Os dissidentes soviéticos contra Angela Davis

Angela Davis

ZUMA Press/Global Look Press
Soviéticos atacaram ativista diversas vezes, entre eles Soljenítsin e Vladímir Bukóvski, que morreu nesta segunda-feira (28), mas ambos os lados foram usados como armas por EUA e URSS nas batalhas virtuais da Guerra Fria. O objetivo era alcançar o posto de bastião da democracia – fosse ela comunista ou capitalista.

Na semana passada, Angela Davis esteve em São Paulo para uma série de seminários e conferências, além de uma coletiva de imprensa no auditório Oscar Niemeyer, no parque do Ibirapuera, no dia 21 de outubro. Na última, a filósofa e ativista norte-americana respondeu a perguntas de veículos que ela mesma selecionou e, a um jornal de grande porte, enumerou toda sua cruzada rumo à liberdade geral: da natureza, das mulheres, dos palestinos e de muitos outros. 

Mas, pelo menos desde 2017, a historiadora norte-americana Meredith Roman, professora da State University of New York, vem pesquisando o caso de um grupo que Davis, apesar de sua autoridade no ramo, não defendeu: o dos dissidentes soviéticos. 

“[O dissidente soviético Vladímir] Bukóvski era um dos que criticava Davis, assim como [o escritor Aleksandr Sojenítsin, que fazia reproches abertos a ela”, disse Roman por telefone em entrevista ao Russia Beyond. Segundo ela, a principal decepção deles era com o fato de Davis não usar a posição e fama que angariou com a repercussão de seu caso judicial para denunciar a perseguição aos dissidentes soviéticos.

Dívida

Segundo escreve a historiadora Raquel Barreto, da Universidade Federal Fluminense, no prefácio de “Uma autobiografia”, de Davis, lançado pela editora Boitempo neste ano, a ativista “manteve uma curta aproximação do movimento [dos Panteras Negras], sem nunca ter sido, de fato, uma militante orgânica”. 

Davis dedicou-se principalmente ao Partido Comunista dos Estados Unidos, por meio do qual manteve laços estreitos com a União Soviética – ligação que, segundo Roman, era repudiada pelos Panteras, principalmente após o afastamento do cantor Paul Robenson do ativismo público e da morte do ativista intelectual afro-americano W.E.B. Du Bois, em 1963. Em 1969, Davis chegou a ser demitida do cargo de professora da Universidade da Califórnia devido a sua afiliação ao partido.

Angela Davis

“Mas, enquanto a condenação que os Panteras faziam dos líderes soviéticos como imperialistas poderia ter criado um consenso entre eles e os defensores dos direitos humanos, a negação dos últimos dos efeitos negativos do racismo institucional e da violência policial sobre as vidas dos afro-americanos justificava o lamento dos esquerdistas norte-americanos de que os dissidentes soviéticos tinham mais em comum com a ‘lei e ordem’ do vice-presidente dos EUA, Spiro Agnew, do que com eles”, escreve Roman em seu artigo “’Renegados soviéticos’: Panteras Negras e Angela Davis, a política dos dissidentes na imprensa soviética entre 1968 e 1973”.

E foi justamente a ligação com o poder soviético que teria salvado Angela Davis quando ela foi presa e acusada de conspiração, sequestro e homicídio por uma suposta ligação com a tentativa de fuga de George Jackson de um tribunal em São Francisco - organizada pelo irmão dele, um adolescente altamente armado. 

Depois de dois meses de uma verdadeira caçada humana, ela foi presa, e a campanha “Free Angela Davis” (“Libertem Angela Davis”), que ganhou repercussão mundial e enorme peso na União Soviética, teve grande impacto sobre sua libertação, em 1972.

Segundo lia-se no Pravda, jornal oficial do governo soviético, em 1971, os jornalistas norte-americanos louvavam os "traidores" dissidentes soviéticos como heróis para distrair os norte-americanos e os observadores internacionais dos limites da liberdade nos EUA, “como evidenciado pela desastrosa perseguição judicial de Angela Davis”. 

