Putin, o homem da banda B e do telefone vermelho (ups, amarelo!)

Em 19 anos no poder, o presidente russo passou longe de ser ouvido e assistido atrás das portas ou alvo de brincadeiras. O ex-oficial da KGB continua a ser um enigma muito bem criptografado.

O presidente russo Vladimir Putin não usa smartphones nem aplicativos de troca de mensagens e raramente surfa na internet. Até alguns anos atrás, os russos duvidavam que ele soubesse até mesmo o que é o YouTube. Isto porque foi somente em 2015 que o presidente afirmou publicamente pela primeira algo sobre acessar a internet.

Em 2017, quando o WikiLeaks publicou o maior vazamento de documentos da CIA sobre espionagem cibernética, o relatório continha cinco servidores secretos de escuta sob o codinome “PocketPutin”.

Pelo menos hipoteticamente, eles teriam a capacidade de rastrear os dispositivos usados ​​pelo presidente russo, como computadores ou telefones. Se eles existissem. Tudo o que o Kremlin comentou sobre o assunto na época foi: "Vamos investigar isso".

Moscou também acrescentou que Washington não escondia suas interceptações de autoridades russas, de modo que o WikiLeaks não precisava se empenhar tanto. Só que se tratava de Putin, e para que os serviços de inteligência estrangeiros o alcancem, é preciso se aproximar muito dele.

Smartphones são coisa de exibicionista

“Ter um smartphone é exibicionismo voluntário, ter total transparência. Quando você pega um smartphone, faz, conscientemente, um tique em um quadrado em que permite que tudo se torne público”, disse o porta-voz de Putin, Dmítri Peskov, recentemente.

Putin fala ao telefone com criança doente.

Na opinião dele, ao que parece, o presidente não deveria ter um smartphone, “especialmente em um país como a Rússia”. Os jornalistas perguntam sobre as relações do presidente com os smartphones quase todos os anos. A resposta é sempre a mesma.

Putin é menos metafórico sobre o assunto. “Se eu tivesse um celular, ele nunca pararia de tocar. Além disso, se me ligam em casa eu nunca atendo o telefone”, disse ainsa em 2005, no início de seu segundo mandato. Quase nada mudou desde então – exceto, talvez, pelo fato de que agora seja ainda mais difícil contatá-lo.

Putin criptografado

Esta é a mesa de trabalho de Vladímir Putin.

Existe uma regra que não tem exceção: em assuntos importantes como chefe de Estado, Putin fala apenas por meio de uma linha governamental segura (aquele telefone amarelo da velha guarda que fica sobre a mesa).

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Ele não pode ser grampeado porque o sinal de voz é digitalizado e codificado com uma chave criptográfica complexa. Para decifrá-la, seria preciso cerca de 18 meses. Isso sem contar que grampeá-lo seria inútil, já que, durante uma conversa, a chave é alterada muitas vezes em intervalos aleatórios.

Putin em inspeção de helicóptero por Sôtchi, cidade que recebeu Olimpíadas de inverno em 2014.

Tudo isto é feito por especialistas russos em segurança da informação. Esta é, talvez, a principal razão pela qual, por exemplo, a alemã Angela Merkel, com seus equipamentos e softwares norte-americanos, foi espionada, enquanto Putin (ainda) não.

Mas os especialistas em comunicação do Kremlin ainda estão à procura de uma opção de segurança que seja verdadeiramente impossível de quebrar virtualmente – senão fisicamente. Em 2015, foram alocados 230 milhões de rublos (quase US$ 3,5 milhões) do orçamento público para o desenvolvimento de uma linha de comunicação quântica segura e outros projetos quânticos.

Agora, a tecnologia já está pronta. A informação, neste sistema, é transmitida via fótons, e para detectá-los é preciso alterar seu estado. É impossível fazer isto sem ser notado, segundo as leis da natureza.

Telefonando para o presidente

Você se lembra de uma célebre foto de Donald Trump na Casa Branca falando ao telefone com Putin? Perto dele, havia uma multidão de assessores e conselheiros. Mas, no Kremlin, não acontece nada parecido.

Vez ou outra há um assessor perto de Putin para assuntos internacionais ou, muito raramente, um ministro - se a discussão for sobre, por exemplo, petróleo e gás. Em algum lugar do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, há um intérprete profissional conectado à mesma linha. E pronto.

Os pedidos de chamadas telefônicas passam primeiro pelos canais diplomáticos do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou pela administração do presidente. Somente uns poucos (quem tem o mesmo telefone amarelo especial, como o ministro da Defesa) podem ligar quase diretamente a Putin. Mas quem atende inicialmente é um secretário ou ajudante.

Putin pode ligar (por uma conexão especial, é claro) de qualquer lugar que ele queira: do avião, do carro, do submarino, da sua querida floresta em Tiva. Em viagens ao exterior, frequentemente o acompanha um avião inteiro cheio de equipamentos especiais de comunicação.

Mesmo ao conversar com um menino doente cujo sonho era ver o avião do presidente por dentro, Putin usou uma linha segura.

Em sua mesa de trabalho há também um painel de comando com botões com os sobrenomes dos subordinados, principalmente ministros e governadores.

Os mais famosos russos a pregar peças em chefes de Estado e celebridades, Vovan e Lexus, em cuja rede já caíram o presidente turco, Recep Erdogan, o ucraniano, Petro Poroshenko, e Elton John, dizem que, por enquanto, não têm motivos para brincar com Putin.

Além do mais, a administração do governo Putin conhece a dupla muito bem - assim como o próprio Putin. Mas eles dizem acreditar sinceramente que “existe um jeito certo que, talvez funcionasse” para fazê-lo. Então, boa sorte, dupla – vocês vão precisar!

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