Tudo o que você sempre quis saber sobre dicionários russos

Gigantes da tradução e do ensino dão suas dicas de livros de referência.

Gigantes da tradução e do ensino dão suas dicas de livros de referência.

Marina Darmaros
Mas nunca teve a coragem – ou a chance - de perguntar aos grandes tradutores.

Foi uma enxurrada de cartas e e-mails à redação desde que a Gazeta Russa foi fundada para saber quais os melhores dicionários, livros e sites de referência do russo para o português. Ok, não foi tanto assim, mas aproveitando o ensejo recente de alguns e-mails recebidos pelos nossos editores, não perdemos a chance de falar com os novos gigantes da tradução e do ensino de russo no Brasil.

Irineu Franco Perpétuo, 45, tradutor literário

Foto: Marina DarmarosFoto: Marina Darmaros

“Uso muito material de consulta, on-line e em papel. Mas, se tivermos que ficar especificamente na área russo-português-russo, minha ferramenta primordial é o dicionário russo-português de Voinova, Starets, Verkhucha e Zditovetski, que me acompanha dese os tempos de estudante do idioma, nos idos dos anos 1980. Na verdade, uso tanto esse dicionário que tive que comprar mais que um - e penso em breve em adquirir outro, pois a utilização constante vem destruindo o meu volume. Todo dicionário poderia ser mais completo, e esse, especificamente, bem mereceria uma atualização cultural e ideológica; de qualquer maneira, com o uso, a gente vai se habituando a suas idiossincrasias, e ele funciona muito bem para a literatura clássica, e também textos do período soviético.

No português-russo, uso Starets-Feershtein, embora também seja algo anacrônico. Acho que ainda dá para mencionar mais duas obras de diálogo entre as línguas, que já uso menos: ‘Locuções russas por imagens’, de Dubrovnin/Mello (as imagens são realmente divertidas), e ‘Dicionário politécnico russo-português’, de Asryantz/Matveev.

Em um assunto desses, porém, não dá para reconhecer a importância gigantesca representada pela internet e suas ferramentas de busca. A quantidade de conhecimento que podemos acessar em um clique é inimaginável, e creio que algumas de minhas traduções teriam sido inviáveis, não fosse por esse recurso. Felizmente, vai longe o tempo em que Boris Schnaiderman tinha que ir à Biblioteca Nacional para consultar o único dicionário russo-francês disponível no Rio de Janeiro.”

Daniela Mountian, 40, proprietária da editora especializada em obras russas “Kalinka”

Foto: Marina DarmarosFoto: Marina Darmaros

“Também uso o clássico dicionário russo-português organizado por N. Voinova, S. Starets, V. Verkhucha e A Zditovetski. Temos duas versões: de 1975 e de 1989 (Editora Língua Russa). Há mais alguns dicionários impressos em casa, como, por exemplo, um que saiu em 2006 (Astrel – ACT) organizado por N. V. Ivánov, mas quase não o uso.

Tenho instalado no computador o dicionário ABBYYLingvo (russo-português; português-russo), que, embora esteja mais centrado no português de Portugal (como os dicionários impressos, por sinal), tornou-se uma ferramenta indispensável para o meu dia a dia. Na verdade, muitas acepções são as mesmas oferecidas pelo primeiro dicionário que citei. No ABBYYLingvo os verbos podem ser conjugados e os adjetivos e os substantivos declinados, além de ele disponibilizar traduções do russo para outras línguas -- muitas vezes, é nessa interação de línguas que nos achamos, como sempre me diz a tradutora Graziela Schneider. O dicionário também fica conectado ao Word e o instalei até no meu celular. Existe também uma versão on-line para quem não quiser comprar o pacote. Nele não há tradução diretamente para o português, mas há para o espanhol, inglês, italiano, francês, etc. Outro recurso interessante do dicionário on-line é a possibilidade de ouvir a palavra (muito útil para quem está começando a estudar russo). No entanto, mesmo sendo um dicionário relativamente eficiente, é preciso tomar cuidado com algumas traduções, sobretudo quando se trata de comida, vestimentas etc. Nesse caso, se não conheço o termo, sempre confiro (vendo imagens e até consultando receitas).

O fato é que dificilmente um dicionário resolverá, por isso uso várias ferramentas ao mesmo tempo. São materiais impressos e disponíveis na internet: sites para conjugação de verbos e acentuação; enciclopédias; dicionários envolvendo outras línguas (russo-espanhol, russo-inglês, russo-francês, etc.); dicionários fonéticos, de termos antigos (Dal), de gírias (saíram vários na Rússia no últimos anos), de expressões idiomáticas, de sinônimos e antônimos; fóruns de discussão russos... E, conforme a tradução, procuro materiais específicos, como no caso de minha tradução de Chalámov, para o qual consultei um dicionário de termos usados em campos de prisioneiros. Por sinal, ter o alfabeto cirílico instalado no computador é uma mão da roda (existe até um dispositivo que adapta o teclado cirílico ao latino).  

Além do mais, são inúmeras conversas com tradutores e pesquisadores: russos -- principalmente com Moissei Mountian, meu pai, Tatiana Lárkina, que é minha professora de russo, Valéri Sájin e Yulia Milkaelyan -- e brasileiros -- sobretudo com Irineu Franco Perpetuo e Graziela Schneider.

E asseguro que, mesmo com tudo isso, há dúvidas de sobra em minha cabeça!”

Lucas Simone, 33, tradutor literário

Foto: Fernando PastorelliFoto: Fernando Pastorelli

“Meu principal recurso é o dicionário Voinova-Starets. Ele é um pouco antiquado, porque a última edição é de 1988. Mas para traduzir literatura clássica é muito bom. Além disso, a parte de idiomatismo é excelente (e um pouco engraçada, também).

Também uso muito o Wiktionary para ver tônicas, flexões etc.; além do dic.academic.ru, um portal de dicionários que agrega o Dal, Uchakov, Ójegov, Iefrémova, Enciclopédia Soviética etc. Esse, geralmente, utilizo quando quero uma definição do russo para o russo mesmo.

E, claro, sempre é útil dar aquela espiada na nossa amiga Wikipédia, para uma nota de rodapé ou coisa do tipo.”]

Fabricio Yuri, 38, ex-professor de russo da UFRJ

Foto: Arquivo pessoalFoto: Arquivo pessoal

“Qualquer tradução passa primeiramente por um processo de compreensão do texto. Primeiro, uma leitura criteriosa e um registro dos termos que precisam ser estudados ou reavaliados, de acordo com o contexto. Para um trabalho cotidiano ou mesmo para um estudo sem grandes pretensões, uso o Multilex, da Paragon Software. Conforme o grau de dificultade vai aumentando, recorro ao Lingvo, da Abby ou aos tradicionais:

‘Dicionário Prático Russo-Português’ (N. Voinova / S. Starets)
Moscovo Edições 'Russki Yazik', 1986
12 mil palavras

‘Portugalsko-Russkii / Russko-Portugalskii Slovar’ (Vitalii Hlyzov)
Martin Moskva 2001
40 mil palavras 

‘Bolshoi port-rus / rus-port Slovar’ (Nina Voinova)
Izd. Russkii Yazyk, 1989
53 mil palavras.

Quando a tradução fica mais técnica, ou ainda mais específica, em contextos históricos, é preciso recorrer a publicações em russo, como o Dicionário Fraseológico ou o Dicionário Linguístico, ambos da editora Russkii Yazik. Muitas vezes, em traduções técnicas, recorro às publicações da Langenscheidt ou da Oxford.”

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