10 moradores de São Petersburgo dão dicas de como sobreviver ao autoisolamento

Ruslan Shamukov
“Não saia da sala, não cometa erros.” Esta frase do poeta russo Joseph Brodsky nunca fez tanto sentido quanto nos dias de hoje.

A região de São Petersburgo, incluindo a cidade homônima, estão em quarentena total desde 28 de março. Museus, teatros, zoológicos e outros espaços públicos permanecem fechados. Até os parques entraram no jogo. Pela primeira vez desde o famigerado Cerco a Leningrado, a capital cultural da Rússia se transforma em uma paisagem urbana deserta e misteriosamente silenciosa. O Russia Beyondconversou pela internet com alguns petersburgueses e descobriu suas estratégias para lidar com o autoisolamento total – e superar a preguiça – em meio ao novo coronavírus.

1/ Andrêi Batalov, 16 anos, estudante do Ensino Médio

Meu humor tem se mantido praticamente o mesmo de quando estou de férias. Embora haja menos força e motivação para realmente fazer qualquer coisa.

A semana inteira, desde que voltei de viagem de estudos no Reino Unido, fiquei em casa; às vezes, fazendo um treino leve, mas nada muito produtivo: assistindo a filmes, jogando videogame, ou conversando com amigos pela internet.

Os estudos a distância começarão em breve, então, comecei a me preparar para as aulas. Em suma, é horrível ficar de quarentena, difícil se forçar a fazer qualquer coisa, você se cansa rápido e não faz nada, anseia por alguma comunicação cara a cara.

2/ Evguênia Zarukina, 24, dona do bar ‘El Capitas’ (classificada em 27º lugar entre os melhores bares do mundo em 2019)

Não adianta ficar de drama pela enésima vez e focar em coisas negativas. Sim, é provável que o setor de hospitalidade sofra grandes perdas e nem todos possam abrir suas portas novamente. O importante é que agora estamos nos esforçando para preservar a equipe e impedir que todos os funcionários sejam mandados embora. Todo mundo está sendo provido financeiramente, o que é definitivamente suficiente para aluguel e despesas pessoais básicas.

Atualmente, estamos trabalhando em cinco direções: entrega de comida mexicana; transmissões ao vivo nas quais falamos sobre como preparar nossos drinques clássicos em casa; uma “linha direta” pela qual as pessoas nos enviam ingredientes no Instagram e respondemos com uma receita de coquetel que eles possam experimentar; comunicação on-line e bate-papos com amigos e colegas do bar; e seminários on-line com cursos a longa distância de barman para os interessados ​​no setor.

3/ Svetlana Vaniulina, 31, desempregada

Perdi meu emprego no setor de turismo na semana passada. Não dá para enviar pessoas para a Costa Rica e o México no momento. Os consulados estão fechados e meus pedidos de visto nos EUA não estão sendo procurados no momento.

Neste mês, deixei de ser uma agente de reservas para me tonar uma especialista em reembolsos. Uma onda enorme chegou e levou tudo consigo. É necessário bolar uma nova estratégia. Como? Eu não sei. O que vou fazer daqui em diante? Estou procurando a resposta para essa pergunta. Até lá, desejo a todos que estão fora de sua zona de conforto que enxerguem a energia e o potencial do crescimento pessoal.

Tudo vai ficar bem (mas não tenho certeza).

4/ Eldar Kabirov, 36, coproprietário da pizzaria ‘22 Centimeters’ e do restaurante ‘Red. Steak & Wine’

Ainda sou jovem, mas estou nesse setor desde 2000 e digo que nunca vi nada assim. Todos nós estamos de “férias” – TODOS nós, não só os restaurantes, a indústria toda.

Voltaremos em 30 de abril, não tenho certeza, mas retornaremos. Voltaremos para que nossos funcionários possam trabalhar novamente, para que os fogões e panelas sejam acionados e possamos continuar trazendo sorrisos a seus rostos com nosso serviço e comida. Convido todo mundo para um drinque, quando tudo isso acabar – vamos tomar um drinque e rir, e continuar vivendo normalmente.

5/ Dmítri Ganopolski, 37, guia e fotógrafo

Todo dia, minhas ideias sobre o que está acontecendo mudam drasticamente: presságios apocalípticos são substituídos por planos de dominar o mundo. Olhando para isso objetivamente, é difícil chamar de qualquer coisa que não seja catástrofe. No setor de turismo sobreviverão apenas os mais fortes e habilidosos, pois não haverá comércio por um bom tempo pela frente. Mas fazer qualquer previsão no momento é impossível – seja lá o que pensarmos, situação se desenvolverá sem previsibilidade.

