5 características de Dostoiévski que tornam seus livros tão incríveis!

Vassíli Perov/Galeria Tretiakov
Grande pensador, cristão fiel, intrépido explorador dos cantos mais sombrios da mente humana, o homem que concebeu o thriller psicológico mais famoso do mundo ("Crime e Castigo")... Cento e quarenta anos após sua morte, Fiódor Dostoiévski ainda é fonte de grande orgulho nacional na Rússia e atrai amantes da literatura por todo o mundo.

“Dostoiévski é um cavaleiro no deserto com uma aljava de flechas. O sangue escorre onde sua flecha acerta. Dostoiévski vive em nós. Sua música nunca morrerá”, escreveu, em 1912, Vassíli Rôzanov, um dos filósofos da religião russos mais influentes do século 20. Eis cinco principais traços da personalidade de Fiódor Dostoiévski que o tornaram tão importante:

1. Psicólogo

Dostoiévski (1821-1881) explorou a psiquê humana com enorme profundidade. Seus são permeados de personagens cheios de angústia e miséria.

O funcionamento da mente humana intrigou Dostoiévski ao longo de toda a sua vida. Cada uma de suas obras-primas, entre elas “Os irmãos Karamázov”, “Crime e castigo”, “O idiota”, “Os Demônios” e “O jogador”, é quase um curso introdutório à psicologia.

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Seus personagens, estão emocionalmente acabados. Eles sofrem de culpa (Rodion Raskôlnikov) e ansiedade (Dmítri Karamázov), ciúme (Parfion Rogojin) e ganância (Gavrila Ivolguin), baixa auto-estima (Príncipe Míchkin) e falta de amor (Sonia Marmeladova). Ainda assim, estão prontos para passar pelo inferno emocional em sua busca por liberdade moral e justiça.

"O que é inferno? Afirmo que é o sofrimento de já não poder amar”, escreveu Dostoiévski em “Os irmãos Karamázov”, seu último romance. O mais notável escritor russo usou as fraquezas de seus personagens para explicar a natureza metafísica do mundo.

“Se você quer conquistar o mundo inteiro, conquiste a si mesmo”, afirmou Dostoiévski em “Os Demônios”.

2. Profeta

Em ensaio escrito em 1906, o poeta e pensador russo Dmítri Merejkóvski saudou Dostoiévski como um “profeta da revolução russa”. Os romances de Dostoiévski têm diversas camadas de significado, por isso os leitores às vezes precisam se distanciar de suas obras para que as profecias se revelem.

Retrato de Fiódor Dostoiévski por M. Scherbatov.

Embora Dostoiévski nunca tenha tomado a si próprio por profeta, ele conseguiu resumir os problemas cruciais de sua época e mapear a trajetória do povo e sua evolução.

“A habilidade dele é impressionante. Sem buscar a escala cósmica e as massas humanas de ‘Guerra e Paz’ [de Tolstói], Dostoiévski pega apenas uma quantidade minúscula do material de uma vida - a vida de várias pessoas em períodos de vários dias - e cria um livro de grande importância e poder”, concluiu o também escritor Aleksandr Soljenítsin após reler “Crime e Castigo”, em 1947. O personagem principal de “Crime e Castigo” é um participante de um novo movimento, o dos niilistas. Rodiôn Raskólnikov se permite derramar “sangue seguindo a consciência”. Mais tarde, um grupo de revolucionários russos responderia ao lema ultrajante de Raskôlnikov, cometendo atos de terror "seguindo sua consciência".

Dostoiévski penetrou nos códigos morais, costumes sociais e tradições culturais que permeiam gerações inteiras. Seu poema "O Grande Inquisidor" (incluído em "Os Irmãos Karamázov") é uma antecipação de como um estado ideológico assume todos os direitos morais, privando as pessoas de liberdade e justiça. Esse sistema político foi implementado no século 20, tanto pela direita, como pela esquerda, com grande custo e em vários estados totalitários.

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Em "Os Demônios" (um romance sobre a tentação diabólica de renovar o mundo, a possessão demoníaca pelas forças do mal e a destruição), Dostoiévski previu a disseminação do niilismo, do caos e do ódio. “Cada membro da sociedade verifica e denuncia o outro... Todos pertencem a todos e tudo a todos. Todos são escravos e iguais em sua escravidão. Em casos extremos, calúnia e assassinato e, o mais importante, igualdade”, previu Dostoiévski.

“Só o necessário é necessário - doravante esse é o lema de todo o mundo... Os escravos devem ter governantes. Obediência completa, impessoalidade completa”, escreveu em “Os Demônios”.

“O entusiasmo da juventude de hoje é tão puro e brilhante como era em nosso tempo. Só aconteceu uma coisa: uma mudança de objetivos, a substituição de uma beleza por outra! Todo o mal-entendido reside apenas na questão de o que é mais bonito: Shakespeare ou um par de botas, Rafael ou petróleo?”

3. Influenciador

As palavras de Dostoiévski atingem o coração das pessoas ao longo dos séculos e ultrapassam as fronteiras culturais. Sua voz poderosa mesclava miséria e paixão, suicídio e amor, tragédia e sacrifício.

