‘Viagem sentimental’ leva o leitor ao olho do furacão da Guerra Civil Russa

Chklóvski.

Chklóvski.

Semion Michin-Morgenchtern/МАММ/ МДФ
O sangue em Chklóvski abunda como em um filme de Tarantino. Cabeças são cortadas, homens são executados, crianças são mortas, mulheres se besuntam em excremento para tentar evitar estupros dos soldados – sem sucesso. Reflexo de tempos sombrios, obra ganha tradução em português pela editora 34.

“Viagem Sentimental” é um título que pode levar um leitor desatento a imaginar uma obra completamente diferente da que faz Víktor Chklóvski (1893-1984) sob esta inscrição. O livro traz, envolto em ironia, o tumulto e a carnificina da Rússia revolucionária em meio à Primeira Guerra Mundial, os pogroms, a ocupação da Pérsia e a Guerra Civil. Tudo entremeado com os estudos de Chklóvski de teoria literária, que ele conduzia enquanto testemunhava (e vivenciava, porque foi também instrutor de direção de carros blindados, comissário de guerra, conspirador antibolchevique e especialista em bombas) esses horrores.

O sangue em Chklóvski abunda como em um filme de Tarantino. Cabeças são cortadas, homens são executados, crianças são mortas, mulheres se besuntam em excremento para tentar evitar estupros dos soldados – sem sucesso.

“Umas pessoas que conheço me contaram que, quando os nossos invadiram a aldeia, as mulheres, para se salvar dos estupros, passaram fezes no rosto, no peito e nas pernas da cintura até o joelho. Eles as limparam com trapos e estupraram”, escreve.

Não se pode, porém, acusar Chklóvski de sádico ou cruel: ele apenas descreve um mundo que o é. “Viagem Sentimental”, um livro cheio de vida e energia, morte e desgosto, sangue e trevas, faz um cuidadoso relato histórico-documental da vida em tempos de caos no sistema social.

Chklóvski, R.S.Kuchner, Lilia Brik e Maiakóvski na praia, na ilha Norderney, na Alemanha, em 1923.

O livro mostra ainda os horrores do cenário que se seguiu à Revolução, já que as pessoas morriam, em sua maioria, durante a época da Guerra Civil, não devido às atrocidades ou executadas, mas de fome e doenças infecciosas – causadas pelo colapso do sistema.

“Em meados de janeiro de 1918 cheguei a Petersburgo, vindo do norte da Pérsia. (...) Minha primeira impressão: as pessoas se jogando em cima do pão branco que eu trouxera comigo. Depois, a impressão de que a cidade, de alguma forma, ensurdecera. Como depois de uma explosão, quando tudo se acabou, quando está tudo destruído. Como uma pessoa que teve as entranhas arrancadas por uma explosão, mas que ainda fala”, escreve Chklóvski.

Uma vida cheia

Chklóvski e Maiakóvski na praia, na ilha Norderney, na Alemanha, em 1923. Foto de Osip Brik.

Foi em meio a essa juventude agitada que Chklóvski escreveu “Viagem Sentimental”, em 1924, em Berlim, para onde fugiu após deixar Petersburgo, onde corria risco de ser preso.

Seus pontos de vista eram então moderados, mas mesmo que ele não tenha compartilhado do pensamento bolchevique, escreve neste volume: “Quando vocês forem julgar a revolução russa, não se esqueçam de jogar o sacrifício no prato da balança, de jogar neste prato demasiado leve o peso do sangue daqueles que aceitaram a morte nos campos de milho da galícia, o peso do sangue dos meus pobres camaradas.”

O historiador e crítico literário Kiríll Korbin, ao elencar “Viagem Sentimental” entre as mais importantes obras sobre a Revolução de 1917, escreve: “Se quiser persuadir um jovem em direção à atividade revolucionária, coloque em sua mão ‘Viagem Sentimental’”.

Depois de Berlim,Chklóvski retornou à União Soviética. E, mesmo não sendo bolchevique, viveu ali até os 91 anos de idade, escrevendo, a um só tempo, livros sobre literatura, obras literárias próprias, artigos e roteiros para cinema.

Contagem de Hamburgo

Víktor Chklóvski com a mulher, Serafima Suok.

Chklóvski foi um homem multitarefas. Como escritor, foi o gênio das metáforas. Foi ele quem criou, por exemplo, a expressão “contagem de Hamburgo”, usada até hoje na língua russa, com o sentido de um “autêntico sistema de valores livre de condições momentâneas e de interesses cobiçosos”.

Em livro homônimo, ele escrevia: “A contagem de Hamburgo é um conceito extremamente importante. Todos os lutadores, quando lutam, trapaceiam e se deitam nas omoplatas a mando do empresário. Uma vez por ano, os lutadores se reúnem na taverna de Hamburgo. Eles lutam com as portas fechadas e janelas cobertas. É longo, é feio, e é pesado. Aqui se estabelecem as verdadeiras classes dos lutadores – para que não se aja de má fé. Uma contagem de Hamburgo é necessária na literatura. Pela contagem de Hamburgo, não há [Aleksandr] Serafimovitch e [Vikenti] Veresaev. Eles não chegam até a cidade. Em Hamburgo, é Bulgákov no tapete. Bábel é peso leve. Górki é duvidoso (frequentemente, sem uniforme). Khliébnikov foi campeão.”

Nos ringues da literatura soviética, marcados pelo prêmio Stálin e a União dos Escritores, que barrou a publicação de tantos gênios que dela não faziam parte, Chklóvski teve posição menos central. Apesar de bastante reconhecido por seus estudos sobre o formalismo e, principalmente, sobre Dostoiévski, Tolstói e Eisenstein, sua obra literária ainda não é amplamente conhecida pelos russos em geral. No Ocidente, porém, despertou-se o interesse pela obra de Chklóvski dos anos 1920 a partir da década de 1960. 

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