Os 150 anos de Zinaída Guíppius, a poetisa que se firmou como a primeira feminista da Rússia

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O legado radical de Zinaída no século 19 foi ofuscado pelos poetas russos mais famosos da chamada Era de Prata, como Aleksandr Blok e Anna Akhmátova. O Russia Beyond analisa a vida e a obra dessa escritora – e mulher – ferozmente independente, cujo nascimento completa 150 anos nesta quarta.

Zinaída Guíppius foi uma eminente poeta, escritora e crítica de prosa na Rússia. Sua influência poética e cultural andava de mãos dadas com a recusa em obedecer às noções prescritas de feminilidade. Admirada por escritoras da estirpe de Virginia Woolf e Gertrude Stein, foi figura central na elite cultural da época, apesar do comportamento subversivo. Hoje, porém, foi praticamente esquecida no Ocidente.

Inovadora e influente

Retrato de Guíppius por Iliá Repin, 1894

Nascida em Beliov, Tulá (180 km ao sul de Moscou), em 20 de novembro de 1869, Guíppius começou a escrever poesia desde a tenra idade. Mudou-se para São Petersburgo em 1889, depois de se casar com Dmítri Merejkóvski, que era também poeta, escritor e um crítico literário significativo. Os dois logo se tornaram figuras-chave da elite literária de São Petersburgo, realizando saraus ilustres e familiarizando-se com figuras importantes como Maksim Górki, Anton Tchékhov e Lev Tolstói.

Após a Revolução de 1917 e a subsequente guerra civil, Guíppius e Merejkóvski se uniram ao êxodo de escritores, filósofos e estadistas da Rússia que se mudaram para Paris em 1919. Lá realizaram saraus famosos aos domingos, nos quais Guíppius era uma líder autoritário, apresentando os temas para discutir e administrando polêmicas. Em 1927, organizou a primeira reunião do “Zelenia Lampa” – a Lâmpada Verde, um dos mais importantes e eruditos dos grupos literários de emigrantes daquele período.

Guíppius, Filosofov e Merejkóvski, em 1920

Guíppius era uma poetisa inovadora firmemente ancorada no centro da primeira leva de escritores do simbolismo russo, e muitos poetas simbolistas subsequentes basearam-se em suas experiências com rima e métrica. Os escritores simbolistas viam a palavra escrita como um meio de apreender uma verdade infinita e transcendental, e Guíppius brincava com motivos e temas decadentes do sagrado e do profano.

A poetisa formulou a ideia de que “a arte deveria se materializar apenas no espiritual”, e sua espiritualidade – assim como muitos outros aspectos de sua vida – não era convencional, estando ligada a uma busca por liberdade espiritual. “Minha alma está nua, despojada até a mais pura nudez”, escreveu em seu poema “O anel de casamento”, de 1905. “Escapou, transcendeu todos os seus limites.”

Desafiando as regras de gênero

Retrato de Guíppius por Leon Bakst, 1906

A poesia também era um espaço em que Guíppius podia escapar das expectativas de gênero. Costumava adotar um pseudônimo masculino e era criticada por usar terminações masculinas de verbos e pronomes pessoais. Em resposta, afirmou que queria “escrever poesia não apenas como mulher, mas como ser humano”. 

Guíppius tratava sua vida como arte, e a usava como outro meio de explorar sua filosofia criativa. Fora de seu círculo, tinha a reputação de ser uma “Madonna decadente”, comparada ao diabo. Não fazia nada para contradizer esses rótulos, associando-se à figura gótica da aranha e usando imagens decadentes em sua poesia:

A seda arde em chamas,

Então vira poça de sangue;

“Amor” é nossa palavra mesquinha

Para o que a linguagem de sangue não consegue nomear.

(“A costureira”, 1901)

O estilo pessoal de Guíppius era elaborado e subversivo. Às vezes, usava vestidos ostensivamente femininos, considerados “inapropriadas” por muitos ao redor, com uma imagem e atitude que parodiavam as concepções convencionais de feminilidade. Andrêi Beli, um dos mais importantes simbolistas russos, descreveu-a como “uma vespa do tamanho humano”, dizendo que “uma mecha de cabelos ruivos esticados... ocultava um rosto pequeno e torto... o charme de seu esqueleto ossudo e sem quadril lembravam um Satanás comunicador habilmente cativante”. 

Guíppius no início dos anos 1910

Guíppius também costumava se vestir com roupas masculinas e carregar óculos tipo lorgnette de lente única, ou monóculo, para o horror de seus contemporâneos. Embora incomum, vestir-se com roupas do sexo oposto não era algo inédito no início do século 20, mas a presença de Guíppius como uma figura estilisticamente andrógina, porém essencialmente masculina, revela a complexidade de sua identidade autocriada. A figura do dândi, que ficou mais famosa na Europa com Oscar Wilde, era tipicamente um indivíduo decadente e autoconsciente, interessado em artifícios e sensações artísticas intensas, que cultivava um comportamento distante e desdenhoso.

Guíppius, em 13 de dezembro de 1897

Uma mulher ferozmente individual, Guíppius assumiu o compromisso de proteger e cultivar a cultura russa – tão distinta da soviética – e inspirou e ajudou seus contemporâneos tanto quanto os confundiu. As pessoas se esforçavam para compreender esse verdadeiro radicalismo, mas sua proeza poética e influência literária lhe davam a liberdade de desconsiderar normas sociais de modo tão flagrante. Em seu poema “Encantamento”, de 1905, ela clama: “Bata, coração, bata cada coração por vez! / Levanta-te, cada alma destemida!”. Mais de um século depois, esse grito de guerra ainda desafia os leitores a abraçar a individualidade e reconhecer a liberdade que pode advir de desafiar as normas esperadas da sociedade.

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