Pierre Gilliard, o professor suíço dos Românov que sobreviveu à revolução de 1917

Alexei Danichev/Sputnik; Arquivo
Quais aventuras reserva a carreira de professor de francês? O destino de Pierre Gilliard é um caso à parte, principalmente nas história das contratações por famílias reais.

Pierre Gilliard deixou a Rússia em 1920, no convés de um navio norte-americano que chegava de de Vladivostók, no Extremo Oriente Russo. Cidadão suíço, ele tinha sido tutor dos filhos de Nikolai Românov, o príncipe Aleksêi e suas quatro irmãs grã-duquesas, e tinha uma sensação horrível.

“Eu mantenho lembranças profundas em minha alma dos eventos horríveis que testemunhei. Vi um dos maiores impérios do mundo caindo, junto com seus monarcas”, escreveu em seu diário.

Gilliard com sua aluna, a grã duquesa Olga.

Um comentário tão melancólico não é de surpreender, pois Gilliard havia passado os três anos anteriores na Sibéria, inicialmente, junto com seus alunos reais e, depois, separado deles. Ele sabia muito bem que eles tinham sido mortos, executados pelos bolcheviques. O fato de estar vivo era um milagre.

Um suíço na corte

Dezesseis anos antes, em 1904, as aventuras russas de Gilliard começavam de maneira muito mais positiva. Originalmente convidado para ensinar francês para a família do duque George de Leuchtenberg, primo dos Românov, Gilliard logo foi transferido para a família real: as filhas mais velhas de Nikolai 2° e com a Imperatriz Aleksandra, Olga e Tatiana, precisavam de um professor.

Gilliard e o tsarevitch Aleksêi.

Era uma prática bastante comum que se convidassem suíços para serem professores de francês na Rússia imperial, segundo a pesquisadora Anna Matvêieva. “Os emigrados da Suíça eram, na maioria, protestantes, e naquela época os russos preferiam esses aos católicos”, explica.

No total, havia cerca de 6.000 suíços vivendo na Rússia naquela época, segundo Matvêieva.

Ensinando a realeza

Gilliard com Olga e Tatiana no palácio Livadia, em 1911.

A partir de 1909, Gilliard passou a trabalhar diariamente com os Românov. Ele morava em São Petersburgo e visitava a residência real Tsárskoie Tselô cinco vezes por semana. Logo ele se tornou professor de todas as quatro filhas de Nikolai e Aleksandra, esforçando-se por fazer delas fluentes em francês. O trabalho não era fácil, como ele observou em suas memórias.

“Meus alunos aprendiam vagarosamente - a família real costumava fazer viagens à Crimeia por vários meses… Lamento que eles não tivessem uma governanta francesa, por isso, todas as vezes eles esqueciam muito", reclamava. Mas ele dizia que todas as grã-duquesas eram meninas inteligentes e educadas, sempre prontas para aprender.

As crianças da família real com os cabelos raspados durante epidemia de sarampo, em foto tirada por Gilliard.

Talvez o incidente mais engraçado que ele tenha mencionado em suas memórias tenha sido quando ele e Olga, a filha mais velha, liam “Les Misérables”, e ela se deparou com a palavra “merde” (do francês, “merda”) e perguntou o que ela significava. Gilliard enrubesceu - é claro que era inapropriado traduzir isto para uma jovem nobre. Então, ela teve que ir até o pai, Nikolai 2°, e ele disse que aquela era "uma palavra muito forte que não se devia repetir".

Amigo da família

Pouco a pouco, Gilliard tornou-se mais do que somente um professor. Ele fez amizade com os Românov, tanto que a Imperatriz confiou a ele o ensino do príncipe Aleksêi, o precioso herdeiro do trono que tinha hemofilia.

"Sem dúvida, essa doença... resultou na trágica solidão da família real, que ficou enterrada em sua vida privada e na preocupação insuportável que tinha que esconder de todos", lembrou o professor.

Os historiadores concordam com ele: sobrecarregados com a doença do filho, Nikolai e Aleksandra perdiam o controle do país.

Mas Gilliard adorava Aleksêi, assim como o resto da família. “Quando podia, ele gostava da vida, como todo menino alegre. Ele nunca se gabava de ser herdeiro real, era a última coisa em que ele pensava... Aleksêi era o centro da família, todas as esperanças e o amor se concentraram nele”, escreveu.

O professor suíço foi quem informou a Aleksêi que seu pai tinha abdicado, em março de 1917. O menino, segundo escreveu Gilliard, perguntou: "Quem vai governar a Rússia agora?". Porém, Aleksêi não se preocupava consigo próprio, mas com a família.

Tempos difíceis

Em 1917, quando o Império Russo caiu e os Românov não eram mais membros da realeza, Gilliard os seguiu nos horrores do encarceramento, primeiro em Tsárskoie Tselô, depois em Tobólsk (2.300 quilômetros a leste de Moscou).

“Gilliard ficou completamente isolado da Suíça. Ele escrevia cartas para seu pai e seu irmão sem saber se eles as leriam”, escreveu o biógrafo de Gilliard, Daniel Girardin.

O tsar Nikolai 2° cortando madeira com Gilliard em Tobolsk, em 1918.

No entanto, ele observa que o rigoroso Gilliard sempre lembrava seus parentes suíços (em meio a uma revolução!) para que preenchessem adequadamente seus documentos de tributação.

Assim como a família real, o professor levou a vida adiante, sempre tentando animar as crianças e, claro, ensiná-las. Ele continuou até mesmo a fotografá-las – é a ele que devemos muitas das últimas fotos de família dos Românov.

Em abril de 1918, um comissário bolchevique dividiu a família: Nikolai, Aleksandra e Maria foram transferidos para Ekaterimburgo (1.700 quilômetros a leste de Moscou), enquanto Gilliard deveria ficar com o restante das crianças.

Em maio, a família se reuniu em Ekaterimburgo, mas os bolcheviques deixaram Gilliard ir, de repente, assim como Sydney Gibbes (o professor de inglês) e Aleksandra Tegleva, futura mulher de Gilliard.

Deixando a Rússia para sempre

"Eu ainda não entendo porque os bolcheviques nos mantiveram vivos e nos libertaram”, escreveu o professor em suas memórias. Realmente, foi uma feliz coincidência: na cidade de Tiumên (2.600 quilômetros a leste de Moscou), ele, Tegleva e Gibbes quase foram baleados.

"Em russo fluente, ele afirmou [na frente dos bolcheviques] que estava protegido pelo direito internacional, chacoalhando seu passaporte suíço", escreve Girardin. De alguma forma, isso os impediu de atirar em Gilliard. Logo, o Exército Branco, antibolchevique, entrava em Tiumên, e libertava o francês e seus colegas.

O professor participou da Guerra Civil como oficial de inteligência e tradutor do Exército Branco. Junto com os brancos, ele entrou em Ekaterimburgo, mas ali descobriu que todos os Românov tinham sido fuzilados, em 17 de julho de 1918. Ele não conseguia acreditar que os bolcheviques matariam até as crianças - mas, infelizmente, era tudo verdade.

Entre 1918 e 1920, os bolcheviques retomaram o controle do país e, assim, Gilliard recuou com o Exército Branco, chegando até Vladivostók e, finalmente, de volta à Suíça.

Ele se casando com Tegleva e prometeu que, assim possível, eles voltariam para a Rússia. Mas isto nunca aconteceu. Ele morreu na Suíça, em 1962, aos 83 anos.

 

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