Russos estão p... da vida porque apresentadora de TV entrevistou psicopata

Ksenia Sobtchak/youtube.com
Bem, ela não é só mais uma apresentadora: é Ksênia Sobtchák, que foi candidata a presidente nas últimas eleições russas e filha de um político influente que foi mentor de Pútin. Já a história do maníaco... você tem que clicar para ler!

Em setembro do ano 2000, no centro de Riazan (a 220 quilômetros de Moscou), duas adolescentes, Ekaterina Martinova, de 14 anos, e Elena Samokhina, de 17 anos, saíam de uma discoteca quando um carro se aproximou. Quem dirigia era um homem e com ele parecia haver um mais jovem (mais tarde, descobriu-se que a segunda pessoa era, na verdade, uma mulher de cabelo curto). O par convidou as moças para beber e dar um passeio de carro. Elas entraram no carro e, depois disso, ninguém as viu mais por quase quatro anos.

O motorista era Viktor Mokhov, de 50 anos, que estava construindo um bunker subterrâneo na cidade vizinha, Skopin, já havia três anos. O bunker foi a prisão de Ekaterina e Elena pelos três anos e sete meses seguintes. Depois de espancá-las, a cúmplice de Mokhov, Elena Badukina, foi embora e nunca mais voltou.

Mokhov manteve as meninas presas, estuprando-as mais de 900 vezes. Cada pequeno passo em falso delas resultava em punições: ficavam sem água e comida, ou com as luzes apagadas, ou eram obrigadas a respirar gás lacrimogêneo de uma lata. Elena engravidou três vezes: teve dois filhos no cativeiro e o terceiro nasceu morto, já depois que de ela deixar o bunker.

As meninas foram encontradas em 2004: Ekaterina conseguiu passar um bilhete para uma moça que tinha alugado um quarto na casa de Mokhov. O “Maníaco de Skopin”, como ficou conhecido, foi preso e condenado a 16 anos e 10 meses de prisão. Em março de 2021, ele foi solto e partiu direto da prisão para um programa de TV.

Em 22 de março, a apresentadora de TV e ex-candidata à presidência Ksênia Sobtchák divulgou a entrevista, intitulada “Conversa em liberdade”, em seu canal do YouTube. O vídeo com Mokhov teve três milhões de visualizações em apenas dois dias e dividiu a sociedade russa.

Maníaco diz que quer ‘ajudar’ vítima a ter outro filho

No início da entrevista, Mokhov disse se divertir com a atenção que lhe dão os jornalistas. “Expiei minha culpa, claro. O que fazer agora, sofrer o resto da vida? As meninas estão bem, estou feliz com isso”, disse ele. Quando Sobtchak lhe pergunta se ele se considera uma boa pessoa, Mokhov, agora com quase 70 anos, responde: "Bem, saí um pouco da linha, mas quem nunca?"

Ekaterina (esq.) e Sobtchák (dir.).

No vídeo, Sobtchak também conversou com Ekaterina Martinova, uma das vítimas que agora é detetive do departamento de polícia de Riazan, e as declarações de Mokhov são comentadas por um especialista independente que colabora com o FSB (órgão que sucedeu a KGB)

Mas a reportagem de Sobtchak não dá muitos detalhes sobre a investigação real, detendo-se em detalhes sobre o estupro e a vida sexual de Mokhov em geral: como ele escolhia quem estupraria, como as coagia a fazer sexo e em que posição, a que tipo de pornografia ele assiste e como foi sua primeira experiência sexual.

Mokhov responde em tom otimista, e diz querer ver as moças, pedir perdão e encontrar as duas crianças que Elena deu à luz. “Eu não estava bem financeiramente. Eu não podia matá-las, mas tinha medo de libertá-las. Tanto elas sofriam, como eu sofria.”

Em um ponto da entrevista, ele diz estar pronto para ajudar Elena a ter outro filho: “Ela deu à luz filhos meus e parou de ter bebês. Então... Não sei... Preciso me ocupar dela novamente."

