O ‘homem pequeno’ retorna à literatura russa (repaginado!)

Depois de antropomorfizar Moscou com sucesso em 2012, Zaiontchkóvski volta a cair nas graças de leitores e críticos com “Prosas de Timosha”.

Depois de antropomorfizar Moscou com sucesso em 2012, Zaiontchkóvski volta a cair nas graças de leitores e críticos com “Prosas de Timosha”.

Vladimir Fedorenko/RIA Novosti
Depois de ganhar os corações dos leitores e críticos ao antropomorfizar a capital russa, Zaiontchkóvski volta às livraria com um trintão vivendo no apartamento dos pais e complementando a renda do escritório em uma casa de massagens.

Depois de estrear na literatura, há 12 anos, com seu “Sergueiev e a cidadezinha” (em russo, “Sergueiev i gorodok”), que foi de cara indicado ao prêmio Rúski Buker, e atingir o ápice com seu “A felicidade é possível” (em russo, "Tchastie vozmojno: roman nashego vremeni", publicado em inglês como “Happiness is possible”), o escritor Oleg Zaiontchkóvski, 59, voltou a cair nas graças dos críticos com seu “Prosas de Timosha” (2016).

O protagonista do novo título, Timosha, é um homem de 30 anos, o típico “homem pequeno” da literatura russa. Ele vive com os pais em um prédio alto do tipo “panêlni” (também conhecido pelo nome alemão de “plattenbau”, edificações pré-fabricadas de concreto), trabalha em um escritório de projetos.

À noite, Timosha (apelido de Timofêi) complementa o orçamento em uma casa de massagens. Entre seus clientes, algumas mulheres acabam virando suas amantes. Mas um desses casos, com Nádia, vira amor. Só tem um problema: Nádia é casada.

Timosha precisa mudar de vida, e rápido. Mas não consegue.

Esta história ordinária de um homem comum em uma situação para lá de corriqueira poderia passar despercebida. Mas o estilo de Zaiontchkóvski não deixa. Ele é um trocista de fina ironia e excentricidade encantadora.

Moscou vive

Apesar de se ter tornado clichê descrever cidades como protagonistas de romances, em seu “A felicidade é possível”, o escritor, descendente da pequena nobreza polonesa, traz uma Moscou viva e que tudo abarca.

As personagens humanas interagem com a cidade antropomorfizada. “Moscou se manteve indiferente ao amor abnegado de Marina”, ele escreve. Ou então “a cidade... é o árbitro de nosso destino e o mestre de nossos desejos”. E finaliza com “somos moscovitas, filhos do metrô; de novo e de novo buscamos refúgio em seu ventre maternal”.

 O romance foi finalista nos dois principais prêmios nacionais da literatura e compõe uma série de vinhetas de humor negro.

O narrador é um romancista passando por dificuldades deixado pela ambiciosa mulher, que o trocou por outro. Tudo de que sua história carece em trama, ela ganha amplamente em um charme desgrenhado e estilo.

Ele se arrasta, a barba por fazer, pela datcha (casa de campo russa) em Vaskovo ou enche o apartamento abandonado de Moscou com pelo de cachorro e cinzeiros.

O cheiro de esgoto funciona. O som da furadeira ou as pontadas de ciúmes são os grãos com os quais Zaiontchkóvski faz joias de suas histórias.

O escritor nasceu na cidade de Samara, localizada às margens do Volga, e trabalhava como engenheiro de foguetes. No início da década, mudou-se para Moscou. Seu protagonista comunica a atração gravitacional da cidade: submeter-se a ela é como unir-se a um clube secreto.

O som ensurdecedor prove um “conforto e confiança que apenas nós podemos compreender”, escreve. Mas Moscou também requer sacrifícios. Se todos se acomodassem com alegria, diz o narrador, a metrópole também perderia energia.

Ao invés de iniciar famílias, os cidadãos “são tecidos, a todo minuto, em uma rede de infinitas linhas de comunicação”.

A versão inglesa tem introdução de A.D. Miller, uma escolha perfeita dados os elementos comuns entre a obrado russo e “Snowdrops”, do londrino, que também foi indicado ao Man Booker com esta.

Um narrador falho, um senso poderoso de Moscou como um local e um sentimento para o absurdo das coisas que podem acontecer ali... Para Miller, “Moscou é um monstro”. Ele simpatiza com o relato de Zaiontchkóvski da natureza brutal, corrupta e descomprometida da vida urbana.

Mas, em “A felicidade é possível”, como sugere o título, há mais momentos de afeição por uma cidade infinitamente interessante e uma celebração da vida de seus habitantes.

Este é um romance fora do comum entre as (ainda relativamente poucas) obras russas contemporâneas em tradução para outras línguas (apesar de ainda não ter sido vertida para o português), que não trata nem dos triunfos e horrores da história, nem do terror profético de um futuro distópico.

O livro de Zaiontchkóvski está ambientada na Moscou contemporânea, com suas pressões contemporâneas e seus prazeres. Ele combina humor de situação e reflexão filosófica com um limite distintamente russo.

O narrador discursivo, flutuante e fatalista, que gosta de dormir durante o dia, é reminiscente do preguiçoso protagonista de Gontcharov, Oblómov, o exemplo clássico da literatura russa do tradicional “homem supérfluo”.

Por vezes, porém, a sátira literária está mais para a “Novela teatral” de Bulgákov, onde um indivíduo fraco está perdido em um labirinto de oficiais burocráticos e diretores quixotescos.

O protagonista de Zaiontchkóvski é levado ao “lugar de Gridlevski”, onde diz-se que a “fraternidade cultural” janta, mas o romancista-narrador nunca ouviu falar de lá.

Também há traços do humano-canino de “Coração de cachorro”, de Bulgákov, em fina sintonia entre o narrador e seu companheiro canino.

Em um capítulo, ele e seu bichinho de estimação se tornam uma “comunidade homem-cão”.

Dos detalhes da vida em seu entorno, as áreas para cachorros, datchas, metrôs, anéis viários, namoros pela internet e buffets literários, Zaiontchkóvski trama uma tapeçaria fina, a qual é preciso olhar de longe para admirar.

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