A influência da Copa e de Trump: O que os mexicanos pensam agora sobre a Rússia?

Vladimir Astapovich/Sputnik
Até recentemente, os mexicanos faziam pouca ideia de como é a Rússia contemporânea, já que o Tio Sam continuava influenciando fortemente a opinião local. No entanto, a Copa do Mundo e as políticas degradantes dos EUA fizeram mais pelas relações entre México e Rússia do que anos de diplomacia.

“Você é da Russia? O que você está fazendo aqui?”, diz um jovem motorista do Uber com cara de espanto. “Todos os meus amigos estão lá para a Copa do Mundo.”

O Uber é um serviço novo na Cidade do México, mas já é a maneira mais barata e segura de se locomover. Apesar de alguns problemas para se conectar à rede Wi-Fi no aeroporto, o repórter do Russia Beyondenfim conseguiu encontrar um carro.

O motorista era um jovem curioso chamado Carlos e, para sorte do correspondente, ele falava inglês fluentemente e, em poucos minutos, contou sua história de vida. 

“Agora eu sei que eles podem sorrir”

Carlos é casado, tem dois filhos e mora em uma das áreas com maior índice de criminalidade na cidade. “Pessoas ruins não se aproximam porque crescemos juntas”, explica. Segundo ele, porém, os russos costumavam assustá-lo mais do que seus próprios vizinhos perigosos. Por que? “Pela seriedade.”

O país eslavo, no entanto, teve impacto na cultura local: mais de 100 ruas da Cidade do México receberam o nome de escritores, compositores, poetas e cosmonautas, bem como regiões como a Sibéria e até Trótski, o revolucionário que foi morto ali.

Mas, como a maioria dos mexicanos comuns, Carlos tem uma opinião sobre os russos que foi formada por filmes de Hollywood, onde caras grandes e furiosos, com enormes mandíbulas, estão se matando na neve. De acordo com o retrato exposto pela imprensa americana, a Rússia sempre pareceu um país de desgraça e melancolia. 

Torcedores mexicanos e peruanos no centro de Moscou

“Eu só mudei de ideia depois que meus amigos foram para a Copa do Mundo”, diz Carlos, animadamente. “Todo dia eles postavam fotos e vídeos com os russos, e eles não chegam nem perto do que vi nos filmes. Agora eu sei que eles podem sorrir.”

Calor em temperaturas distintas

Fato é que existem fortes diferenças culturais entre as duas nações, separadas por mais de 10 mil quilômetros.

“Não somos aparentemente tão amigáveis ​​quanto os mexicanos, mas somos tão calorosos quanto eles. Isso não fica claro de imediato” diz Elena, dona de um pequeno restaurante que serve saladas e panquecas russas na prestigiada área de Condesa.

Muitos anos atrás, ela se apaixonou por um homem de origem maia e se mudou para a Cidade do México, mas seu marido ainda continua intrigado com sua maneira russa de se comunicar. “Ele acha que ando tendo discussões com meus amigos porque não nos beijamos ou nos abraçamos quando nos encontramos”, diz.

Ainda segundo Elena, houve uma campanha antirrussa nas redes sociais no México antes da Copa do Mundo. “As pessoas tinham a impressão de que alguém iria apunhalá-las assim que elas saíssem do avião”, conta Elena, enquanto prepara blíni (panquecas ao estilo russo) com caviar vermelho. “Mas os mexicanos não têm medo de nada. Eles adoram futebol e iriam a qualquer lugar.”

EUA, um destino do passado

O repórter do Russia Beyond ficou hospedado em Juarez, uma das áreas mais turísticas da Cidade do México, onde fica a embaixada dos EUA. Por sinal, é fácil identifica-la por causa da multidão de pessoas que esperam do lado de fora.

Durante anos, os EUA foram um dos destinos mais desejáveis ​​para os mexicanos. Embora os trabalhadores migrantes ainda queiram ir para os Estados Unidos, o estado de espírito dos jovens e pessoas com alto grau de instrução está mudando.

Manhã ensolarada em Juarez, na Cidade do México

Mariana, aspirante a artista e curadora de uma galeria de arte em Juarez, obteve seu mestrado na Universidade Columbia. Agora, ela planeja voltar para Nova York, mas apenas para “contar uma história” sob a perspectiva mexicana. Para Mariana, a relação entre os países se deteriorou sob Trump, e ela reflete sobre isso em sua arte.

Já Juan, filósofo e escritor que vive no bairro de Coyacán, não pretende mais viajar para os Estados Unidos. “Costumava visitar meu amigo em Nova York, mas quando tive que escolher universidades para continuar meus estudos, optei pelo Reino Unido e depois pelo Canadá. Eu prefiro países com orientação mais voltada para o social.”

Dependência pero no mucho

Pelo menos mentalmente, os mexicanos se sentem mais independentes. É claro que isso não significa que, ao deixar de amar os EUA, o México se apressará em um relacionamento mais próximo com a Rússia. Os mexicanos, no entanto, estão agora pensando além dos EUA e abertos a explorar oportunidades em outros países.

“Nós costumávamos viver de petróleo e remessas, isto é, o dinheiro que os mexicanos estavam enviando para casa dos EUA; mas agora nosso setor de tecnologia está crescendo, e a indústria de alimentos, melhorando”, diz Alan, fundador de startups.

Há alguns anos, o mexicano participou de um concurso organizado por uma revista local e conheceu Steve Wozniak, cofundador da Apple. Alan estava pensando em entrar em um ‘acelerador’ americano e mudar sua empresa para o Vale do Silício, mas mudou de ideia depois as últimas eleições no país.

“Eu prefiro ir a outro lugar”, diz. “Mudar para os Estados Unidos parece complicado por enquanto: não quero ser maltratado ou discriminado.”

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