‘Não se pode transformar psicopatas em estrelas de TV’

Muitos programas de TV na Rússia retratam psicopatas. Mas, desta vez, o público nas redes sociais se sentiu ultrajado.

“Ksênia Sobtchák fez um vídeo horrível e absolutamente antiético sobre o ‘Maníaco de Skopin’ com ele no papel principal... Tenho um pedido para todos os meus amigos e seguidores: NÃO ASSISTAM a este filme, não vamos dar visualizações para isso. Em vez disso, registrem uma reclamação contra o filme, para que o YouTube o bloqueie”, escreve a blogueiro Daria Tchaban.

A cofundadora da rede de assistência mútua “TiNieOdna” (“VocêNãoEstáSozinha”) Aliona Popova disse: “não se pode fazer de maníacos estrelas de TV, eles não deveriam ter lugar de fala e acesso à imprensa: isso leva à humanização do criminoso e de sua justificativa. Deve-se escrever pelo prisma da investigação, das vítimas e dos especialistas.”

A apresentadora de TV também foi criticada por integrar anúncios ao vídeo. “Ksênia Sobtchák ainda tem comerciais. Ela poderia tê-los evitado apenas nesse vídeo (ou ter evitado o filme em si), mas lá está. E ele tem anúncios de testes covid. Rápido, conveniente e sem impedimentos (isto é, sem quarentena)”, escreve a crítica de cinema Zinaída Prontchenko.

Imediatamente após o lançamento do vídeo, surgiram apelos para proibir legalmente criminosos violentos de frequentarem programas de TV e o Comitê de Investigação está planejando checar se a declaração de Mokhov sobre “ajudar [Elena] a conceber” um filho é uma ameaça.

Ele a contatou nas redes sociais - e isso é, sim, um problema

A apresentadora, por sua vez, acha que não fez nada de errado. Ainda antes de lançar o vídeo, ela escreveu no Instagram: “é nosso direito, como jornalistas, explorar as fronteiras do bem e do mal. Não se pode entender a natureza do mal se não pisarmos em seu território”.

Muitos defensores dos direitos humanos compartilham da opinião de que proibir a participação de maníacos em programas é ruim. “Dada a atitude uníssona em relação a Mokhov, a questão aqui é realmente de liberdade de expressão, e não é simples. Tudo depende de como as palavras do ‘Maníaco de Skopin’ são mostradas no material final”, diz Galina Arkhipova, diretora do Centro para a Proteção dos Direitos da Imprensa. Mostrar, por meio do trabalho jornalístico (mas não em formato de programa de entrevistas), o perigo que essas pessoas representam é uma boa ideia, ela diz.

Para a advogada Anna Rivina, diretora do centro “Não à violência”, em vez de uma proibição total, o Estado deveria desenvolver um sistema para a proteção das vítimas de violênci. Atualmente, a Rússia carece de mecanismos como uma simples ordem de restrição ou de uma ordem para cessar a comunicação com a vítima, inclusive nas redes sociais.

Existe um sistema de supervisão policial que obriga Mokhov a permanecer em seu endereço registrado. O não cumprimento dessa regra resultará em penalidades legais. No entanto, se as vítimas residirem no mesmo território, o único curso de ação restante é se mudarem. Imediatamente após a divulgação do vídeo, Mokhov "tornou-se amigo" de sua ex-vítima nas redes sociais — e, segundo ela, estava tentando entrar em contato com ela até mesmo a partir da colônia penal onde cumpria pena, usando um nome falso.

Esse problema não existiria se o sistema jurídico russo fosse diferente, acredita Rivina: “No sistema norte-americano um criminoso pode ser condenado a 200 sentenças de prisão perpétua, e aí a gente pensa: 'Que besteira, bastava uma.” Mas o caso de Ekaterina tem mais de 900 estupros, que de alguma jeito foram classificados como um. Se eles fossem cumulativos, este homem nunca seria libertado.”

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