Emigrante russo que lavava carrinhos em Nova York tem uma das galerias mais badaladas da cidade

Alexandre Gertsman é hoje um ‘marchand’ de sucesso, mas quando decidiu se mudar para os EUA estava desesperado.

Alexandre Gertsman é hoje um ‘marchand’ de sucesso, mas quando decidiu se mudar para os EUA estava desesperado.

Alexandre Gertsman Contemporary Art Gallery
A “Alexandre Gertsman Contemporary Art Gallery”é um dos espaços culturais mais interessantes de Manhattan e local popular de reunião da comunidade artística russa local.

O fundador da galeria emigrou para os EUA há 26 anos, e sua ascensão meteórica ao topo do mundo boêmio de Nova York começou bem de baixo: ele lavava carrinhos ambulantes e vendia imagens nas ruas da cidade.

Na galeria, Alexandre Gertsman (que se pronuncia Aleksandr Guértsman) coloca em destaque os artistas das antigas repúblicas soviéticas. Mas ele também é conhecido por organizar eventos de caridade.

Para apresentar os norte-americanos à arte russa contemporânea, ele já organizou mais de 40 exposições em museus, entre eles o “National Museum of Women in the Arts” (Museu Nacional de Mulheres nas Artes), em Washington D.C., o “Art Museum of Yeshiva University” (Museu de Arte da Universidade Yeshiva), em Nova York, e muitos outros.

Gertsman é hoje um marchand bem-sucedido comercialmente, mas sua decisão de se mudar para os EUA foi feita por total desespero. "Decidi deixar a Rússia depois do golpe contra Gorbatchov. Embora o golpe tenha fracassado e eu tivesse um emprego ótimo, percebi que o país poderia voltar a qualquer momento à tirania e comecei a buscar uma maneira de escapar”, disse ao Russia Beyond.

Um grande movimento na arte

Quando Gertsman decidiu deixar a Rússia, ele tinha 34 anos. Formado em arquitetura, seu inglês era ruim e ele não tinha contatos nos EUA. Até que, no final das contas, um parente distante de um amigo de sua mãe resolveu em ajudar.

Gertsman começou a lavar carrinhos ambulantes de rua para pagar as contas e a trabalhar como empregado doméstico em Long Island em troca de acomodação. Até que ele conseguiu um emprego como guarda de galeria no Museu Guggenheim.

“Encontrei alguém que conhecia pessoalmente Mark Kostabi, o renomado artista americano. Ele trabalhou com alguns pintores russos e foi assim que conheci meus primeiros clientes . Eles se ofereceram para se ser meus representantes porque eu parecia fundamentado e educado. Eu ri, mas decidi tentar”, diz Gertsman.

Gertsman começou a vender imagens perto do Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA), conseguindo tirar de US$ 200 a US$ 300 por algumas delas. Logo acabou fazendo mais contatos no mundo da arte. "Conheci artistas um pouco mais famosos e muitos colecionadores de arte que podiam comprar alguma peça cara", diz.

Salvo do esquecimento

Seus novos amigos, os colecionadores de arte, ofereceram a Gertsman a criação de uma fundação para promover a arte do Leste Europeu de todas as 15 repúblicas da antiga União Soviética, a qual ele estabeleceu uma em 1993.

Ele começou a organizar exposições e logo percebeu que precisava deixar o emprego. no Guggenheim para se concentrar em negociar arte.

 “No início do ano 2000, quando começou o boom da arte russa nos EUA, eu já estava trabalhando com os artistas de língua russa mais famosos de Nova York. Como eu os consegui? Antes de eles entrarem na moda, suas obras de arte acumulavam pó nos estoques de galerias de arte americanas. Eles se aproximaram de mim, pedindo que eu tirasse suas imagens do esquecimento e as trouxesse à luz. ”

Com grandes obras de arte em mãos, Gertsman aproveitou ao máximo a crescente demanda por arte russa e, no final, conseguiu comprar seu próprio espaço para montar uma galeria.

Fim da moda para a arte russa

"No início do século 21, houve uma terceira onda de moda russa no mundo: os oligarcas da antiga União Soviética começaram a comprar arte jogando os preços para cima", explica Gertsman.

Houve duas ondas anteriores nos EUA. A primeira foi na década de 1970, quando os artistas Leonid Sokov, Aleksandr Kosolapov, Vitáli Komar e Aleksandr Melamid, entre outros, mudaram-se para o país. Naquela época, os russos eram “exóticos”.

A segunda onda começou em 1988, depois que a Sotheby's organizou o primeiro leilão privado em Moscou. Apenas artistas que viviam na Rússia puderam expor. "Os que venderam bem logo encontraram galerias em Nova York", conta Gertsman ao Russia Beyond.

A terceira onda terminou em 2008, quando os mercados financeiros globais entraram em colapso. Grandes casas de leilões, como a Sotheby's, a Phillips e a Bonhams, não conseguiram vender as obras de arte russas e os preços caíram.

O mercado se recuperou no final de 2009. Mas, ainda assim, nunca se recuperou totalmente.

A galeria exibe Natalia Nesterova, uma das artistas russas mais aclamadas internacionalmente no cenário da arte contemporânea.

Arte e política

"A política afeta a demanda. As relações dos EUA com a Rússia estão sob muita pressão e a situação com a Ucrânia é incerta. A maioria dos colecionadores não sabe o que vai acontecer amanhã”, diz Gertsman.

Sua galeria ainda é o centro da elite intelectual de língua russa. Masha Gessen, jornalista russo-americana, realizou a noite de autógrafos de um livro ali para angariar fundos para a comunidade LGBT da Rússia.

Gertsman também não tem medo de temas políticos controversos. Sua próxima exposição contará com artistas ucranianos proeminentes.

“Estou além da política. Nasci na Ucrânia soviética, mas estudei em Moscou e prefiro não discutir determinados assuntos. Mas os artistas que expõem na minha galeria devem poder mostrar como se sentem", diz.

“Algumas vezes, não concordo com as ideias deles, mas aceito o trabalho mesmo assim, porque é assim que deve ser. Os artistas podem se expressar, mas os homens de negócios das arte devem ser neutros”, completa.

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