Quando um piloto cubano e seu MiG-21 salvaram 16 compatriotas na Guerra de Independência de Angola

Rafael del Pino

Rafael del Pino

Screenshot de Youtube
Cercado por tropas hostis na retaguarda inimiga, um destacamento de exploração cubano com 16 homens, sob o comando do tenente Artemio Rodriguez Cuza, conseguiu romper o cerco graças à intervenção de um exemplar do caça soviético.

Na segunda metade do século passado, soavam tambores de guerra em um país do continente africano em processo de descolonização. Em meados de outubro de 1975, enquanto o Exército de Zaire e forças mercenárias reforçadas com armamento pesado e assessores militares sul-africanos se preparavam para lançar ataques no norte de Angola, colunas de veículos blindados sul-africanos ao sul tentavam ocupar a capital angolana antes a proclamação da independência do país, em 11 de novembro.

Com o controle de Luanda, o Movimento Popular de Libertação de Angola declarou a independência de Angola em 11 de novembro de 1975, dia em que os portugueses deixaram a capital. O poeta e lutador pela independência Agostinho Neto tornou-se o primeiro presidente de Angola independente de Portugal.

Agostinho Neto e líder cubano Fidel Castro

Os motivos de Cuba

Na época, havia apenas 480 instrutores militares cubanos em Angola, em resposta ao pedido do presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Agostinho Neto. Mas, diante da iminência do ataque, Cuba concordou em enviar tropas para combater os exércitos da África do Sul – a maior e mais rica potência da África –, do Zaire e dos Estados Unidos.

“Quando começou a invasão de Angola pelas tropas regulares sul-africanas, em 23 de outubro, não podíamos ficar parados. E quando o MPLA nos pediu ajuda, oferecemos o que era necessário para evitar que o Apartheid se instalasse confortavelmente em Angola”, explicou Fidel Castro sobre a intervenção cubana.

Mapa do movimento das tropas sul-africanas durante a Operação Savana (1975-76)

Em 1976, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e os países que a apoiavam foram derrotados na Operação Carlota, uma das mais importantes missões internacionalistas que Cuba realizou até hoje.

No entanto, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), apoiada pelo Apartheid da África do Sul, continuou a lutar pelo poder.

O esquadrão cubano que fundou a Força Aérea Angolana

Como complemento à sua aviação regular em Angola, as FAR (Forças Armadas Revolucionárias Cubanas) decidiram, em dezembro de 1975, enviar um Esquadrão de MiG-21MFs diretamente da URSS.

Em 8 de janeiro de 1976, os gigantescos An-22 soviéticos chegaram a Luanda, capital da Angola, com 12 MiG-21MFs. Onde dias depois, um esquadrão inteiro estava pronto. Em 21 de janeiro, o presidente Agostinho Neto assistiu à fundação da Força Aérea Nacional de Angola, passando revista aos MiG-17 e MiG-21, onde todo o pessoal e pilotos eram, curiosamente, cubanos.

MiG-21 da Força Aérea Nacional Angolana

O chefe do esquadrão de MiG-21 era o major Benigno Gonzáles Cortés. O agrupamento recebeu ordens de estar pronto para atacar alvos no Zaire com MiG-21s, como a base aérea de Kitona ou o palácio presidencial de Mobutu Sese Seko em Kinshasa. Mas antes que tivessem tempo para tal, o Zaire foi derrotado em solo pelas tropas cubanas, abandonando o conflito. O Exército cubano dirigiu-se a sul e leste.

MiG-21BIS ao resgate

Os caças russos tiveram a primeira oportunidade de entrar em combate em 8 de fevereiro de 1976, quando tropas da UNITA isolaram em sua retaguarda um destacamento de exploração cubano composto por 16 homens, sob o comando do tenente Artemio Rodriguez Cuza. Esses homens tentaram, sem sucesso, romper o cerco e pediram ajuda pelo rádio, em uma área quase fora do alcance dos MiG-21s: “Fomos localizados pelo inimigo, estamos cercados e lutando de muito perto”.

O chefe do Grupo Aéreo em Angola, coronel Rafael del Pino, decidiu – apesar de não ter recebido autorização de Havana – que a patrulha fosse resgatada.

Eles estavam a mais de 500 quilômetros de Luanda, praticamente no limite das possibilidades pelo raio de ação dos MIG-21. Além disso, a ordem era não tomar nenhuma ação combativa até que os sul-africanos o fizessem primeiro. Existia, porém, a alternativa de fazer um voo rasante para assustá-los, e que os helicópteros os resgassem no meio da confusão, sem recorrer a armamento.

Quando a unidade se encontrava fora do alcance máximo do MiG-21MF, del Pino decidiu arriscar a voar em um solitário MiG-21MF, acompanhado por dois helicópteros Alouette-III (troféus de guerra cubanos). Del Pino decolou às 8 da manhã de Luanda em seu MiG-21MF armado com foguetes de 57 mm sob as asas. Quando a patrulha estava quase sem munição e havia praticamente perdido a esperança de sair com vida, o caça de del Pino surgiu nos céus. O inimigo, ao vê-lo, confundiu-o com um de seus Mirage franceses e, em vez de fugir da aeronave, eles a saudaram do chão.

“Droga, parece que não há outra escolha a não ser usar armas”

Del Pino destruiu uma bateria de morteiros da UNITA e, em seguida, deu dois rasantes, metralhando as tropas inimigas, que fugiram aterrorizadas. Aproveitando a oportunidade, a patrulha cubana conseguiu romper o cerco e retornar em segurança à fronteira com a Namíbia. O MiG-21MF de Del Pino, sem tanques adicionais, ficou sem combustível na própria pista ao pousar em Luanda. Apesar do ato de heroísmo, a ação, considerada como uma “indisciplina”, levou del Pino a ser destituído em 2 de maio de 1976 como chefe da aviação cubana em Angola.

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