrado (atual São Petersburgo)

No fatídico dia 2 de agosto, nove ônibus viajavam de Belgorod para Kursk. Eles estavam sendo acompanhados por um carro da Polícia de trânsito com dois agentes de Kursk.

O sargento Mikhail Pankruchev estava ao volante e o tenente sênior Vladímir Kiriliuk no banco do passageiro. Um ônibus com 40 adolescentes norte-americanos os seguia. Foi então que um caminhão ZIL-133 que estava na faixa oposta da rodovia perdeu o controle.

Pankruchev reagiu rapidamente, girando o volante para a esquerda e parando o carro da polícia bem na frente do caminhão. Os dois agentes ficaram feridos e passaram algum tempo no hospital, mas graças a seu raciocínio rápido nenhum dos adolescentes se machucou.

Viatura da Polícia de Transito na URSS

Pankruchev teve algumas costelas quebradas, mas conseguiu voltar ao trabalho, enquanto seu colega deixou a polícia para sempre em decorrência dos ferimentos.

Mesmo anos depois, Pankruchev não disse se foi ele sozinho ou os dois oficiais que tomaram a decisão de arriscar suas vidas. O que se sabe é que os dois policiais receberam medalhas, certificados de honra e bônus em dinheiro pelo ato de heroísmo. 

Pankruchev foi também agraciado com o posto de chefe de polícia e recebeu a tão aguardada licença para um novo apartamento.

Memória especial

As notícias sobre os policiais heroicos logo chegaram aos ouvidos do presidente George H. W. Bush. Ele dava atenção especial ao programa de intercâmbio, e os próprios participantes da viagem lhe contaram sobre o acontecimento. Em 1990, uma delegação norte-americana chegou a Moscou e entregou a Pankruchev uma carta de agradecimento datada de 9 de maio. Bush qualificou esse feito da polícia soviética como um ato de “bravura excepcional”.

Pankruchev, sua mulher e filho com carta e presentes dados por George W. Bush

“Muitos americanos viajaram para a União Soviética e trouxeram memórias maravilhosas de suas experiências, mas os jovens estudantes que você ajudou no verão passado trouxeram para casa uma memória muito especial. Saber que você colocaria sua vida em perigo por eles, acima e além do dever, sempre permanecerá em suas mentes e corações”, escreveu Bush. Além da carta, o presidente dos EUA enviou algumas lembranças, incluindo um retrato autografado e um relógio.

Emanuel Portoliz, diretor do programa People To People, entrega presente enviado pelo presidente norte-americano George W. Bush a Pankruchev (dir.)

Pankruchev continuou trabalhando na corporação até sua aposentadoria e morreu em novembro de 2020 de doença cardíaca.

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