A luta pela sobrevivência das línguas de minorias russas

Denis Kozhevnikov/TASS
Dezoito idiomas de minorias étnicas russas se perderam para sempre. Agora, governo e ativistas tentam impedir este processo.

A cada duas semanas, desaparece um dos idiomas falados no mundo. Das 7.000 línguas faladas em todo o planeta hoje, 2.680 estão ameaçadas de extinção.

É impossível saber quantas línguas já se perderam na história da humanidade, mas linguistas acreditam que nos últimos cinco século pelo menos 115 línguas tenham se extinguido apenas nos EUA (280 idiomas eram falados no território do país na época de Cristóvão Colombo, enquanto 75 línguas desapareceram na Europa e na Anatólia.

A Rússia não está imune a esta terrível tendência. Existem 40 grupos étnicos minoritários que vivem no país e, das 151 línguas ali faladas, “18 correm o risco de desaparecer, não tendo mais de 20 falantes nativos anciãos”, segundo Ígor Barínov, chefe da Agência Federal de Assuntos Étnicos.

Segundo ele, a Rússia perdeu 14 idiomas nos últimos 150 anos, entre eles, cinco já no período pós-soviético, apesar de um programa estatal ter sido iniciado, ainda na URSS, para proteger as línguas indígenas.

Por que isso acontece?

O aumento da migração e a rápida urbanização estão levando muitos grupos étnicos a mudar seus modos de vida tradicionais. As pessoas estão adotando cada vez mais as línguas dominantes para garantir sua participação cívica e integração econômica. No caso da Rússia, isso significa que as minorias escolhem ensinar a seus filhos o russo, ao invés de sua própria língua nativa.

O Cáucaso do Norte russo é uma das regiões onde as línguas indígenas estão desaparecendo. "No final do século passado, áreas como o Daguestão pareciam não mostrar sinais de declínio, que já eram visíveis no norte da Sibéria e no Extremo Oriente", diz o pesquisador do Instituto de Linguística da Academia Russa de Ciências Rasul Mutalov.

“Mas a situação começou a mudar na última década, quando as pessoas que vivem em áreas montanhosas começaram a migrar para o interior, para cidades e aldeias, e começaram a falar cada vez mais o russo como língua de comunicação interétnica. As gerações mais jovens agora não falam seus idiomas nativos. Os idiomas estão morrendo bem diante de nossos olhos”, completa.

O povo tchelkan que vive na região de Altai, na Rússia, também está deixando de lado sua língua materna. Um pequeno grupo étnico de cerca de 1.113 pessoas (de acordo com o censo de 2010), eles falam sua própria língua há séculos, mas como não ela não é escrita e é limitada principalmente à comunicação familiar, está sendo cada vez mais substituída pelo russo.

Por que salvá-las?

Se é natural que as línguas morram, por que não apenas deixá-las se extinguirem? Em primeiro lugar, as línguas indígenas são a base da identidade de grupos étnicos e ajudam a apresentar uma herança cultural única e modos de pensar centenários. Quando um grupo étnico perde sua língua, com ela se vai grande parte da identidade do grupo.

Em segundo lugar, quanto mais línguas existirem no mundo, mais rico ele é, segundo o diretor do Instituto de Linguística da Academia Russa de Ciências, Andrêi Kibrik.

“Quando uma imagem é colorida, é mais valiosa. Mas quando tudo é mais ou menos o mesmo, monótono, isto empobrece o mundo”, diz.

O que poderia ajudar?

O ano de 2019 foi proclamado o “Ano Internacional das Línguas Indígenas” pela ONU e a Rússia tem realizado eventos para conscientizar o público. Mas não há uma fórmula específica para reverter a situação.

O principal objetivo hoje, segundo os linguistas e entusiastas, é garantir que os povos indígenas considerem sua linguagem uma vantagem, e não uma desvantagem. Para isso, é necessário um conjunto complexo de medidas.

Nos últimos anos, as autoridades fizeram mais esforços para reconhecer e proteger as línguas minoritárias, introduzindo um programa nacional e estabelecendo o Fundo de Preservação e Pesquisa das Línguas Nativas da Rússia. O fundo trabalha atualmente em um novo conceito para a aprendizagem e ensino de línguas minoritárias, um sistema que o país ainda não possui.

A Rússia também começou a implementar a abordagem do “ninho da língua” (“language nest”, em inglês), criada nos anos 1980 na Nova Zelândia, onde os falantes mais velhos da língua participam da educação na primeira infância da criança, buscando melhorar a transferência do idioma entre gerações.

Desde 2013, esta abordagem de imersão foi implementada em cinco jardins de infância nas regiões russas de Iugar e produziu resultados positivos no ensino infantil em línguas indígenas russas khanti e mansi. Em 2018, foram 139 crianças a participar do programa.

Mas ativistas dizem que é preciso fazer mais. Vassíli Kharitonov, cofundador da “Straná Iazikóv” (“País das línguas”), um projeto sem fins lucrativos voltado a promover e criar um banco de dados para as línguas indígenas da Rússia, afirma que organizar eventos para reunir palestrantes de etnias minoritárias é útil, assim como atividades on-line para incentivar a preservação dessas línguas.

Kharitonov criou um site para promover o idioma nanai, que tem somente 50 falantes nativos, todos com mais de 50 anos de idade.

 “Acho que nossa geração é responsável por transferir nossos idiomas e conhecimento às próximas. Não devemos apenas ficar de braços cruzados. Devemos lutar”, diz Mutalov.

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