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D.H. Lawrence, Virginia Woolf e William Faulkner ficaram maravilhados com a capacidade de Dostoiévski de cativar, hipnotizar e ler mentes. De acordo com James Joyce, Dostoiévski “criou a prosa moderna e a intensificou até o nível atual”. Franz Kafka, fã de “Os Irmãos Karamázov”, chamou Dostoiévski de "parente de sangue". Ernest Hemingway citou o autor como uma de suas principais influências: “Em Dostoiévski, havia coisas inacreditáveis ​​e nas quais não se podia acreditar, mas algumas eram tão verdadeiras que mudavam a pessoa que a lia, à medida que ela o lia.”

Depois de ler “Memórias do Subsolo” e “Recordações da Casa dos Mortos”, Friedrich Nietzsche disse: “[Dostoiévski é o] único psicólogo com quem tenho algo a aprender." O aclamado pensador e filósofo russo Lev Chestov chegou à conclusão de que Dostoiévski e Nietzsche compartilham uma peculiar mesmice de espírito e, portanto, os dois “podem, sem exagero, ser chamados de irmãos, e até de gêmeos”.

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Dostoiévski, que lutava contra seus demônios interiores diariamente, foi condenado ao divã do psiquiatra e ninguém menos que Sigmund Freud analisou o russo em seu famoso ensaio "Dostoiévski e o Parricídio", publicado em 1928 como introdução a uma coleção alemã de textos sobre “Os Irmãos Karamázov”. Freud não seria Freud se não tivesse se concentrado no complexo de Édipo de Dostoiévski e nas relações com seu pai, seus ataques epilépticos, opiniões religiosas e um vício de 10 anos no jogo.

4. Existencialista

Ecoando as ideias do pioneiro filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, que colocava a pessoa sozinha e solitária no centro de sua filosofia, Dostoiévski descobriu a verdadeira pessoa interior. “Os infortúnios deixam uma certa marca de orgulho na personagem, a menos que ela seja finalmente destruída por eles”, acreditava Kierkegaard. “O homem é infeliz porque não sabe que é feliz, só por isso”, rebateu Dostoiévski. Dostoiévski e Kierkegaard nunca se encontraram e não se conheceram.

Em 1863, Dostoiévski escreveu o que parecia ser o primeiro romance existencialista, "Memórias do subsolo", cujo narrador define o tom extremamente nervoso no parágrafo inicial: “Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável.” O principal pensador russo do século 20, Mikhaíl Bakhtín, chamou essa forma dostoevskiana de discurso de “palavra com uma brecha”.

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É um mil-folhas literário: a confissão de um ex-oficial de São Petersburgo e uma história filosófica sobre a essência da vida humana; um conto trágico sobre a natureza de nossos desejos e um drama sobre a relação doentia entre razão e inação. O “homem do subsolo”, desprovido de nome ou sobrenome, discute com seus oponentes imaginários e reais e reflete sobre as razões das ações humanas, do progresso e da civilização. Paranoico, patológico, patético, pobre, é um solitário que tem medo de ser descoberto.

O núcleo ideológico de “Memórias do subsolo” é a disputa da personagem principal com as teorias científicas mais famosas de meados do século 19 e a ideia fundamental de Dostoiévski da necessidade da fé cristã e da abnegação.

A novela curta de Dostoiévski ganhou reconhecimento mundial apenas em meados do século 20: acabou sendo uma abertura ao existencialismo, enquanto seu homem do subsolo se tornou o padrinho literário de personagens de Sartre, Camus e outros autores europeus, bem como cineastas.

5. Cristão fiel

Dostoiévski era um homem de contrastes, cujas ideias estavam obviamente à frente de seu tempo. Ele era um homem profundamente religioso, um cristão ortodoxo, que invocava o nome de Deus em suas obras o tempo todo. O escritor descrevia Jesus como “o ideal do homem encarnado”, mas sua atitude para com a religião e a fé sofreu uma mudança notável.

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Alguns historiadores afirmam que, na juventude, Dostoiévski se interessava mais pelas ideias socialistas do que pela religião, enquanto outros afirmam que ele era fervorosamente religioso desde a infância. Uma coisa é certa: Dostoiévski mudou profundamente após sua experiência na prisão.

Em 1849, o escritor foi preso por envolvimento com o Círculo de Petrachévski, um grupo de intelectuais radicais de São Petersburgo que criticava o sistema sócio-político do Império Russo e discutia maneiras de mudá-lo. Em 1850, aos 28 anos, Dostoievski (que na época já havia publicado dois romances, “Gente Pobre” e “O Duplo”) foi condenado à morte junto com 20 outros membros do movimento. Em uma estranha reviravolta do destino, a sentença foi comutada um minuto antes de o gatilho ser puxado. O cancelamento da pena foi um choque enorme, que ecoou em sua memória por toda a vida.

O escritor passou quatro anos realizando trabalhos forçados em uma prisão na Sibéria.Depois disso, foi enviado como soldado para o batalhão do 7ª Corpo do Exército Siberiano. Essa experiência ajudou Dostoiévski a compreender o verdadeiro valor da vida humana.

“A imortalidade da alma e Deus são a mesma ideia”, escreveu em uma de suas cartas, em 1878. “Já preciso de Deus porque este é o único ser que pode ser amado para sempre”, resumiu Dostoiévski ainda em “Os Demônios”.

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