Uma voz visceral ecoando quem não é ouvido

Em “Sou tchetcheno”, ainda sem tradução para o português, Sadulaev cumpre a importante tarefa de colocar o ponto de vista tchetcheno sobre os conflitos da região.

Em “Sou tchetcheno”, ainda sem tradução para o português, Sadulaev cumpre a importante tarefa de colocar o ponto de vista tchetcheno sobre os conflitos da região.

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Uma das grandes promessas da literatura russa contemporânea, Guérman Saduláev compõe lista de autores da coletânea “Dezessete sobre dezessete”, acerca da Revolução de 1917. O badalado Saduláev completa 46 anos nesta terça-feira (18) ainda sem tradução para o português.

Um dos grandes nomes da literatura russa contemporânea, Guérman Saduláev completa 46 anos de idade nesta terça-feira (18) ainda sem tradução para o português, apesar de sua posição de destaque. O escritor compõe, por exemplo, a lista de autores de uma coletânea intitulada “Semnadtsat o semnadtsatom” (em tradução livre, “Dezessete sobre dezessete”) volume que celebra a Revolução de 1917 e conta ainda com nomes como Víktor Pelêvin e outros.

Os títulos de Saduláev ainda não saíram em português, mas sua principal obra, “Iá – tchetchenets!” (“Sou tchetcheno”, em tradução livre), lançada no ano de sua estreia no mercado editorial, 2006, já tem, desde 2011, versões em inglês (“I am a Chechen”, pela Editora Vintage) e em espanhol (“Soy checheno”, pela Siglo XXI de España).

Tem muita coisa errada em “Sou tchetcheno” como romance. Em teoria, a obra não tem enredo e dificilmente alguém que pode ser descrito como personagem, exceto por imagens transitórias de amigos assassinados e memórias de infância.

Mesmo o narrador é uma presença flutuante, enquanto a “mamma” se refere mais aos campos e bosques da Tchetchênia do que a qualquer outra coisa.

A meditação fragmentada de Guérman Saduláev sobre a guerra, a identidade e a falta de raízes é uma mistura difícil de memória transformada em ficção e lamento doloroso.

O estilo também não é confiável, guinando selvagemente entre os horrores dos tempos brutais de guerra, passagens roxas de tragos e flores silvestres e informação histórica como pano de fundo.

As descrições autoconscientes da paisagem tchetchena são embaraçosamente cheias de frases como “o peito da pátria” e metáforas exageradas envolvendo “a vaca escarlate do sol” vagando para o “pasto azul do céu”.

Apesar de todas estas admoestações, este é um livro importante e por vezes comovente. A guerra pouco reportada entre a Rússia e a Tchetchênia precisa de vozes que a contem sem servir “nenhum dos lados do sistema de propaganda”, como coloca o autor, já que ambos os lados nutririam uma imagem da “Tchetchênia como inimiga da Rússia”.

Saduláev nasceu na aldeia tchetchena de Chali e se mudou para Leningrado (atualmente, São Petersburgo), em 1989, para estudar direito. Ele ainda trabalha como advogado ali, mas suas ligações pessoais com a Tchetchênia tornam impossível a tarefa de escrever imparcialmente.

Ele frequentemente desafia o leitor publicamente no próprio romance, escrevendo: “Eu sei, é desarticulado, um esboço... Não tem um enredo principal. É difícil ler prosa assim, certo?”

No final das contas, a natureza visceral do fluxo de consciência é tão forte quanto fraca. O leitor é pego em uma efusão emocional que uma edição teria tornado distante ou clínica.

Neste romance, ele compara seus próprios escritos a “jatos de sangue” ou bombas de fragmentação, proibidas pela Convenção de Genebra, cujas partículas se incrustam no coração da garota ao lado.

Em dado momento, Saduláev compara os casos documentados de suicídios pós-Vietnã com a incontável quantidade de moços na Rússia que se mataram após serviço ativo na Tchetchênia.

“E esses eram os melhores soldados”, ele escreve. “Há outros... eles também retornaram”. A mensagem, no final, é simples: “Temos que conquistar o mal para nos elevarmos acima do ódio”.

A editora russa de Saduláev em 2006 era a controversa Ultra Kultura. Seu fundador, Iliá Kormiltsev se descrevia como “um opositor consciente do sistema político russo atual”. Sua editora foi fechada em 2007, quando ele se mudou para Londres, onde morreu de câncer.

Em uma matéria para a Vintage Books em 2010, Saduláev mencionou o assassinato da jornalista Anna Politkóvskaia, a mais renomada a cobrir o conflito no Cáucaso, e escreveu: “Não há censura formal, mas há liberdade de expressão?”.

Já há uma tradição entre os escritores russos, entre eles Lermontov e Púchkin, de celebrar as belezas e a bravura do Cáucaso. “Hadji Murat”, de Tolstói, abre com o símbolo do cardo, despedaçado pela roda, mas “renascido”, que se recusa a se render aos humanos, que “destruíram todos seus irmãos ao redor”.

Entre os relatos mais recentes da sangrenta região, há “Alkhan-Iurt” (2006), de Arkady Babtchenko, que saiu em inglês, pela Grove Press, como “One Soldier’s War” e em espanhol, pela Galaxia Gutenberg, como “La guerra más cruel”.

Um olhar sob a perspectiva tchetchena é uma raridade, principalmente em línguas estrangeiras. Saduláev, como o cardo de Tolstói, viu amigos e familiares perecerem no conflito brutal.

Ele se despedaçou de culpa por não ter estado lá. “Eu deveria ter morrido”, escreve. Mas os amigos que morreram nunca poderão escrever sobre o assunto. “É por isso que eu... – que continuei aqui – escrevo este livro”, completa.

Seu último título saiu em 2017, "Roman na palmovikh listiakh" (em tradução livre, "Romance nas páginas da palma"), ainda sem traduções.

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