Como a Igreja Ortodoxa Russa está respondendo ao coronavírus?

Sergey Pyatakov/Sputnik
Igreja emitiu um conjunto de regras para impedir a propagação do coronavírus, mas nem todos estão dispostos a segui-las.

Em meados de março, quando a Rússia já possuía mais de 50 casos confirmados de coronavírus, dezenas de pessoas se aglomeraram em uma pequena igreja de madeira no norte da capital, onde um ícone milagroso havia sido trazido da região de Briansk pela primeira vez. Fiéis passaram horas na fila esperando sua vez de beijar o ícone.

Um assessor do bispo da diocese de Jeleznogorsk na Metrópole de Kursk, Iúri Chichkov, garantiu que o ícone ajudava a curar câncer e infertilidade. E uma das paroquianas, Liudmila, afirmou com confiança em comentários para a imprensa: “O coronavírus será transmitido entre os beijos. De um modo geral, não se pode contrair nada em uma igreja, muito menos por um ícone como esse”.

Dois dias depois, em 16 de março, o prefeito de Moscou emitiu um decreto proibindo todos os eventos de massa envolvendo mais de 50 pessoas. Medidas semelhantes foram introduzidas em São Petersburgo. Em questão de dias, o número de casos de covid-19 no país cresceu para mais de 300 pessoas. Como essas novas circunstâncias afetaram a Igreja Ortodoxa Russa e o que mudou nas cerimônias religiosas na Rússia?

Relíquias e álcool gel

No último dia 10 de março, uma relíquia de João Batista foi levada para a Catedral de Kazan, em São Petersburgo. Ao longo de uma semana, cerca de 70.000 pessoas beijaram o objeto. Havia dispensadores com antissépticos e desinfetantes instalados na entrada da catedral, e um voluntário limpava, vez ou outra, a parte superior da estrutura onde a relíquia era mantida. Ninguém se absteve de beijar a caixa protetora, embora alguns o tenham feito com suas máscaras.

Os ajustes na maneira como a veneração da relíquia foi conduzida em São Petersburgo foram introduzidos graças às novas regras que regulam os serviços da Igreja Ortodoxa, aprovadas pelo Patriarca de Moscou e Toda a Rússia Kirill.

O documento propõe:

  • realizar apenas batismos individuais, desinfetando a fonte entre um batismo e outro;
  • para unção, usar um cotonete e um lenço de papel;
  • desinfetar regularmente ícones que paroquianos tocam ou beijam;
  • depois de cada pessoa receber comunhão, limpar a colher com um “pano embebido em álcool e depois mergulhá-lo em água, que será então descartada”.

Além disso, os paroquianos podem mais não beijar a mão do sacerdote ou o crucifixo e a taça durante a comunhão.

Os padres devem desinfetar as mãos a cada duas horas, abrir regularmente as janelas das igrejas e medir a própria temperatura no início de cada dia de trabalho.

Por fim, os sacerdotes devem “explicar à congregação que o cumprimento dos requisitos e restrições prescritos deve se respeitado conforme as palavras da Escritura Sagrada: “Não tentarás o Senhor, teu Deus.”

Não apenas a Igreja Ortodoxa

O prelado da Arquidiocese da Mãe de Deus em Moscou, Dom Pavel (Paolo) Pezzi, também emitiu recomendações aos padres sobre como impedir a propagação do vírus.

De acordo com o comunicado, os templos católicos devem receber antissépticos e, ao rezar a missa, se os dedos de um padre tocarem acidentalmente os lábios de uma pessoa em comunhão, o sacerdote “deve imediatamente parar o sacramento e lavar as mãos”. Os sacerdotes devem relembrar os paroquianos sobre hábitos de higiene pessoal e que a comunhão também pode ser realizada fora da missa. As recomendações permanecerão em vigor até 3 de abril de 2020.

Sacerdotes nos mosteiros budistas de toda a Rússia acrescentam orações a suas cerimônias pedindo proteção contra o coronavírus, e os templos serão higienizados, além de fumigados com um incenso budista antisséptico, com mais frequência.

Já o Conselho Espiritual dos Muçulmanos da Rússia, recomendou o cancelamento de todas as orações coletivas diárias e de sexta-feira nas mesquitas de Moscou; em vez disso, ordenou aos imãs de plantão que conduzam orações diárias em solidão. Também foi recomendado instalar dispensadores com antissépticos em mesquitas e medir a temperatura de todos os visitantes com o uso de termômetros sem contato. Além disso, as mesquitas devem passar por uma limpeza adicional com desinfetantes.

Contra as regras, pela fé

Apesar das novas instruções, alguns fiéis preferem combater o coronavírus com seus próprios métodos. Em 18 de março, o chefe do distrito de Kirovski, na região de Leningrado, Andrêi Gardachnikov, disse que “não aguentava mais” e organizaria uma procissão da cruz. E assim compartilhou a notícia no Instagram.

Poucas horas depois, os comentários sob o anúncio da procissão religiosa foram desativados e, no dia seguinte, Gardachnikov veio a público se explicar.

“Uma procissão da cruz não é apenas uma forma de oração coletiva, mas também um poderoso remédio espiritual ao qual nossos ancestrais devotos recorriam tanto durante as festividades quanto durante epidemias e pestilências. Uma procissão da cruz consagra uma área pela qual ela passa, o próprio ar e, é claro, as pessoas que dela participam. Porque onde há Cristo, não pode haver contaminação”, disse.

A tradicional procissão da Páscoa também será realizada em Volgogrado.

De acordo com o metropolitano Teodoro de Volgogrado e Kamichin, é necessário realizar procissões religiosas durante a pandemia de coronavírus. “Conhecemos vários exemplos de doenças infecciosas que foram interrompidas por uma procissão carregando um ícone da Mãe de Deus. Por isso, uma procissão da cruz deve ser vista não como apenas uma aglomeração de pessoas, mas como uma limpeza”, diz.

Procissões diárias também serão realizadas no centro de Moscou, anunciou no Instagram o líder do mosteiro Vysokopetrovsky, o hegúmeno Piotr (Ieremeiev).

No entanto, o padre da Igreja Ortodoxa Russa Andrêi Kuraiev pediu aos fiéis que se abstenham de participar de procissões religiosas.

“Em algumas regiões, esses eventos já foram cancelados porque essas reuniões de massa representam certo perigo. (...) Mesmo que a procissão ocorra, ela será veiculada na TV, e muitas pessoas dirão: ‘Por que você está colocando as pessoas em risco?’ É melhor descartar esses eventos e dar um exemplo com a oração”, disse.

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