Um Brasil de terras russas

Cena do filme do projeto Redaktsia
Em menos de 10 dias, filme sobre latifundiários russos no Brasil arrebatou mais de 2 milhões de visualizações no YouTube. O detalhe é que esses agricultores se vestem e vivem como no século 19 (e até falam um russo “antigo”): são os starovéri, uma vertente da Igreja Ortodoxa Russa que segue preceitos anteriores ao cisma, mas cujos membros ainda divergem entre si.

Quando pensamos em russos no Brasil logo vêm à mente os “colonos” das regiões sul e sudeste. Mas eles também têm um belo quinhão de uma região anteriormente considerada “morta” e que hoje é um dos maiores celeiros agrícolas do mundo: a região Centro-Oeste, mais precisamente, os Estados de Mato Grosso e Goiás.

O projeto “Redáktsia”, canal no Youtube do famoso jornalista russo Aleksêi Pivovárov, viajou até o Centro-Oeste do Brasil, no primeiro semestre de 2020, para mostrar como vivem os “starovéri” (em português, “velhos crentes”) e quais os seus problemas e sonhos, entre eles o de retornar à pátria.

O filme está disponível, por enquanto, com legendas apenas em inglês (abaixo).

Nas áreas rurais dos municípios de Rio Verde (Goiás) e Primavera do Leste (Mato Grosso) cidades bastante afastadas das capitais, respectivamente, vivem hoje grupos de russos que se especializaram na agricultura e ajudaram a desenvolver ativamente técnicas que impulsionaram o segmento em uma região antigamente pouco explorada do Brasil.

Além disso, esses russos carregam algo mais em suas vidas: são descendentes dos chamados “starovéri” (“velhos crentes”), ou seja, pessoas que conservam, no calor escaldante do Brasil central, a fé e as imagens de uma Rússia que deixou de existir há mais de 100 anos, desde a Revolução de 1917.

Quem são os velhos crentes?

Um dos capítulos mais pungentes da história da Igreja Ortodoxa Russa foi a cisão, em 1666, dos “starovéri” com a Igreja Ortodoxa Russa oficial. Os “velhos crentes” eram contrários às alterações no texto sagrado e nas práticas litúrgicas propostas durante o período do Patriarca Níkon, pouco antes do reinado de Pedro, o Grande, e das grandes mudanças provocadas pelo processo de europeização do Império Russo.

Para manterem seus costumes e práticas religiosas, anteriores à reforma, e principalmente após a Revolução de 1917, os “starovéri” se isolaram em regiões afastadas dos grandes centros da Rússia. Posteriormente, deixaram o país e prosperaram trabalhando novas terras na China. Após a Segunda Guerra e a ascensão comunista no país asiático, porém, se viram obrigados a fugir dali, e muitos tiveram como destino final países da América do sul, entre eles o Brasil, além de Canadá e Estados Unidos.

Na América do Sul, os “starovéri”conservaram seus costumes e um idioma russo congelado no tempo, que hoje não se fala na Rússia e que não foi atualizado por todas as mudanças ocorridas nas últimas décadas.

A corrida por terras agrícolas

Esses russos começaram a povoar alguns pontos do Centro-Oeste do Brasil por volta dos anos 1970, com a compra de pequenas áreas de terra para cultivo. Inicialmente, essas terras eram consideradas sem nenhuma utilidade tinham preços risivelmente baixos. Mas eles foram adquirindo novas áreas, equipamentos e aprimorando a produção da soja e do milho, criando como diz um dos entrevistados no filme, sua própria “indústria a céu aberto”. Hoje, é claro, ela se ampliou enormemente e abrange também a pecuária bovina.

Como o filme mostra, a comunidade russa do Centro-Oeste do Brasil aumenta sem parar, e conta hoje com cerca de mil pessoas. Isso é resultado das grandes famílias russas ali instaladas, com muitos filhos e netos. Mas a realidade latino-americana é muito diferente daquela na Rússia, onde os problemas de crescimento populacional se arrastam há décadas, mesmo com programas federais intensos de incentivo à natalidade – um dos motivos que tem levado o governo a oferecer incentivos ao retorno dos “velhos crentes” ao país.  

No Brasil, os filhos, principalmente do sexo masculino, acabam assumindo as atividades dos pais no processo de expansão das áreas cultivadas. Assim, apesar do acesso à internet e aos jogos eletrônicos, os jovens acabam tendo pouco tempo livre.

Em casa e na comunidade ainda se conservam os velhos hábitos russos antigos, um deles, pelo menos, chocante: a mulher que se ajoelha diante do marido na cerimônia de casamento.

Mas a influência da língua portuguesa e a distância geográfica e temporal faz as gerações nascidas e criadas no Brasil questionarem se são brasileiras ou russas. A busca por essa resposta faz com que vários integrantes dos “velhos crentes” busquem, na atualidade, a repatriação russa, e o governo da Rússia, em troca, tem oferecido terras como subsídios para o retorno deles.

Patriota russo ou patriota brasileiro?

Cada ida à Rússia de integrantes da comunidade é uma oportunidade de um resgate, de buscar as partes que faltam nesse quebra-cabeça de suas vidas ou o início de uma nova história.

Para muitos deles, a ideia é voltar em definitivo, enxergando uma real oportunidade de prosperar, tanto quanto no Brasil, em regiões russas próximas da China. Para eles, é possível utilizar as técnicas agrícolas aplicadas no Brasil, apesar das diferenças climáticas e da cultura de plantio.

Muitos dos russos entrevistados durante a gravação do documentário acreditam que o idioma, a fé e a cultura do país de seus antepassados só se mantiveram vivos por conta do isolamento dos grupos russos em suas aldeias e comunidades, apesar de muitos desses russos serem brasileiros.

Explicando melhor: eles nasceram e cresceram no Brasil, mas viveram uma vida como estrangeiros, cada um em seu pequeno “império”, como brinca um dos entrevistados. Mas “império” (e aqui ele usa o termo “tsarstvo”, algo como “tsariado”) não se refere tanto a dinheiro, como a isolamento.

Apesar de seu ímpeto de viver à parte da geografia e do tempo, alguns dos posicionamentos desses “velhos crentes” são curiosos. Por exemplo, o jornalista pergunta a todos eles, igualmente, se são patriotas russos ou brasileiros, e as respostas divergem. Em outro momento, Pivovárov justifica a preferência por Bolsonaro do mais rico latifundiário entre eles, envolvido com a política local e com o órgão sindical: seria difícil imaginar “kulak” (os fazendeiros ricos pré-Revolução russa) alinhado a movimentos de esquerda após a perseguição bolchevique e, depois, chinesa.

Uma questão fica no ar com o final do filme: com o retorno de parte desses grupos para a Rússia, não continuariam eles a se sentirem estrangeiros, só que, agora, dentro da Rússia? No momento, há muito mais perguntas do que respostas e muitos outros capítulos a serem escritos sobre essa riquíssima história.

 

Edelcio Americo é doutor em Letras pelo Programa de Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo, tradutor, intérprete e professor de língua russa.

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