Único cosmódromo flutuante do mundo, ‘Sea Launch’ será retomado com bilhões do governo

Vitáli Ankov/Sputnik
Depois de fracassar duas vezes, projeto foi quase desativado por completo em agosto de 2020. Especialistas independentes tentam explicar o que está por trás de nova iniciativa.

O cosmódromo flutuante ‘Morskoi Start’, mais conhecido como ‘Sea Launch’, tem sido fonte de orgulho e esperança para o país, desde que passou para mãos privadas. Primeiro porque foi o primeiro cosmódromo não pertencente ao Estado – bem como o único grande projeto privado de cosmonáutica da Rússia; em segundo lugar, a Rússia realmente teve que lutar por isso; e em terceiro, ninguém mais tinha um igual.

Sea Launch

Esse último fator é, sem dúvida, o de maior apreço. Afinal, o cosmódromo móvel, situado bem no meio do Oceano Pacífico, permite à Rússia lançar mísseis direto da linha do Equador – posição geográfica que permite não só o uso mais eficiente da rotação da Terra, mas também a capacidade de lançar cargas muito mais pesadas. Até Elon Musk já se mostrou fã da ideia.

Como a Rússia adquiriu o cosmódromo?

Odyssey em sua configuração original como plataforma de perfuração

No início, o projeto era internacional, porém com raízes russas. Em 1993, a ideia de um cosmódromo flutuante foi idealizada pela corporação Enérguia – a principal empresa de construção de foguetes na Rússia. Mas o país não dispunha de recursos para isso e decidiu-se atrair parceiros estrangeiros. A participação foi então dividida entre Boeing (40%), Enérguia (25%), os escritórios ucranianos Iujnoe e Iujmash (5% e 10%, respectivamente) e a norueguesa Aker Kvaerner (atual Aker Solutions).

Um porto do Báltico tinha uma plataforma de perfuração móvel, a Odyssey – que pegou fogo em 1988, entrando no livro dos recordes como um dos maiores desastres marítimos da história da humanidade. Depois disso, a plataforma nunca mais foi usada, e sua estrutura parcialmente enferrujada permanecia nas docas de Dundee, na Escócia. Mais tarde, foi transportada de volta para casa para reparos em Viborg.

Incêndio da Odyssey

A Odyssey, o navio acoplado a ela, bem como todo o equipamento, junto com a base terrestre em Long Beach, na Califórnia, passaram então a compor o projeto ‘Morskoi Start’. Desde 1998, já foram realizados 36 lançamentos – 32 deles com sucesso. Mas isso não foi suficiente para compensar os gastos e, em 2009, o consórcio pediu concordata. A infraestrutura passou primeiro para as mãos da Enérguia e da agência espacial russa Roscosmos, seguida em 2016 pela empresa espacial privada S7 Space. Fontes da Bloomberg estimaram na época seu valor em US$ 100 milhões.

Sea Launch deixando Canal de Suez rumo ao Mar Vermelho em 1998

A Morskoi Start tornou-se, assim, o principal ativo da S7 Space. A empresa planejava competir com a SpaceX, de Elon Musk, criando seu próprio veículo de lançamento. Desde então, o fundador do S7, Vladislav Filev, foi comparado a Musk e ao fundador da Amazon Jeff Bezos, com especulações de uma corrida espacial.

O problema com a aquisição da S7 era que a plataforma não estava em boas condições e não rendia dinheiro. O projeto estava atolado em todos os tipos de problemas que a empresa na época pensava que seria capaz de superar.

Pandemia não enterrou completamente o sonho

Um dos principais obstáculos enfrentados pelo projeto hoje é a simples falta de foguetes. Devido aos eventos na Ucrânia em 2014, o escritório Iujmash se recusou a fornecer à Morskoi Start o foguete Zenit, especialmente adaptado para ser usado na plataforma. A privatização do projeto também não resolveu o problema. O complexo esquema de entrega envolvendo a Ucrânia, os EUA e a Rússia não se concretizou.

A empresa começou a apostar no foguete Soyuz-5 (‘Irtysh’) da Roscosmos, mas ele só estará disponível em 2023. Uma vez que o foguete não poderia ser lançado do território dos EUA, o cosmódromo inteiro teve que ser transportado pelo Pacífico para a região de Primorski. O projeto exigia a criação do zero de uma infraestrutura independente. A plataforma estava parada desde 2014, quando fez último lançamento.

O coronavírus parecia ser o último prego no caixão de ambições da S7. Com as perdas financeiras incorridas pela empresa, o cosmódromo foi colocado à venda como um ativo secundário. Até junho de 2020, ninguém via sentido em adquirir o projeto.

Prestígio vale mais do que dinheiro

Nem a Rosatom – um dos compradores mais proeminentes – nem qualquer corporação estatal da Rússia queria injetar bilhões de rublos em um projeto não lucrativo. Uma fonte próxima à Roscosmos revelou que S7 estava pronta para enviar a plataforma para o ferro-velho se não fosse encontrado um comprador a tempo.

Mas esse não é mais o caso.

O vice-primeiro-ministro russo Iúri Borissov falou, durante a exposição de armas Army-2020, na Rússia, sobre o plano de retomar o cosmódromo, com a injeção de 35 bilhões de rublos (aproximadamente US$ 465 milhões). Anteriormente, a Rosatom havia estimado um investimento na faixa de 91 bilhões, levando em conta a inflação – o que seria oito vezes o preço pedido pela S7. A decisão foi tomada após consulta ao presidente Vladimir Putin, segundo Borissov.

Imagem aérea do transportador Xin Guang Hua, de Hong Kong, levando a plataforma Odyssey

A origem dos recursos para financiar o projeto permanece “uma questão em aberto”. Espera-se que a Rosatom, a Roscosmos e a S7 se juntem ao conselho de investidores, que também prevê a inclusão de “outros vários fundos e bancos – já que precisamos do dinheiro”, declarou Borissov, alegando como motivo para a decisão de reinvestir no programa que “seria estúpido não renovar a Morskoi Start” e utilizá-la.

Mas os especialistas independentes veem apenas uma razão para a retomada: o prestígio que vem com a iniciativa. “Afinal, é um projeto interessante do ponto de vista técnico – a única plataforma flutuante do mundo”, diz Vitáli Egorov, fundador do projeto ‘Open Space’. Segundo Egorov, a Morskoi Start não é comercialmente vital para os interesses russos. “Ela vai, na verdade, competir com os russos Angara-A5 e Vostótchni, não haverá missões comerciais ou do governo suficientes para ambos os projetos, e competir com a SpaceX no mercado global será difícil”, afirma.

O fato de que o projeto único está sendo praticamente empurrado goela abaixo dos compradores parece indicar que é o único jeito, de acordo com o ex-construtor da Sukhôi Vadim Lukachevitch: “Apenas o governo é capaz de arcar com a compra da Morskoi Start. E não importa quem seja colocado no conselho de investidores – Rosatom, Roscosmos, Sistema de Energia Unificado da Rússia, Sberbank, Gazprombank, VTB, já que nenhum empresário em sã consciência investiria dinheiro em um empreendimento que faliu duas vezes, cada qual com um grande escândalo.”

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