“A imprensa soviética respondia à atenção que a imprensa [norte-americana] dava aos defensores dos direitos humanos na URSS não apenas difamando os últimos como renegados, mas também expressando solidariedade com os afro-americanos, que eram alvo de repressão nos EUA”, escreve Roman.

Assim, foram amplamente divulgados nos jornais soviéticos os casos de Davis e de outros ativistas negros, que chegavam a ser, por vezes, caracterizados até como “pogróms” - palavra que originalmente se referia à perseguição de judeus desde a Rússia Imperial.

 “[O ativista soviético Andrêi] Sákharov foi o único que descobri que não criticava Davis, que dizia 'temos que lutar por Angela Davis tanto quanto lutamos por nós mesmos'. Mas ele foi uma exceção, de acordo com minhas pesquisas. Ele pensava ser preciso lutar contra as perseguições políticas independentemente de onde elas acontecem. Mas os outros a ridicularizavam devido às denúncias da imprensa soviética de como ela era maltratada na prisão antes do julgamento e ao uso de Davis para provar a superioridade moral soviética. Os dissidentes tinham um problema com isso porque, basicamente, os líderes soviéticos estavam usando o caso de Davis para dizer ‘não estamos fazendo nada e Davis está sendo julgada por ser comunista’”, explica Roman.

Andrêi Sákharov

Como escreve a pesquisadora, Sákharov chegou a enviar um telegrama ao presidente norte-americano Richard Nixon, em dezembro de 1970, pedindo que ele assegurasse um julgamento justo a Davis.

Entretanto, sob o fogo cruzado de um mundo bipolar em que cada uma das duas grandes potências lutava com unhas e dentes pelo posto de bastião da democracia, fosse ela comunista ou capitalista, Aleksandr Soljenítsin chegou a afirmar, em discurso proferido em Nova York, em julho de 1975, a convite da união sindical Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO) e reproduzido pela Rádio Svobôda:

“Existe uma tal de Angela Davis. Não sei se ela é conhecida no seu país, mas no nosso, literalmente, o ano inteiro não escutamos nada que não fosse sobre Angela Davis. No mundo inteiro existe apenas Angela Davis, e ela sofre. Encheram nossas orelhas com essa Angela Davis. As criancinhas na escola foram obrigadas a assinar petições em defesa de Angela Davis. Meninos e meninas de 8, 9, 10 anos de idade. Então soltaram Angela Davis. Apesar de ela não ter cumprido uma pena pesada, ela veio se restabelecer nos resorts soviéticos. E alguns dissidentes soviéticos, mas, principalmente, não os soviéticos, mas um grupo de dissidentes tchecoslovacos chegou a ela e disse: camarada Angela Davis, você ficou presa, sabe como é humilhante a pessoa ser presa quando se considera inocente. Você tem uma autoridade tão grande, ajude nossos presos tchecoslovacos, defenda aqueles que a Tchecoslováquia persegue. Angela Davis respondeu: ‘é disso que eles precisam. Que fiquem presos!’”

Na realidade, porém, Davis nunca teria escrito nada sobre em resposta às críticas dos dissidentes soviéticos. “Acho que ela era esperta demais para fazer isto. Há quem diga que ela negou a existência de prisioneiros políticos soviéticos, mas nunca encontrei evidências concretas disto, quem fez isto foi uma amiga dela, Margaret Burnham. Davis apenas insistia que, sem a ajuda da União Soviética, ela teria sido morta ou passado o resto da vida na prisão”, arremata Roman.

LEIA TAMBÉM: 10 fatos sobre o dissidente Lev Gumilióv, filho de Anna Akhmátova

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Russia Beyond.

Mais reportagens e vídeos interessantes na nossa página no Facebook.
Leia mais

Este site utiliza cookies. Clique aqui para saber mais.

Aceitar cookies