Como falar com o Kremlin pelo telefone?

Vladimir Putin

Vladimir Putin

Aleksêi Nikólski/Sputnik
Entrar em contato com Vladimir Putin por telefone ou receber uma chamada não atendida dele é extremamente improvável.

"Você está brincando comigo? Vladimir Putin tentou me ligar e você não me colocou na linha? Que diabos você estava pensando?", disse o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao repreender seu conselheiro de segurança nacional, Michael Flynn. A situação se deu durante uma reunião com o premiê britânico Boris Johnson - o primeiro encontro oficial de Trump com um líder estrangeiro, de acordo com o jornalista Peter Bergen, que é também autor de ‘Trump e seu General: o Custo do Caos’.

"Bem, senhor, sabe, você tem recebido muitas ligações e estamos tentando gerenciar com quem você fala", rebateu Flynn. “Que besteira é essa? Como é possível que Putin me ligue e você não tenha passado a ligação?"” disparou Trump de volta.

Donald Trump em conversa com Vladimir Putin diretamente da Casa Branca

Mais tarde, entretanto, o Kremlin comentou o episódio com certo grau de perplexidade: “Não. Tecnicamente, é impossível não atender uma ligação que foi combinada com antecedência". Em outras palavras: é impossível perder uma chamada que vem sendo organizada com dias - às vezes, semanas - de antecedência por toda uma equipe de funcionários.

Não existe chamada do nada

O incidente envolvendo Trump e Flynn não parece muito verossímil, se considerarmos como essas ligações oficiais são organizadas. Não se pode simplesmente discar o número do gabinete do presidente russo e esperar que ele atenda para bater papo, mesmo que as relações estejam de vento em popa. É tão improvável quanto um líder estrangeiro pegar o telefone e ouvir a voz de Putin do outro lado da linha.

Edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia na Praça Smolenskaya-Sennaya, em Moscou

“Normalmente, a proposta para 'realizar uma ligação’ é transferida por canais diplomáticos - por meio do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou de seu representante estrangeiro - a Embaixada [da Rússia]”, explica Vladímir Chevtchenko, que chefiou o departamento de protocolo do Kremlin ao longo de dez anos. Agendar uma ligação pode levar várias horas, senão semanas - tudo depende da situação e da urgência.

Fazer uma chamada direta e não agendada é um privilégio desfrutado por pessoas que se pode contar nos dedos (como o ministro da Defesa), que possuem um telefone antigo de disco para comunicações especiais - como o que o presidente russo tem no seu gabinete.

Ministro da Defesa russo Serguêi Choigu

E essa é apenas a ponta do iceberg da diplomacia telefônica.

Sem conversa de comadre

Ao propor uma ligação, as equipes de ambos os lados definem o horário da chamada e, o mais importante, o assunto. Isso geralmente envolve uma lista de questões e perguntas. Em seguida, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e outros departamentos fazem uma simulação de como a conversa pode transcorrer. Há, geralmente, várias versões de como uma resposta específica pode ser dada, dependendo do caráter evolutivo da conversa.

A chamada em si nunca é privada. O protocolo exige a presença de intérpretes, sem os quais nada seria possível, ainda que os interlocutores sejam fluentes nas línguas um do outro (com exceção, talvez, de países da CEI, em que normalmente se usa o russo).

Vladimir Putin

“Hoje, quase todo mundo tem alguns idiomas em seu currículo: Angela Merkel fala e entende russo, enquanto Vladimir Putin é fluente em alemão e tem um bom conhecimento de inglês. No entanto, ter um tête-à-tête no parque é uma coisa - outra é quando você está tendo uma conversa séria ao telefone. Muito depende da precisão: uma expressão mal escolhida, e a ambiguidade resultante pode ter consequências terríveis”, diz Chevtchenko.

Telefone de comunicações especiais

Nessa hora, o intérprete não está no Kremlin. “Eles estão ouvindo por fones de ouvido e traduzindo sucessivamente, frase por frase - não de forma síncrona. Dessa forma, há menos chance de cometer um erro ou ignorar uma nuance e se desviar involuntariamente o significado [do que está sendo dito]”, explica outra fonte da presidência russa.

Ligação ignorada não existe

Em 2018, o ex-presidente ucraniano Petro Porochenko tentou ligar para o Kremlin, após o incidente no Estreito de Kerch. Mas ele não conseguiu falar com ninguém: "Liguei [para Putin] para perguntar o que está acontecendo e ele não respondeu", reclamou Porochenko.

É claro que o líder ucraniano não estava tentando ligar para o Kremlin e ninguém atendia do outro lado da linha, ou simplesmente estivesse ignorando-o. “Não conseguiu falar”, no sentido diplomático, significa receber uma recusa educada para um pedido de conversa. Os motivos são diversos, variando de uma agenda lotada à incapacidade de contatar um líder em sua localização atual. Às vezes, o motivo não é explicado, e "a chamada, lamentavelmente, não pode ocorrer". Mas em muitos casos, a razão é política - o lado “indisponível” simplesmente não vê a possibilidade de discussão frutífera naquele momento.

Nikita Khruschov em seu gabinete

Especulações à parte, Washington e Moscou mantêm uma linha direta há 60 anos para o caso de situação de emergência. Ela foi introduzida pela primeira vez em 1963, após a crise dos mísseis de Cuba, quando os dois países estavam à beira de uma guerra nuclear. Desde então, tem sido usada para contatar rapidamente o outro lado e iniciar uma conversa entre seus dois líderes no caso de intensificação de tensões militares. No entanto, não é feita exatamente por telefone. Primeiro havia um teletipo, depois um fax e, hoje, usa-se um canal criptografado de computador, com sinal transmitido por satélite. A linha está constantemente aberta. Os operadores trabalham em turnos e estão sempre de prontidão para estabelecer uma conexão entre o Kremlin e a Casa Branca. Curiosamente, para manter o funcionamento regular do canal, ele é constantemente testado com a leitura de trechos de literatura clássica.

Barack Obama em contato telefônico com Vladimir Putin

Essa linha foi usada ativamente durante as guerras árabe-israelense em 1967 e 1973, bem como no conflito indo-paquistanês em 1971 e na incursão soviética no Afeganistão em 1979. A última vez notável em que o recurso foi utilizado se deu em outubro de 2016, quando Barack Obama entrou em contato com Moscou sobre a alegada “interferência russa nas eleições presidenciais dos Estados Unidos”.

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