Surpresa na Rússia: como Robert De Niro lidou com a falta de fama na URSS

De Niro visitou a União Soviética pela primeira vez em 1982 para participar de uma coprodução soviético-americana sobre a bailarina Anna Pavlova

De Niro visitou a União Soviética pela primeira vez em 1982 para participar de uma coprodução soviético-americana sobre a bailarina Anna Pavlova

Reuters
Os laços do ator norte-americano com a Rússia remontam ao início dos anos 1980, embora fosse praticamente desconhecido pelos soviéticos.

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Quando, em novembro de 2015, Robert De Niro esteve em Moscou para inaugurar outra unidade do Nobu (ele possui ações na rede de restaurantes japoneses), os jornalistas lhe perguntaram se gostaria de obter o passaporte russo, a exemplo de Gérard Depardieu ou Steven Seagal. Na ocasião, De Niro apenas riu e disse: “Como você pode imaginar, esta é uma situação complicada, então vamos ver”.

Isso foi o suficiente para os meios de comunicação afirmarem que o ator “não descarta a possibilidade de ganhar cidadania russa”. Alguns foram ainda mais longe afirmando que ele declarou o desejo de se tornar um cidadão russo. Mais tarde, o agente de De Niro teve que esclarecer que o ator não tinha planos relacionados a isso.

Esse episódio não é o único que liga De Niro à Rússia. A verdade é que o ator é um visitante frequente da URSS e da Rússia desde o início dos anos 1980.

‘Ideologicamente errado’

Segundo o falecido ator e diretor russo Mikhail Kozakov, De Niro chegou à URSS pela primeira vez em 1982 para participar de uma coprodução soviético-americana sobre a bailarina Anna Pavlova. Os produtores americanos queriam contratá-lo para um pequeno papel no filme a fim de atrair espectadores norte-americanos. Mas, depois de sua visita a Moscou, as autoridades soviéticas encarregadas da indústria cinematográfica perceberam que contratar o duas vezes vencedor do Oscar poderia ser ‘ideologicamente errado’. O motivo era sua performance em “O Franco Atirador”.

Ao visitar a URSS, De Niro conheceu várias estrelas do cinema soviético, entre elas Irina Alfiorova. Moscou, 1983

No filme, De Niro interpreta um soldado russo-americano feito de prisioneiro durante a Guerra do Vietnã. Como disse Kozakov, “há uma cena em que, após serem capturados, os personagens principais, incluindo De Niro, estão sendo torturados e humilhados sob um retrato de Ho Chi Min [o líder comunista vietnamita] pendurado na parede. No festival de Berlim, depois desse episódio, nossa delegação [soviética] deixou o salão de cinema sem ver o final do filme”. Apesar de sua clara mensagem pacifista, o longa acabou sendo rotulado como antissoviético.

Ator americano desconhecido

De Niro não deixou o país imediatamente após perder o papel. Segundo Kozakov, o ator estava interessado na URSS. Ali ficou para conhecer Moscou e, posteriormente, voltou várias vezes. Poderia ser estranho para ele, a princípio, que quase ninguém o conhecesse no país. Os filmes de De Niro não eram exibidos na União Soviética.

Em 1987, o ator esteve novamente em Moscou com sua filha Drena, o filho Rafael e um amigo

Havia exceções, porém, como no caso de Kozakov, que reconheceu o ator em um restaurante de Moscou. Esse foi o começo da amizade entre eles. Além disso, a aparência de De Niro causava impressão nos cidadãos soviéticos, contou o diretor.

“Uma administradora bem-vestida em um dos hotéis de Leningrado (atual São Petersburgo) me reconheceu e foi educada e simpática. Quando ela olhou para o americano desconhecido em calças de algodão amassadas e uma camisa leve, ela me perguntou: “Em que depósito de lixo você o encontrou?” Quando eu expliquei quem ele era, ela olhou para mim incrédula”, declarou Kozakov.

“Conexão espiritual”

Durante um programa de TV no país, De Niro descreveu o ator russo Oleg Iankovski como seu amigo. Os dois se conheceram no início dos anos 1980 na Itália. Naquela época, De Niro estava participando das filmagens de “Era uma vez na América”, de Sergio Leone, enquanto Iankovski atuava em Nostalgia de Andrêi Tarkóvkski. Quando Iankovski faleceu em 2009, De Niro lamentou o fato, alegando que o ator russo era uma pessoa importante em sua vida. “Nós tínhamos uma conexão espiritual. Eu tenho os sentimentos mais calorosos para com ele. Eu o amava muito.”

Robert de Niro e Oleg Iankovski na cerimônia de encerramento do 20º Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 1997

A popularidade de De Niro na União Soviética disparou depois da perestroika de Mikhail Gorbatchov, quando os filmes de Hollywood invadiram a URSS. Ainda assim, em 1987, quando presidiu o júri do Festival Internacional de Cinema de Moscou, o ator americano teve problemas para entrar em um hotel na capital, porque os funcionários não o reconheceram – de novo! De Niro teve que contar com a ajuda de companheiros que eram mais conhecidos pelos moradores locais.

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