Talvez todos devêssemos pensar em migrar nosso trabalho para on-line, ou talvez, algumas semanas em frente à tela do computador em casa levem as pessoas a subir pelas paredes. Sugiro que todos se instruam, enquanto tiverem tempo, e iniciem um diário. Será uma contribuição positiva e duradoura para sua vida.

6/ Grigôri Sverdlin, 41, diretor da entidade para pessoas sem-teto ‘Notchlejka’

Suspendemos as operações em nossa agência de consultoria jurídica desde 17 de março, bem como o serviço de lavanderia – ambos geralmente recebem de 30 a 60 pessoas por dia.

Outros projetos, incluindo três centros de reabilitação, duas estações de calefação e um ônibus noturno, continuam funcionando. Cerca de 300 pessoas continuam a receber assistência diária. Precauções adicionais foram implementadas em todos os projetos em andamento, juntamente com máscaras e desinfetantes.

Emitimos um folheto sobre o novo coronavírus – o que é importante, considerando que a maioria das pessoas sem-teto não tem acesso à informação.

7/ Dmítri Grózni, 49 anos, jornalista e editor-chefe no MarketMedia

O mantra “é melhor não entrar em pânico, mas agir” tornou-se um slogan do nosso projeto de caridade #поддерживрача (#apoieummédico). Buscamos hospitais que precisam de ajuda e empresas dispostas a fornecer suporte. Por que uma mídia orientada a negócios, como a nossa, assume algo tão diferente de uma hora para a outra? Porque somos amigos de muitos empreendedores que trabalham com vendas, manufatura e hospitalidade, e eles são nossos amigos!

Se no começo focávamos em produtos assados, biscoitos, salgados, zefir, doces e milk-shakes, logo depois essa lista cresceu para incluir uniformes especiais de equipe médica, óculos de proteção e respiradores que não são vistos em nenhum lugar, além de água e carregadores portáteis. Várias empresas começaram a servir aos médicos almoços de grátis – afinal, eles sequer têm para onde ir comer hoje, está tudo fechado.

O número de apoiadores do #поддерживрача já cresceu para mais de 20. Odeio a ideia de elogios, mas estou sinceramente feliz por haver tantas pessoas gentis por aí.

8/ Vitáli Osiptchuk, 52, psicoterapeuta

É claro que temos percebido um aumento de ansiedade nos clientes. Antes de tudo, as pessoas estão tentando se autoisolar, o que significa que não estão nos procurando com tanta frequência, isso já acontece há uma semana e meia. As pessoas estão mudando para a comunicação on-line e, ontem, por exemplo, duas sessões realizadas dessa maneira foram dedicadas ao que está ocorrendo no momento.

Minha tarefa é ajudar o indivíduo a reconhecer esses pensamentos, colocá-los em perspectiva. Ao simplesmente falar em voz alta, a pessoa tira um peso do ombro, uma tensão. Depois disso, nós podemos começar a avançar em direção a ideias mais racionais, a discutir abordagens baseadas em ações.

9/ Silvia Ruth Fernandez Caria, 58, expatriada italiana, nascida na Argentina

Vivemos não muito longe da Academia Stieglitz na rua Mokhovaya. As ruas que costumavam ficar cheias agora estão desertas. Minha família, de três pessoas, está isolada e saio de casa a cada três dias para comprar itens essenciais no mercado.

Em casa, cozinho, escrevo, faço pintura a óleo, arrumo o guarda-roupas, faço tarefas domésticas, pinto porcelana, estudo, organizo arquivos, me distraio no Facebook e WhatsApp, converso com meus amigos e familiares espalhados pelo mundo, não há tempo para sentir tédio. Confesso que estou gostando bastante da situação, porque tenho uma longa lista de coisas e projetos para fazer por conta própria.

10/ Tamara Mirochnitchenko, 62, funcionária em um museu escolar na região de Leningrado

Nosso museu de estudos regionais não se resume apenas ao passado, à história, mas também ao trabalho com crianças em idade escolar. Pegamos o diário de um veterano de guerra que passou pela Grande Guerra Patriótica na divisão de artilharia de Gatchina (nosso distrito) e distribuímos cópias de suas páginas aos alunos mais velhos para reimpressão. Gostaríamos de fazer uma versão eletrônica a tempo do 75º aniversário da vitória (soviética sobre a Alemanha nazista, na 2ª guerra Mundial).

A quarentena, é claro, nos desorganizou um pouco. Porém, continuamos a trabalhar com materiais de forma independente e on-line – com todas as verificações, checagens, e distribuindo lições de casa para nossos jovens.

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