Como é fazer um filme na ISS, segundo o primeiro diretor de cinema no espaço Klim Chipenko

Serguêi Sevostianov/Sputnik
Em entrevista ao RT, o cineasta falou sobre os momentos mais difíceis, gravidade zero e limitação de tempo e descreveu a decolagem como uma incrível volta de montanha-russa.

Klim Chipenko passou 12 dias a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS) filmando ‘Vizov’, ou ‘O Desafio’ (em tradução livre), o primeiro longa-metragem rodado parcialmente no espaço. Junto com Iúlia Peresild, eles se tornaram a primeira atriz e diretor do mundo a viajarem para a órbita da Terra. O retorno à Terra aconteceu em 17 de outubro.

Chipenko dirigiu um drama espacial sobre a missão soviética de 1985 para resgatar a estação Salyut-7. Mas a recente experiência lhe ensinou novas formas de criar cinema, que ele compartilhou em entrevista ao canal RT. Confira abaixo os trechos mais marcante:

As coisas mais difíceis no espaço

“Existem certos aspectos da vida que eu tive que me acostumar: me lavar, comer e ir ao banheiro. É muito desconfortável lá. Uma pessoa consegue se acostumar com praticamente qualquer coisa, mas esses aspectos são os mais difíceis de se acostumar. Fora isso, é o estado de voo e você não tem uma perspectiva e vista da Terra. Nada aqui embaixo pode superar isso.”

Sobre o momento que a ficha caiu

“Foi o primeiro dia em que chegamos. Foi assoberbante, ficamos meio em choque após a decolagem e a acoplagem e muito cansados - uma mistura dessas sensações. Lembro-me de que Iúlia e eu voamos pela estação, fizemos um tour por toda a ISS, incluindo a seção norte-americana. No final desta excursão, voamos para a cúpula e Iúlia e eu estávamos congelando lá em cima. Então paramos de voar, ficamos hipnotizados. Acho que foi o primeiro momento em que percebemos ‘Oh Deus, estamos no espaço, enfim chegamos’.”

Como filmar tudo sozinho

“Estávamos rodando como um filme com iluminação artística. Eu ficava pensando nisso, não ligávamos as luzes somente e ‘vamos lá!’. Não, eu estava tentando criar uma atmosfera cinematográfica ali e não ter minhas sombras sobre a atriz. Basicamente, eu estava tentando fazer Iúlia parecer bonita, para enfatizar isso, porque ela é uma mulher bonita.

Foi difícil, eu também estava cuidando da engenharia de som, mecânica de câmera, backup de material, enviando para a Terra para meu editor checar e o colorista ter certeza de que eu estava fazendo todos os aspectos técnicos direito e não estava muito escuro e não muito brilhante. (...) Não estou dizendo isso porque sou um grande herói, eu sabia que seria assim. Eu me preparei e treinei para isso.”

Convivendo e trabalhando com os cosmonautas

“Eles estão acostumados a ficar diante de câmeras! Além disso, quando eles não estavam em cena, e eu estava voando por aí com a câmera, um deles me protegia para não bater a cabeça em uma lâmpada ou algo assim. Isso é um problema porque, quando olho no visor, apenas vejo o visor - não vejo para onde estou voando.”

Sobre magia no espaço

“Luz... tivemos que esperar por ela às vezes. A cada 40 minutos, muda da escuridão para a luz e vice-versa. Essas transições são realmente mágicas. Não é apenas como um pôr do sol... também é algo difícil de reproduzir. O Sol começa a se transformar em algo como luzes do arco-íris. Tivemos uma cena em que Iúlia está sentada na frente de um iluminador, conversando com a Terra. O Sol mudou de tantas maneiras que criou uma luz espacial mágica especial. Você pode imitá-lo aqui, mas eu não seria capaz de reproduzir.”

Tempo em órbita

“Eu realmente não tive tempo para muitos telefonemas lá. Como você provavelmente percebeu, eu estava de barba quando aterrissei. Eu não tinha antes. Realmente, não tinha tempo de fazer a barba. Demora cinco vezes mais. Eu ficava, bem, eu preciso mesmo me barbear, talvez eu possa começar a filmar mais cedo? O processo leva mais tempo do que na Terra. Portanto, não tinha tempo a perder.”

Vantagens de filmar no espaço

“Passei muito tempo imitando gravidade zero na estação espacial, então conheço as limitações do que se pode fazer, mesmo com uma verba enorme. Lá em cima, o que você estava tentando imitar por meses… simplesmente acontece. Quando você está dirigindo um filme espacial na Terra, é realmente difícil torcer seu cérebro em quatro dimensões e criar e inventar a cena em gravidade zero.”

“Aqui, seria realmente incomum se uma pessoa estivesse em pé na parede ou no teto. Mas lá, é muito natural! Algumas cenas eu filmei de uma maneira que percebi que nem seria capaz de inventar na Terra.”

Sobre o lançamento espacial

“Foi mais como uma incrível volta de montanha-russa. Experimentamos apenas 2,5 força-g [durante a decolagem], eu acho, então não foi ruim. A aterrissagem teve uma força-g de 4-4,5, mas fomos treinados para 8. Quando o paraquedas abriu, pensei que a cápsula estava indo, tipo, 360 [graus] antes da aterrissagem. O astronauta americano Shane (Kimbrough) contou que fez isso duas vezes e foi como uma volta selvagem. Foi um passeio selvagem, mas pensei que seria 10 vezes mais selvagem!”

Corrida espacial no cinema

“Sou muito competitivo, pratico esportes e é sempre bom ser o primeiro. Não sinto que encerrei esse assunto. Acho que é apenas o começo, e as pessoas vão olhar para o que filmei lá e pensar: Bem, agora entendemos o que é possível fazer lá. Acho que os cineastas estariam interessados ​​em filmar na ISS e vou compartilhar minha experiência. Seria bem mais fácil para o segundo cineasta, porque tinha várias coisas que não sabia o que esperar.”

Confira a entrevista completa com Klim Chipenko aqui (em inglês).

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