5 obras-primas imperdíveis para conhecer Dostoiévski

Retrato de Fiódor Dostoiévski. Obra de Konstantin Vassíliev.

Retrato de Fiódor Dostoiévski. Obra de Konstantin Vassíliev.

Iúri Prostiakov/Sputnik
Nesta quinta-feira (11) celebram-se os 200 anos de nascimento do escritor, e se você não conhece (ou conhece pouco) a obra do russo mais admirado de toda a literatura, não perca tempo!

“Se você quer conquistar o mundo inteiro, conquiste a si mesmo”, afirmava Fiódor Dostoiévski em seu romance “Os Demônios”. Um bom conselho, mas difícil de seguir — a menos que você encontre todas as pistas necessárias nas obras-primas do próprio Dostoiévski. Fizemos uma lista delas para celebrar o 200º aniversário do escritor, em 11 de novembro de 2021.

Com intensidade e clarividência dignas de William Shakespeare e Sigmund Freud, Dostoiévski penetrou nos cantos mais sombrios da decadência moral, da pobreza e do colapso humano. Dostoiévski é inigualável quando a tarefa é retratar o inferno russo e expunha implacavelmente a corrupção moral, a imaturidade e a hipocrisia.

  1. Crime e Castigo

O protagonista de “Crime e Castigo” é um novo tipo humano, um tipo dominado pelas ideias niilistas.

Vladímir Kochevoi como Rodión Raskôlnikov no cinema.

Rodión Raskôlnikov é um jovem moralmente ambíguo, que se permite derramar “sangue segundo a consciência”. “Sou uma criatura trêmula ou tenho o direito?”, ele se pergunta, sem cerimônia, tentando descobrir se é “um piolho, como todo mundo, ou um ser humano”. O jovem de 23 anos acaba matando uma velha senhora dona de uma loja de penhor com um machado devido a um experimento moral.

Dostoiévski nunca buscou agradar a todos. Ele era original e ultrapassava os limites do gênero e das expectativas e ambições humanas. “Crime e Castigo” é o romance policial mais perfeito de Dostoiévski, com um toque psicológico. Sabemos desde o início quem matou quem, onde, quando, por que e até como.

E, no entanto, a questão de um milhão de dólares é: quais são as consequências existenciais do crime e como conviver com isso? Dostoiévski está convencido de que, sem abrir caminho através da tentação e sofrimentos terríveis, sem correr contra absolutismos morais, é impossível arrepender-se.

O homem, de acordo com Dostoiévski, não é dotado de razão e lógica, mas sim alguém que deliberadamente vai ao fundo do poço. O escritor acalentava a esperança de que Raskôlnikov pudesse expiar seu pecado.

“Seja o sol e todos verão você. O sol tem, antes de mais nada, que ser o sol”, diz encorajadoramente Porfíri Petrovitch. Segundo Dostoiévski, o perdão é possível por meio do sofrimento.

  1. Os Irmãos Karamázov

Ninguém jamais dominou a arte de fazer perguntas sobre o certo e o errado melhor que Dostoiévski. Mas essas “perguntas malditas” são as que realmente quebram o gelo. "O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de não ser capaz de amar”, escreveu Dostoiévski em “Os Irmãos Karamázov”, seu último e mais perturbador romance. Ele trata de fé, liberdade e família.

Pavel Derevianko, Serguei Gorobtchenko, Aleksandr Golubev, Anatoli Beli e Serguei Koltakov, em cena de “Os Irmãos Karamázov”.

Dostoiévski examina a alma de cada personagem, seja o terrível pai Fiódor Karamázov ou o emocionalmente instável Dmítri Karamázov, pintando um retrato bastante sombrio da alma russa.

Os personagens de Dostoiévski passam por transformações metafísicas inovadoras apenas quando se encontram em condições extremas, entre a vida e a morte, em uma verdadeira queda livre da moral. Isso talvez se deva ao fato de que somente nesse momento eles se vejam claramente pela primeira vez.

O escritor tinha uma mente verdadeiramente forense e usava os "instintos básicos" e fraquezas de seus personagens para explicar a natureza metafísica do mundo. Em “Os Irmãos Karamázov”, um romance que traz um esplêndido enredo policial, Dostoiévski explora as facetas éticas de uma família russa cheia de problemas.

Franz Kafka, fã de “Os Irmãos Karamázov”, chamou Dostoiévski de "parente de sangue" — e não sem motivo. Apesar de serem 100% russos, os personagens de Dostoiévski são universais: cheios de angústia, maldade e miséria e determinados a passar por um inferno emocional em sua busca por liberdade moral e fé.

É uma pena que Dostoiévski tenha morrido tendo escrito apenas a parte da obra, que estava planejada para ter dois volumes.

  1. O Idiota

Os romances de Dostoiévski são extremamente dramáticos. Então, não espere finais felizes de Hollywood. As camadas mais vulneráveis ​​da sociedade são as que mais fascinam Dostoiévski. Ele dá voz aos pobres, doentes e rejeitados.

