Como os russos mudaram minha vida: Jonathan, do Reino Unido

Jonathan Campion; Getty Images
De reuniões de negócios em Moscou a encontros assustadores em Ulan-Ude, a vida deste inglês foi moldada pelas conversas com os russos.

Aprendi russo na universidade. Nunca gostei de estudar em livros didáticos, então, entre as aulas, absorvia a língua de outras maneiras. Isso aconteceu em 2003, antes das mídias sociais, YouTube e Amazon. Para ouvir o russo naquela época, eu tinha que encomendar pelo Ebay meus DVDs (e foram muitos: Notchnoi Dozor, Brat, Progulka etc.), que vinham de um armazém em Krasnoiarsk e levavam um mês cada para chegar deles. Foi assim que, entre os meus primeiros professores de russo, estiveram Konstantin Khabenski e Sergey Bodrov Jr.

No terceiro ano da faculdade (2005-2006), fui estudar na Rússia. Queria me distanciar o máximo possível da minha zona de conforto, por isso, em vez de Moscou ou São Petersburgo, escolhi uma escola de idiomas em Iaroslavl para o primeiro semestre e a Universidade Estatal de Tver para o segundo.

Depois de dois anos estudando na Inglaterra, eu achava que meu russo era fluente. Mas, tentando falar com as pessoas em Iaroslavl, logo percebi que não entendia quase nada. Os professores ali me fizeram falar com mais confiança e aumentei meu vocabulário ouvindo Iulia Savitcheva e Zemfira no meu walkman, enquanto eu flanava pelas ruas. Passei muito tempo vagando, porque em casa, Tamara Aleksándrovna, a formidável “bábuchka” (vovó) de quem aluguei um quarto, sempre me esperava, me dando para comer macarrão com tangerina em leite morno — ela foi a mesma que certa vez cortou minha toalha de banho em pedacinhos.

Carteirinha de estudante da Universidade Estatal de Tver.

Em Tver, morei em um “obchejítie” (alojamento universitário) que ficava em cima das salas de aula. Meus colegas eram da Finlândia. Líamos Gógol durante o dia e bebíamos vodca nas escadas com os amigos russos à noite.

Apresentação estudantil.

Ao longo de nove meses na Rússia, eu cresci. Na minha última noite, meu telefone e carteira foram roubados no trem de Tver para Moscou. Perdi o contato de todos que tinha conhecido na Rússia. Na delegacia, a “milítsia” (polícia) me pegou e passei a noite em patrulha com eles no banco de trás de seu carro. Quando finalmente me deixaram em Izmailovo, encontrei um hotel cinco estrelas e convenci a recepção a me deixar dormir no saguão. Foi quando puder ter certeza de que era fluente na língua.

Vinho argentino e mil perguntas

Jonathan em Yoshkar-Ola.

Quase dez anos se passaram até que eu colocasse meus pés na Rússia novamente. Em 2016, voltei para trabalhar como analista em uma agência de pesquisa de vinhos e destilados. Isso significava passar duas semanas em Moscou, a cada inverno, em reuniões com empresas de bebidas alcóolicas, para escrever relatórios sobre quais marcas de bebidas eram populares na Rússia. Por três anos, era eu quem calculava a quantidade de vodca que os russos bebem.

Eu evitava Moscou aos 20 anos de idade, mas fiquei obcecado pela cidade aos 30. A Rússia mudou muito entre 2006 e 2016 - o país se modernizou, se internacionalizou - mas as coisas que eu amava ainda estavam lá. As pessoas vivem suas vidas de acordo com o bom senso e a intuição e se tratam como adultos. Sempre senti que podia ser eu mesmo com as pessoas com quem convivia.

Templo Rinpoche Bagsha em Ulan-Ude.

Correndo por Moscou, dos arranha-céus luxuosos do bairro de Moscow City aos melancólicos distritos longe do centro, eu nunca soube quem iria encontrar - ou o que iria encontrar - quando chegasse. Nas reuniões, meus contatos me deram diferentes perspectivas sobre o estilo de vida na Rússia: as pessoas não bebem só vodca, é claro, mas também vinho argentino, tequila, vermute e tudo mais.

O que havia em comum em quase todos os russos que conheci, de jovens gerentes a chefões, era a generosidade que tinham com o tempo. Eu aparecia em seus escritórios com um bloco de notas e uma centena de perguntas e eles me davam todas as informações de que eu precisava, mesmo que a reunião se estendesse pelo resto do dia.

Mesmo em um ambiente profissional, os russos ainda podem ser completamente intraduzíveis. Após uma reunião com um importador de gim, na despedida, a senhora com quem me reunia deu-me uma laranja para levar comigo.

Supermercados lindos e estranhos nus

Jonathan em Ulan-Ude.

Eu queria ver cada metro quadrado da Rússia. Nos fins de semana, dava meu melhor para fazê-lo.

Nos cantos e repúblicas longínquas da Rússia, encontrei uma beleza que fez meu coração pular do peito. Na floresta de taiga do Ártico, na Península de Kola, e no dique de um rio em Arkhânguelsk, a neve e o silêncio eram fascinantes. Assim como a Praça Patriarchaia, em Iochkar-Ola, na república de Mari El (este é também, sem dúvida, o lugar mais estranho em que já estive: o prédio mais impressionante é um supermercado Spar). Na Buriácia, no leste da Sibéria, ouvi cânticos na catedral Odigitrievski, de Ulan-Ude, e cânticos budistas no templo Rinpoche Bagsha. As vozes russas estavam mais perto do céu do que da Terra.

Os russos que conheci nas províncias foram ainda mais generosos com seu tempo. Em Kandalakcha, na Península de Kola, uma artista me levou até sua casa para me mostrar seu estúdio. Em Mari El, uma senhora acenou para que eu entrasse em seu teatro de fantoches e insistiu que eu assistisse ao final de um show. Uma família da Buriátia, em Ulan-Ude, me viu tirando fotos e passou uma tarde inteira me fazendo um tour pela vizinhança. Também teve um casal nu e uma garrafa de Martini em um hotel em Arkhânguelsk, mas já estou ficando sem espaço neste relato para contar tudo...

Às vezes, meu coração pulava do peito por outros motivos. Em um bar ao estilo iurt (tipo de cabana local) em Ulan-Ude, uma garota veio até minha mesa, me contou histórias perturbadoras e me entregou um guardanapo no qual estava escrito: “Mir naiznanku” (“O mundo está do avesso”). Como em qualquer outro lugar, os momentos assustadores na Rússia renovam nossa coragem.

Espero que o destino me leve de volta à Rússia. Enquanto isso, tento viver do jeito que meus amigos russos me mostraram. Tento me manter guiado pelo bom senso e pela intuição. Dou às pessoas o máximo de tempo que posso. E ainda ouço Zemfira.

Jonathan Campion escreve sobre a Rússia em jonathancampion.com.

 

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