Como os americanos resgataram 800 crianças russas durante a Guerra Civil na Rússia

petrograd colonia/youtube.com
O que começou como férias de verão nos Montes Urais inesperadamente se transformou em uma odisseia de três anos ao redor de meio mundo.

Em 18 de maio de 1918, quase 800 crianças deixaram Petrogrado (atual São Petersburgo) para passar as férias de verão nos Urais, na Rússia central. Ninguém poderia imaginar que em, dentro de tão pouco tempo, eles se encontrariam em perigo mortal nem que viajariam meio mundo e voltariam para casa apenas dois anos e meio depois.

Perdidos

Em novembro de 1917, Petrogrado presenciou a Revolução Bolchevique, que logo foi seguida por um inverno rigoroso. Na primavera, os estabelecimentos de ensino, juntamente com os pais, decidiram enviar 11 mil crianças de forma organizada para os “acampamentos infantis de verão”, que estavam espalhados por todo o país. O objetivo era aumentar a força e melhorar a saúde das crianças. Porém, cerca de 800 delas não tiveram sorte – acompanhadas por centenas de adultos, elas partiram em uma viagem malfadada aos Montes Urais.

No final das contas, eles não poderiam ter escolhido um momento pior para a viagem. Enquanto os trens que transportavam as crianças seguiam para o leste do país, uma revolta antibolchevique estava começando por lá. Em questão de semanas, uma vasta região da Sibéria e dos Urais se viu engolfada pela guerra civil.

Encontrando-se no epicentro das hostilidades, as crianças se tornaram testemunhas oculares dos acontecimentos. Um dia, a área em que seus acampamentos estavam situados poderia estar sob o controle dos vermelhos, e no dia seguinte a mesma área poderia ser apreendida pelos brancos. “As ruas estavam totalmente tomadas por tiros, e nós, escondidas sob os sofás, olhávamos com medo enquanto os soldados andavam pelos quartos, levantando nossos colchões com suas baionetas”, lembrou uma das garotas do acampamento.

No final de 1918, os estudantes de Petrogrado se viram na retaguarda dos exércitos brancos de Aleksandr Koltchak, que avançavam rumo a oeste, e voltar para casa se tornou simplesmente impossível. A situação foi agravada pelo fato de que o dinheiro e os suprimentos de comida estavam se esgotando rapidamente e as crianças ainda usavam suas roupas de verão enquanto o inverno se aproximava.

O resgate

Inesperadamente, a Cruz Vermelha norte-americana, que operava na Rússia na época, se interessou pelo caso. Reunindo crianças de todos os acampamentos e colocando-as em um único camping perto da cidade de Miass, no sul dos Urais, a organização as manteve sob sua proteção: a Cruz Vermelha deu às crianças roupas quentes, atendeu todas as suas necessidades diárias, deu-lhes refeições regulares e até retomou as atividades educacionais.

Sempre que possível, os americanos informavam ao governo soviético sobre a vida no acampamento e encaminhavam cartas das crianças aos pais, que estavam loucos de preocupação em Petrogrado. Os dois lados discutiram várias possibilidades para evacuar as crianças, mas nenhuma das propostas se concretizou.

Após a derrota de Koltchak, no verão de 1919, o Exército Vermelho estava se aproximando da área do acampamento, e a Cruz Vermelha americana decidiu levar as crianças para longe da zona de guerra; primeiro para o interior da Sibéria e depois à Ilha Russki, em Vladivostok.

Na primavera de 1920, os Estados Unidos começaram a evacuar suas tropas do Extremo Oriente Russo, e a missão da Cruz Vermelha americana deixaria o país com eles. A entidade não queria deixar as crianças sozinhas, mas não tinha a possibilidade de levá-las junto. Assim, os americanos pediram ajuda aos japoneses, decidindo evacuá-las para a França.

Riley Allen, que trabalhava para a Cruz Vermelha, fretou um cargueiro japonês. O proprietário do navio, Ginjiro Katsuta, que era presidente da Katsuta Steamship Co. Ltd., reequipou completamente o navio às suas próprias custas para evacuar os jovens passageiros: camas e ventiladores foram instalados e uma enfermaria, montada.

Em 13 de julho de 1920, o navio Yomei Maru, com as bandeiras dos EUA e do Japão nos mastros e uma enorme cruz vermelha pintada em seu funil, deixou o porto de Vladivostok. Só mais tarde soube-se que o barco estava partindo para uma viagem quase ao redor do mundo.

Do outro lado do mundo

Seguindo o conselho dos médicos, a rota mais curta através do Oceano Índico foi rejeitada. No auge de um verão extremamente quente, teria sido muito perigoso para a saúde das crianças. Cruzando o Pacífico, a embarcação navegou para São Francisco e de lá rumo a Nova York via Canal do Panamá. O Yomei Maru e seus jovens passageiros atraíram a atenção do público norte-americano. Nos portos de escala, foram recebidos por uma multidão de jornalistas, e o presidente Woodrow Wilson e sua esposa enviaram saudações.

“Várias organizações de Nova York entretinham nossas crianças todos os dias. Uma viagem de barco ao longo do rio Hudson, uma festa no Bronx Park e um city tour foram organizados em uma escala verdadeiramente grande”, relembrou o capitão do navio, Motoji Kayahara.

Por causa da Guerra Civil que assolava a Rússia, a Cruz Vermelha americana planejou deixar as crianças de Petrogrado por algum tempo na França, onde já haviam sido preparadas acomodações para elas. Mas a decisão provocou forte oposição dos franceses. Junto com seus cuidadores, eles enviaram uma mensagem aos americanos: “Não podemos ir para um Estado cujas ações resultaram na morte de cidadãos russos e continuando a morrer às dezenas de milhares e centenas de milhares como consequência do bloqueio [o bloqueio econômico da Rússia soviética pelas potências da Tríplice Entente – Russia Beyond]; e armas de guerra enviadas pela França à Polônia [a Guerra Soviético-Polonesa estava em curso na época – Russia Beyond] tiraram e continuam a tirar a vida de centenas de milhares de jovens soldados russos”, lê-se no apelo assinado por 400 pessoas.

No final, ficou decidido levar as crianças para a Finlândia, vizinha da Rússia soviética. O Mar Báltico, onde dezenas de minas tinham ficado à deriva desde a época da Primeira Guerra Mundial, foi o trecho mais perigoso. O navio foi forçado a avançar vagarosamente, alterando o curso o tempo todo e fazendo paradas não apenas à noite, mas também durante o dia.

Em 10 de outubro de 1920, o Yomei Maru chegou ao porto finlandês de Koivisto, a apenas algumas dezenas de quilômetros da fronteira russa, onde encerrou a longa viagem. A partir dali, as crianças seriam entregues em grupos pelos postos de controle da fronteira para o lado soviético. “Desde que saímos de Vladivostok, passamos juntos pelo calor e pelo frio e, nos últimos três meses, as crianças fizeram amizade com os tripulantes e ficavam dizendo, com tristeza, ‘sayonara, sayonara’ [tchau] ao desembarcarem do navio”, lembrou Kayahara. Os últimos estudantes em viagem voltaram para casa em fevereiro de 1921. Já adultos e amadurecidos, eles chegaram à mesma estação ferroviária em Petrogrado de onde haviam partido quase três anos antes para o que acreditavam ser uma curta viagem aos Urais.

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