Em “O Idiota”, o escritor explora o amor e a compaixão, o orgulho e a vileza, a generosidade e a bondade. “A compaixão é a mais importante e, talvez, a única lei da existência para toda a humanidade”, escreveu Dostoiévski neste romance.

Evguêny Mironov como Príncipe Lev Michkin.

O príncipe Lev Nikolaevich Michkin, protagonista principal, é um homem sem futuro, um benfeitor epiléptico que é demasiadamente gentil, ingênuo e ridiculamente infantil para conseguir sobreviver na Rússia Imperial. Assim, o Príncipe Michkin é “idiota” condenado a viver em um mundo que pertence a gente ousada ​​como Parfion Rogojin.

Como contou o próprio Dostoiévski, ele se inspirou em ninguém menos que Jesus Cristo e Dom Quixote para criar seu Príncipe Michkin. Alguns traços autobiográficos também estão associados à imagem do príncipe, um dos personagens mais queridos do autor — que “herdou” até mesmo a epilepsia de Dostoiévski.

Além disso, quando Lev Nikolaevitch inicia uma conversa sobre a pena de morte na Europa e na Rússia, ele descreve detalhadamente os sentimentos de uma pessoa que enfrenta a execução. Curiosamente, foi isso que o próprio Dostoiévski experimentou: em 1849, o escritor foi preso por envolvimento com o Círculo de Petrachevski, um grupo de intelectuais radicais de São Petersburgo que criticava o sistema sócio-político do Império Russo e discutia maneiras de mudá-lo.

Em 1850, Dostoiévski, aos 28 anos (e que, nessa época, já havia publicado dois romances, “Gente Pobre” e “O Duplo”), foi condenado à morte junto com outros 20 membros do movimento jovem. Em uma estranha reviravolta do destino, a sentença foi comutada no último minuto.

A mitigação da punição foi um choque enorme e tornou-se uma lembrança para toda a vida, da qual Dostoiévski jamais esqueceria.

  1. Os Demônios

Em "Os Demônios", um romance poderoso sobre a tentação diabólica de renovar o mundo e a possessão demoníaca pelas forças do mal e da destruição, Dostoiévski previu a disseminação do niilismo, do caos e do ódio.

Anton Chaguin como Piotr Verkhovenski em “Os Demônios”.

O escritor, que passou quatro anos em uma prisão de trabalhos forçados na Sibéria, mostrou-se crente e profeta também. “Cada membro da sociedade verifica e reporta um o outro... Todos pertencem a todos, e tudo pertence a todos. Todos são escravos e iguais em sua escravidão. Em casos extremos, calúnia e assassinato e, mais importante, igualdade”, escreveu Dostoiévski em “Os Demônios”.

“Só o necessário é necessário: doravante, esse é o lema de todo o mundo... Os escravos devem ter governantes. Obediência completa, impessoalidade completa”, escreveu ainda.

Dostoiévski era um homem profundamente religioso, um cristão ortodoxo que invocava o nome de Deus em suas obras com enorme frequência.

“Eu já preciso de Deus porque este é o único ser que pode ser amado para sempre”, escreveu em “Os Demônios”. A imagem de um “demônio encantador” foi criada por Dostoiévski com uma destreza excepcional.

Nikolai Stavroguin tem uma mente fora de série e a alma ferida, um anti-herói, um homem de mil faces, um psicopata manipulador e mulherengo. O filósofo russo Nikolai Berdiáev considerava Stavroguin o personagem fictício “mais misterioso” da literatura mundial.

  1. Notas do Subsolo

Em 1863, Dostoiévski escreveu o que parecia ser o primeiro romance existencialista, "Notas do subsolo", cujo narrador define seu tom extremamente nervoso no parágrafo inicial. “Sou uma pessoa doente... sou uma pessoa má. Sou uma pessoa repugnante.”

O principal filólogo russo do século 20, Mikhaíl Bakhtín, chamou essa forma dostoievskiana de discurso de “palavra com brecha”. É uma boneca russa matriôchka literária, com camadas e mais camadas de conotações e significados contidos em seu interior.

Henry Czerny em “Notas do Subsolo”.

O livro é a confissão de um ex-oficial de São Petersburgo e uma história filosófica sobre a essência da vida humana, um conto trágico sobre a natureza de nossos desejos e um drama sobre a relação doentia entre a razão e a inação.

O “homem do subsolo”, desprovido de nome ou sobrenome, discute com seus oponentes imaginários e reais, e reflete sobre as razões das ações humanas, do progresso e da civilização.

Paranóico, patológico, patético, pobre, ele é um solitário que tem medo de ser descoberto. Depois de ler “Notas do Subsolo”, Friedrich Nietzsche afirmou sobre Dostoiévski: “[ele é] único psicólogo com quem tenho algo a aprender”.

 

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